Crônica

Couchsurfers no Bloco do Baixo Augusta

Eu precisava de novas amizades ou ia ser o bloco do eu sozinho. Mas como fazer amigos numa cidade onde não existe amor e quase nenhuma amizade verdadeira?

Foto: Acadêmicos do Baixo Augusta arrasta multidão no dia 8 de fevereiro, em São Paulo. (Créditos: Elineudo Meira @fotografia.75 – Reprodução).


O apê do AirBnb era num prédio no meio da folia na Consolação. Da janela, dava para ver o bloco amarelo da Skol alguns quarteirões adiante. Quando desci, dei de cara com os trios do Bloco do Baixo Augusta testando o som. Eba! 

Só que meus amigos de São Paulo desistiram de me acompanhar na aventura carnavalesca e não iam mais me encontrar. Eu precisava de novas amizades ou ia ser o bloco do eu sozinho. Mas como fazer amigos numa cidade onde não existe amor e quase nenhuma amizade verdadeira? 

Eu tinha um plano B, o couchsurfing, aquele facebook de viajantes que quase acabou na pandemia. Prevendo o bolo dos meus amigos, criei duas semanas antes um post na rede para reunir quem quisesse ir junto ver o Baixo Augusta. Catorze pessoas confirmaram. Havia também um grupo de whatsapp. 

O ponto de encontro era o Carrefour Express da Paulista, quase na Consolação, às vinte para a uma. Cheguei na hora. Minha camiseta Pitombeira dos Quatro Cantos ajudou o pessoal a me localizar na multidão. 

Primeiro apareceu uma paulistana simpática toda fantasiada. Depois, uma alemã tímida, mas empolgada para aderir à muvuca. Abraçada a uma pochete, de cabelo preso, usava blusa e shorts discretos. Perguntei onde estava a fantasia de carnaval. Turista despojada, ela respondeu que não teve tempo de preparar nada. Em seguida, veio um cara da grande São Paulo fantasiado jocosamente de Itaú acompanhado de um francês sem adereços além do espírito. 

Enrolamos para ver se aparecia mais alguém e seguimos. No caminho árduo até o Sujinho, apareceu um surfista de sofá da velha guarda, que devia ter mais de setenta carnavais, paulistano que confundiu o pessoal com um boné da Itália, depois uma garota da região em traje de academia e uns amigos do bancário de mentirinha. Um verdadeiro minibloco do couchsurfing. Circulou um estojo de glitter da bolsa do bancário e eu, a alemã, o francês e a esportista ganhamos uma maquiagem colorida ao redor dos olhos.

Os trios do Baixo Augusta atrasaram o passo por causa do bloco novato que estava adiante todo embolado. Dois megablocos não ocupam um mesmo espaço e a prefeiturice da prefeitura não provou o contrário. 

Embora tentasse disfarçar com um sorriso nervoso, nossa amiga alemã ficou assustada com a multidão cada vez maior. A música aliviava a sensação de lata de sardinha. Sou praieiro, sou guerreiro, quero mais o quê? Um espacinho. 

Do alto do trio elétrico, Bruna Pazinato sorriu para mim e o francês, que a gravava com o celular. Tá bom, a gente aguenta o aperto. 

O trio seguiu e a turma acabou engolida pela multidão. Fiquei para trás e me perdi. Caminhei mais um pouco em busca de alguma cabeça reconhecível. Em vão. Cansado, escapei por uma transversal e contornei até conseguir voltar ao apê. Faria tudo de novo.