escritos

Centelha

Qual é a medida de tempo entre o 31 e o primeiro, entre 2025 e 2026. Na contagem regressiva do 10 ao feliz ano novo, quais lembranças, afetos ou sonhos nos perpassam?

Arte: “Romaria”, de Emerson Rocha (reprodução).


Nas últimas duas semanas, um pouco mais, talvez, antes de me sentar para escrever este texto, fui fisgado pela óbvia ideia de circundar o acontecimento que quiçá mais mobiliza ritos na humanidade: o ano novo, o réveillon. Imagens, sensações, pensamentos, memórias, filosofias me cercaram como mariposas em torno da vela cuja chama, quase finda, ainda assim as faz bater asas em dança de vida, morte e ressurreição. 

Pensei em começar refletindo sobre qual é a medida de tempo entre o 31 e o primeiro, entre 2025 e 2026. Na contagem regressiva do 10 ao feliz ano novo, quais lembranças, afetos ou sonhos nos perpassam? Que tempo se anuncia na virada? O marcado por dias, horas, segundos? Data não me parece bom termo para abordar a longevidade do Tempo. Muitos povos já celebraram seus despertares. Alguns deles têm mais de 5 mil anos de existência. Pensei, então, em começar pensando: que tempo é esse, tão diverso em seus calendários, mas com um centro-pulsação comum: a demarcação do fim e do início, do ciclo – essa brisa contínua que sopra o toco da vela e anima o farfalhar das mariposas no escuro do porvir?

Pensei, também, em começar com a fala de Pai Jacó de Aruanda, preto-velho que me acompanha desde os 7, há 41 anos novos, portanto: “tem que ouvir o silêncio que vem antes das palavras, filho”. Como, diante de tanto ruído? Quando, diante de tanto ponteiro? Onde, diante de tantas antenas, fios, eletricidades? Por quê, diante de tantas respostas e tão poucas perguntas? É do silêncio que nascem as investigações mais profundas de quem somos. No entanto, o acessamos tão pouco. Pousamos quase nada sobre a névoa tênue e morna onde reside a leveza do Espírito. 

Pensei, ainda, em principiar pela cantiga que o marinheiro Zé do Porto entoa, gingando o corpo para lá e para cá em frente aos atabaques que, como ele, mareiam: “Atravessei o mar escuro/com meu candeeiro estrelado/a lua surgiu no horizonte/deixando meu barco iluminado”. Na passagem para o novo ano, quais luzes atravessam nossos sentidos? As dos fogos de artifício, das velas acesas à beira-mar, do farol-sentinela que, olhos acesos, orienta os navegantes, guia-os rumo a qual traçado, qual rota, quais marés enluaradas do destino? Qual candeeiro estrelado levamos nas mãos quando cruzamos nossas águas internas? Qual lua míngua, cresce, prenha, nova de significados vindouros?

Quais movimentos são toda a experiência que se manifesta, que se realiza, no canto, na reza, na fé que dá a cada um a medida de suas incertas esperanças?

– Antonio Arruda

Pensei em começar por dezembro. Pelo meu dezembro. Mês que é o fim-início do meu ciclo. Quando celebro meu odun, meu “aniversário” de iniciação no Orixá. Quando louvo Exu, Ori, Xangô, Ifá. Obis lançados à terra revelam as mensagens. A noz sagrada que tem a força de um boi prenuncia os bons e os maus agouros. Os ikin nas palmas em concha, banhados pela água que cai das folhas maceradas pelo babalaô. De joelhos, entoo adurás. Deitado sobre a esteira de palha, recolho-me para renascer. Diante de meu Pai, choro de felicidade – o pilão altivo sustenta a gamela onde o edun ará é a escrita do raio que conduz o Axé. Em transe, cubro-me com o banté do rei, o alujá marcando o bailado de ogodô, os giros com os oxés em punho. Orixá nasce de dentro para fora. É no giro do universo interno que nos reconhecemos inteiros? Quais movimentos são toda a experiência que se manifesta, que se realiza, no canto, na reza, na fé que dá a cada um a medida de suas incertas esperanças?

Pensei em tantos começos, que me esqueci do meio. Da encruza. Do ponto onde a escolha no fio da navalha-vida corta os caminhos de antanho, de outrora, do agora e do amanhã. Para trás, para a frente, para um lado, para o outro – qual o sentido do rito de passagem? O despertar na madrugada onde o céu se preenche de flamboyants, ou o adormecer na alvorada onde a raiz espia a primeira sombra que a copa faz sobre os pés descalços do andarilho?

E como finalizar um texto cujo início se deu pela tentativa apenas de iniciá-lo? Se “Exu matou um pássaro ontem com a pedra que só atirou hoje”, o que me resta senão fazer das palavras “pedrinhas miudinhas de Aruanda ê”, e no “lajedo tão grande, tão grande” que é a existência, me deixar morrer ao término do texto, para, quem sabe, voltar à vida na escrita onde – que assim seja, para sempre, oxalá, amém! – deságuo ao retorno do não-tempo, do não-ser, centelha?


escritos é uma coluna/arquivo em construção que reúne reflexões sobre a espiritualidade, metafísica e experiências filosóficas afrocentradas (mas não só isso), assinada por Antonio Arruda.