Manancial

Bandeide emocional de fim de ano

Viradas (de mesa, de tempo, de jogo) são sempre caóticas, mesmo.

Arte ‘Iroko’, de Matheus Ribs (Reprodução).


Em dezembro começaremos a fazer listas. Me adiantei e iniciei uma agora: a missão é elencar belezas do fim do ano para contrapor às nossas angústias. Pensei nas cerejas frescas que pintam nas gôndolas nessa época. Por mim, elas valem a avalanche de compromissos e assuntos mal resolvidos do período dezembrítico. Poderia finalizar aqui minha lista.

Lembrei também que o fim de ano é esse período ritualístico, ensaiado feito peça teatral. E se tem algo bom da repetição é identificar o que na gente ficou melhor, em que pese o peso pesado de um dia após o outro e os questionamentos sobre botox. Afinal, ser sex não é fax, não. Aquela dor que sempre aparece, antes tão aguda, agora, mais de 30 ceias natalinas depois, é acomodada de um jeito um pouco menos pior. E isso é uma coisa muito boa a se celebrar. Tá vendo? É um ritual, uma pecinha teatral. Tem rima, cadência, briga de egos na coxia e pouca gente na plateia. Maria, José, Jesus e a manjedoura. Talvez alguma mirra, quem sabe algum incenso…

Tem outra coisa muito boa, essa não do fim do ano, mas do começo do outro: o pacto nacional da preguiça. Enquanto no último bimestre do ano prestes a acabar tudo é urgente, no ano novo as coisas só engrenam mesmo depois do carnaval. Isso une cristãos e pagãos, num grande acordo nacional.

Aqui pras bandas do sudeste, a depender da mudança climática, tem cheiro e som da chuva, com sorte o grito das cigarras e de repente um ou outro arco-íris. Em São Paulo, as ruas do centro esvaziadas dão a sensação de que os prédios ficaram muito mais altos e que os nossos pensamentos podem ser até escutados por quem passa ao lado. No Grajaú, o ensurdecedor som das motos, as bombinhas e os cheiros dos churrascos desenham a atmosfera.

Eu queria fazer uma lista mais extensa, é verdade, mas estamos falando de uma virada: de mesa, de tempo, de vida, do ano. É meio turbulento, mesmo. A gente torce para continuar de pé, segura um ou dois pratos, não derrama um pingo de cerveja do copo e depois cata os caquinhos do que a gravidade atraiu pro chão. Pá e vassoura, recomecemos do lixo.

Leia Também: Mó Dupé