‘Bambino a Roma’: a meninice selvagem de Chico Buarque
Em “Bambino a Roma”, lemos um jovem Chico Buarque que perambula pela cidade que o desafia, e, ao mesmo tempo, o encanta, de modo que, a cada página, memória e imaginação se tornam um grande rizoma.
Foto de Bel Pedrosa/ Divulgação.
Engana-se quem acha que a infância se distancia de nós à medida em que amadurecemos. Na verdade, penso que quanto mais os anos correm, mais ela se impõe à nossa frente. Há muitos jeitos disso acontecer, mas, para quem escreve, a infância se estabelece através da linguagem. Não à toa, no romance “Bambino a Roma” (Companhia das Letras, 2024), Chico Buarque se debruça sobre seus anos na Itália, quando seu pai é convidado a lecionar na Universidade de Roma.
A viagem de navio é tortuosa, vômitos sucessivos, uma metáfora de que mudanças nos causam uma insegurança nauseante, porém, a rotina basta e tudo se acalma, aterra-se. Em tom poético, o escritor nos escancara sua meninice selvagem, que nada sabe, mas tem sede de descoberta. Feito águia, o garoto capta a nova paisagem e a cultura para ele ainda esquisita, enquanto o seu corpo experimenta sensações das mais diversas, na virada para adolescência.

Bambino a Roma: o desejo do autor-narrador de preservar uma época como um desejo de futuro sempre ligado ao passado
A infância se torna, então, um rabisco, ou melhor, um esboço, o qual, mais tarde, organizará a vida adulta. Embora numa passagem, Chico Buarque se auto-intitule um flâuner, prefiro dizer que, enquanto criança, ainda sem consciência de si o bastante, ele perambula pela cidade que o desafia, e, ao mesmo tempo, o encanta, de modo que, a cada página, memória e imaginação se
tornam um grande rizoma, quando não é mais possível o leitor (nem mesmo o escritor) saber onde uma começa e a outra termina, instante em que o autor/narrador começa a se desterritorializar para se reterritorializar, de esquina em esquina pelas ruas, de cômodo em cômodo em casa.
Uma trama bonita de se acompanhar graças à linguagem literária robusta que o autor sustenta, num movimento que, feito pontes contínuas, une os tempos presente, passado e por que não dizer futuro, tendo em vista que a memória também constrói o devir? Esse rizoma, bordado magistralmente pela memória e pela imaginação de Chico Buarque, tece o desejo do autor-narrador de preservar uma época como um desejo de futuro sempre ligado ao passado, talvez um fio condutor do autoconhecimento. Enfim, um belíssimo romance para revisitarmos também o nosso eu-criança. Recomendo.

Companhia das Letras, 2024.
166 pp.
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