
Baepi: A trilha do caminho da verdade e como eu vivi a natureza
Cheguei à conclusão que ao menos uma vez na vida a gente tem que realizar uma vontade distante. Se eu não vou instaurar a paz no mundo, eu posso ao menos fazer uma trilhazinha, não é? Fala sério, não é coisa que morre. Quão ruim pode ser?
Foto: Pico do Baepi (Tripadvisor/ Reprodução).
Logo no primeiro encontro, ele já me perguntou que esporte eu fazia, como eu gostava de passar os meus dias e se era do tipo aventureira. Assim, a queima roupa mesmo. Eu me lembro de encostar as costas na cadeira, respirar fundo, tomar um gole do meu drink e pensar “tá, o que eu respondo agora que ainda vai deixá-lo interessado por mim”. Cá entre nós, leitor, eu não sou lá do tipo muito esportista. E você sabe disso. Além de que maratona de leitura não parece ser a resposta correta neste caso. Minha vontade era dizer que gostaria de passar o resto dos meus dias numa cadeira bem confortável com um bom livro e um caderninho para escrever. Nenhuma resposta parecia ser a correta. Falei então que era louca apaixonada pilates e a hot yoga que me interessava por exercícios que colaborassem com a ligação entre o corpo e a mente. Aquela resposta bem genérica, sabe? Eu até meio que gosto de hot yoga e pilates1, mas poxa, apaixonada já era criatividade demais. Apaixonada mesmo estava eu por ele. Pouco me lixava para a ligação entre corpo e a mente.
Só Deus sabe o que o menino na minha frente pensou quando eu respondi isso. Ele balançou a cabeça, sorriu e mudou de assunto. Se ele acreditou ou se achou que era balela aí eu já não sei dizer. Sei que por bem e por bem o negócio colou, comecei a namorar com ele e me vi tendo de mergulhar (por vezes na forma literal) nessa de esportes. E lá se começa mais uma crônica.
Gabo (sim, apelidado em homenagem ao último romântico) é um cara que pode ser classificado como “esportista”. Ele surfa, mergulha, pesca, nada, faz trilha, malabares, anda de skate e faz de tudo que a sua livre imaginação pode desejar. Tipo uma versão da Barbie. Só que melhor. Como em todo bom relacionamento, a gente faz uma troca: ele é obrigado, sem opção de escolhas, a fazer maratonas de leituras com análises críticas das obras (em geral, escolhidas por mim) e eu, por outro lado, tenho a opção de optar em certas manhãs a fazer uma média de 15 minutos de algo relacionado a esportes ou se eu prefiro ler um livrinho. Somos balanceados, como você pode ver. E por incrível que pareça, eu até escolho fazer algo um esportezinho ou outro.
Um certo fatídico dia, eu disse para um grupo de pessoas, que eu tinha vontade de fazer a trilha do Baepi. Assim, leitor, vontade eu até tinha mesmo. Mas era aquelas vontades distantes da gente, sabe? Tipo vontade de acabar com a fome no mundo, vontade de fazer o bem sem ver a quem, vontade de comer sushi todo dia… vontades que a gente tem, mas nunca faz de verdade. Nunca deixam de ser vontade. O Baepi ao qual eu me referia, é um morro localizado na Ilhabela. Digo “morro” pois é etimologicamente incorreto dizer “montanha” já que no Brasil não há montanhas. Mas, e aqui reitero, mas aquilo é uma montanha. O negócio é altão. São uma média de seis horas de trilha. E aqui eu volto a repetir, são seis horas de trilha.
Nem o Gabito, homem dos esportes, estava pronto para uma dessas.
Quem dirá eu!
Certa manhã, o pai dele nos acorda super cedo dizendo:
— O dia está lindo! Acabou de abrir um céu bem azul, vai lá fazer a trilha do Baepi com a Sophia! Ela disse que morre de vontade de fazer! Vai lá fazer sua namorada feliz.
Não teve muita discussão. Gabo poderia até argumentar falando que me conhecia bem demais para saber que essa era uma vontade distante, como a de acabar com a guerra no Oriente-Médio, mas o pai dele disse que estava a caminho e daria uma carona para o começo da trilha. Gabo me olhou com aquela cara típica do “sério mesmo?” e eu logo cheguei à conclusão que ao menos uma vez na vida a gente tem que realizar uma vontade distante. Se eu não vou instaurar a paz no mundo, eu posso ao menos fazer uma trilhazinha, não é? Fala sério, não é coisa que morre. Quão ruim pode ser?
Não, leitor, ninguém me avisou que era uma trilha de seis horas.
Quando menos espero, me torno uma ecoturista que deixaria Mãe Bióloga arrepiada de tanto orgulho. Levantei da cama com toda a vontade de fazer a diferença no nosso mundo quebrado. Coloquei um look preparado para o evento matinal, calcei meus tênis prontos para se sujarem de terra, passei repelente em todas as partes do corpo juntamente com o protetor solar, amarrei o meu cabelo e preparei a garrafinha de água. Eu estava mega pronta! Gabo me olha de cima a baixo enquanto calça o Crocs. Apenas o Crocs, bermuda e camiseta.
A manhã ainda estava acordando quando entramos no parque estadual. Assinamos o nosso nome na lista de visitando e começamos a andar. No começo a trilha é aberta. Uma graminha baixinha, bem aparada, sendo dividida por um trecho de estrada de terra que a corta. Mas isso era só no começo mesmo. Conforme a subida vai se intensificando, a grama vai deixando de ser aparada e em questão de poucos passos, o mato já está da altura da sua cabeça e você não consegue ver mais nada. No meio do caminho, nos primeiros dez minutos de caminhada tem um mirante. Preste muita atenção nesta parte, leitor, é aqui aonde você deve ir e ficar. Mais do que isso, é só para crônicas mesmo.
Paramos no mirante, admiramos a vista e pensamos que se a vista do mirante já era bonita, a de lá de cima deveria ser fenomenal. É uma conclusão lógica, leitor. Por conta disso, optamos em continuar a trilha sorrindo. A gente tinha um objetivo, a gente tinha um sonho e uma expectativa. Só que, leitor, logo depois do mirante a trilha começa de verdade. A mata se torna fechada, com árvores altas, folhas secas, tocas de bichos, aranhas, cheiro de xixi de onça, cobras e troncos caídos. E meu amigo leitor, é uma subida desgraçada. Seu pilates de segunda e quinta não vão te salvar dessa, acredite em mim. O Baepi tem 1.048 metros de altitude. E nós estamos falando de nível do mar, hein?
“Conforme a subida vai se intensificando, a grama vai deixando de ser aparada e em questão de poucos passos, o mato já está da altura da sua cabeça e você não consegue ver mais nada. No meio do caminho, nos primeiros dez minutos de caminhada tem um mirante. Preste muita atenção nesta parte, leitor, é aqui aonde você deve ir e ficar. Mais do que isso, é só para crônicas mesmo.”
Me esforcei nos primeiros dez minutos, depois disso minha passada começou a ficar mais lenta, e mais lenta, e mais lenta… a garrafinha de água começou a ficar mais pesada… meus pés começaram a se cansar, minhas pernas começaram a doer… mas eu tinha que ser forte. Eu tinha que me esforçar. Eu tinha que mostrar para Gabo que eu podia ser esportiva também, eu tinha que mostrar que eu era também uma exímia companheira de aventuras e trilhas ecológicas. Eu tinha que dar o meu melhor, eu tinha que ser o meu melhor. Coloquei mais força nas pernas, lembrei que fazia (e pagava) pilates para isso, pensei que se não fosse eu, outra menina poderia fazer essa trilha com os pés nas costas no meu lugar. E essa foi a minha motivação. O ódio. Jamais poderia deixar com que outra roubasse o meu lugar!
Quando eu vi, estava explorando a mata como um verdadeiro Tarzan. Eu era a natureza, encarnei a Mãe Bióloga e me debrucei sobre a ecologia. Entre a Pacha-Mama e eu, não havia diferença nenhuma. Eu pertencia àquele lugar. Eu me conectei com a natureza. Abri os braços e senti o ar puro adentrar meus pulmões e curar meu nariz quebrado. Comecei a sentir todos os meus ancestrais homens das cavernas se instalando nas minhas entranhas e me dando a força exploratória expedicionária na mata intocada. Mais um pouco, estaria cantando Hakuna Mattata com Timão e Pumba.
A subida deixou de ser tão ruim, deixou de ser difícil, deixou de ser íngreme. Pisava relembrando de como meus antepassados faziam, me senti explorando Pindorama antes de Cabral. Um sorriso nasceu no meu rosto, o suor voltou aos meus poros envergonhados de ter escorrido. Gabo finalmente teria a parceira vida-loka esportista que merecia. Já estava me imaginando fazendo trilhas mais vezes, me vi pegando altas ondas, senti o vento imaginário beijar o meu rosto quando eu fosse com ele no Tour-de-France… eu havia, finalmente, vencido minhas inabilidades no esporte!
Me volto para trás sorrindo. Esperava encontrar um sorriso orgulhoso me esperando. Mas ele estava bufando.
— Você anda devagar demais! — Gabo reclama.
Ele, e seus Crocs de sola lisa de tão usado, passam por mim e começam a subir a trilha em passos excessivamente largos. Eu, meu tênis de sola protuberante, tentamos alcançar em mini passinhos o passão dele. É claro que não deu certo. Ele começou a ficar irritado que meus minis passinhos, levados pela falta de equilíbrio crônica, eram lentos demais para um único passão dele. E eu comecei a ficar irritada que os minis passinhos cansavam demais e se tornavam cada vez menores, me cansando cada vez mais.
Eu cansada, fiquei mais lenta. Eu lenta, deixava-o mais irritado, ele irritado me deixava mais irritada, eu irritada deixava-o mais irritado, ele irritado andava em passos maiores, passos maiores correspondiam mais mini passinhos, mini passinhos cansavam… você entendeu, leitor. Como todo bom e velho casal, em menos de quinze minutos de trilha a gente já tinha brigado. E feio.
Só que ainda faltam cinco horas e quarenta a cinco minutos de trilha. No puro silêncio. No suco do climão. Com os dois naquela baita vontade de fazer a trilha. Resumindo, foi ótimo!
Nos últimos dias havia chovido muito, então a trilha estava uma pura lama conforme a mata foi se fechando e o Sol não alcançava. Aquilo era um sabão. Além disso, os fortes ventos derrubaram algumas, sim algumas, árvores que tiveram a boa morte de cair bem no meio da trilha. Era tanta lama, tanto inseto brotando da terra, tanta árvore caída que muito honestamente eu acho que deveria ter ganhado um prêmio aquele dia por passar por todos os obstáculos sem reclamar e sem pedir ajuda uma única vez. Eu podia cair de cara na lama e uma minhoca entrar pelo meu nariz, mas estava tão brava que jamais pediria ajuda.
Você entende, não é leitor?
No final da trilha a expectativa é um mirante, concorda? Você imagina que lá em cima, depois de seis tenebrosas horas, você vai encontrar ao menos um lugar liso e plano para ver a vista, não é? Bom, querido leitor, detesto ter que te contar, mas lá no pico do Baepi não tem absolutamente nada.
Nada.
Nada além de uma pedra gigante, com uma parede de 90º graus rachada no meio. Quando chegamos lá em cima, mesmo bravos e, querendo arrancar a cabeça um do outro decidimos acabar com o tratamento de silêncio para dizer:
— Ah, meu! Não acredito!
— Nem eu!
A decepção foi tanta que deu vontade de chorar imaginando a cama quentinha, macia e limpinha que deixei para subir três horas e não encontrar nada. Sério mesmo, a definição de nada. Gabo compartilhou do sentimento, o que me surpreendeu, e foi buscar alguma coisa. Afinal:
— Alguma coisa tem que ter! Não é possível!
Foi então que ele encontrou a pedra gigante, com parede de 90º graus rachada no meio. Apontou para aquela monstruosidade, como se nada fosse e diz:
— Vai. Sobe aí.
— Sobe aí? Como que eu vou subir aí?
— Assim, ué — Como se saísse de uma confraternização com o Mogli, Gabo se enfia no meio da rachadura, mete uma perna em uma parede, a outra em outra e escala a pedra de 90º graus tal qual o Homem-Aranha. E desaparece. Chega no topo da pedra.
Assim, leitor. Simples assim.
Fiquei olhando para aquela cena com a boca tão aberta que uma colmeia de abelhas Jataí podia se instaurar na minha língua. É… acho que eu nunca cheguei nem perto de encarnar o Patcha-Mama.
— Aqui que é o pico! — Gabo grita lá de cima.
E agora? O que eu faço? Não subi três horas para nem ver o pico. O mínimo que eu tinha que fazer era ver a vista. Eu devia isso a mim mesma, nem que fosse a última coisa que eu fizesse na vida. A escalada não iria me matar, mas como eu desceria…
Problema para depois.
Olha, leitor, ainda bem que não tinha ninguém para me ver tentando escalar aquela parede. Graças a Deus. O curupira me protegeu nesse momento e ainda bem que Gabo já estava lá em cima. Eu subi aquele negócio de uma forma tão bizarra que é literariamente impossível de ser narrada. Não sei te dizer o que eu fiz com as mãos e com os pés, se fui apoiando com a bunda na parede oposta… de verdade não sei. Acho que foi tão traumatizante que foi deletado da minha memória. Mecanismo de defesa mesmo. Acredito que todos os seres da floresta, fadas, curupiras, fantasmas de bandeirantes, duendes e até mesmo animais peçonhentos se uniram para me empurrar lá para cima. E eu cheguei.
Cheguei meio capenga e sem saber como, mas eu cheguei. E encontrei Gabo sentado na parte menos íngreme da pedra, segurando os joelhos e mexendo os pés. Me posicionei ao seu lado com um medo inenarrável de cair de lá de cima.
Nós dois.
E centenas de milhares de moscas ao nosso redor.
Era mosca para dar com pau. Me deu vontade de comprar aquelas raquetes de dar choque em mosquito só para ver o negócio estalando sem fim em um churrasco pseudo-vegetariano. Mas assim, muita mosca mesmo. Era mosca enrolada no cabelo, mosca pousando no braço, mosca tapando o Sol…
— Acho que algum animal morreu aqui perto — Gabo diz.
— É… se acha… — Respondo sem forças para desenvolver.
Eu cheguei num ponto que nem ligava mais para as moscas. Elas podiam entrar na minha roupa, botas ovos na minha pele que eu nem estaria ligando. Minha atenção estava completamente voltada para a vista.
Ah leitor, a vista é linda. Viva a natureza, sabe? Mar azul, você consegue ver tudo lá de cima e é tão legal. Bem bonito mesmo, longe de mim dizer o contrário. Mas cá entre nós, aqui no off, na amizade, a vista é exatamente igual à do mirante. Que não demora nem um décimo do tempo para chegar lá. Tô te falando, a vista é praticamente a mesma coisa, a única diferença é que uma é de mais longe e o míope sem óculos não enxerga direito.
Assim que eu sentei Gabo me pergunta:
— E aí? Podemos ir?
Óbvio que não! Tinha que passar pelo menos dez minutos olhando para aquele nada para compensar toda a subida. Estava tão cansada que nem se eu quisesse conseguiria voltar. Fiz ele esperar um pouco antes de descermos a parede. Ele me ofereceu ajuda para descer, mas como eu ainda estava brava decidi viver a base do “para descer todo santo ajuda” peguei na mão do elfo da floresta e desci sem nem saber como. Aliás o resto da trilha inteira foi assim, descendo sem nunca acabar, como se meus antepassados homens da caverna me empurrassem de volta para a civilização me renegando de vez da natureza.
Foi questão de pisar no asfalto novamente que Gabo e eu fizemos as pazes.
— Não gosto de trilha — ele solta com o passo arrastado.
— Que? — Tive que parar ao ouvir essa.
— É, não gosto. Fiz por você, para te deixar feliz, mas você brigou comigo…
— Como assim? Eu não gosto de trilha. Fiz por você. Para te deixar feliz. Mas você brigou comigo!
— Mas você disse que gostava! — Exclamamos ao mesmo tempo.
No fim das contas, somos bem mais parecidos do que imaginávamos. Chegamos à conclusão que nunca mais faríamos a trilha do Baepi, mas que contaríamos para as pessoas que valia super a pena e era imperdível. Só para sacanear e ver como eles vão mentir para a gente depois.
Brincadeiras à parte, leitor, vale a pena. Sério mesmo. Vale o grande aprendizado de quão longe o seu verdadeiro amor está disposto a ir por você. Tudo vale a pena, se a alma não é pequena. E nem o amor. No meu caso, valeu muito a pena.
- Quer dizer, até meio que tolero, né? ↩︎

