
As vozes mercenárias: sendo atração turística em Coimbra
A parte mais legal de estudar em Coimbra é que os turistas vão justamente para te ver. Você é o ponto de atração, você é a celebridade. Todos querem tirar fotos com você.
Ah… os tempos da faculdade… tempos lindos, tempos de lembranças queridas, tempos que não voltam mais. E tempos que a gente fazia o que podia para sobreviver. Já viveu isso, leitor?
Essa história precisa de contexto, vamos lá. Estava eu estudando na Universidade de Coimbra. Universidade fundada em 1290 na cidade esquecida por todos, interior no meio do nada e em cima de uma montanha em Portugal. Por ser uma universidade antiga, ela se mantém viva por meio de tradições e formalidades. Famosos “usos e costumes” para o pessoal de Direito. Basicamente, em pleno século XXI as pessoas usam as roupas e fazem as mesmas coisas de 1290. Os universitários a partir do segundo ano usam o famoso “traje” que nada mais é do que uma capa negra (da saudade) que cobre os ombros e se estica até os pés. Em outras palavras, a roupa do Harry Potter. Pegou a visão, né? Não? Deixo uma foto no final.
Só que não é apenas estar matriculado que garante a sua roupinha do Harry Potter. Não senhor! Para usar o traje você precisa merecer usar o traje. Você precisa se provar digno do uso do traje. Precisa provar que você está quase páreo aos grandes nomes que pisaram na universidade como José Bonifácio (famosinho nas redes por estar envolvido em uma polêmica ou duas de independência) e António de Oliveira Salazar (mega celebridade no mundo dos ditadores). Para se provar digno, você precisa passar pela praxe. A primeira regra da praxe é a mesma do Clube da Luta, não se fala sobre a praxe. Mas, quem vai me impedir? E você, leitor, é meu confidente para tudo! Não vou te deixar de fora dessa fofoca.
A praxe é o nosso trote. Só que ao invés de pedir dinheiro no farol de cara pintada, eles colocam os caloiros (sim, caloiros) de três em praça pública. Sim. Ou então, fazem vender pedras da rua para turistas alegando ser uma das pedras da fundação da universidade. Portanto, fique atento. Se você estiver andando por Coimbra e aparecer um novato querendo te vender uma pedra qualquer alegando ser da fundação da universidade em 1290 e tudo mais, saiba que ele pegou da calçada ou do paralelepípedo da rua e você está financiando buracos em via pública. Voltando ao tema do parágrafo, a praxe dura um ano e vai ficando mais difícil conforme o tempo vai passando. É isso que você precisa saber. E para os estudantes de Direito no final tem um julgamento de doze horas em que os veteranos (chamados de doutores) julgam os caloiros para ver se estão dignos da universidade e do traje.
Eu não fiz a praxe. Não sou dessas, com todo o respeito. Mas eu fui doutora e usava o traje. (É isso, você sabe o que está subtendido neste parênteses). E uma das vantagens do traje é que você anda na cidade como se ela pertencesse a você. Acho que deve ser difícil ter a dimensão do que eu estou te explicando, mas quando você coloca aquela roupa que centenas de milhares de outros estudantes colocaram antes de você, você ganha muito respeito naquela cidade. As pessoas te olham diferente, as pessoas te olham com admiração, com veneração, com vontade de ser igual a você. Em outras palavras, você se torna o Neymar na balada, sacou? Só que um pouco mais intelectualizado com isso.
E a parte mais legal de tudo, é que os turistas estão em Coimbra justamente para te ver. Os turistas saíram do país deles para te ver. Você é o ponto de atração, você é a celebridade. Todos querem tirar fotos com você.
De qualquer forma, leitor, eu como uma amante de histórias que sou, caí de cabeça nas tradições (usos e costumes) da universidade em que estudava. Não poderia ser diferente! Não poderia desonrar os meus doutores seculares. E isso, meu leitor, rende boas histórias. E essa começa quando eu saía para tirar fotos com turistas em troca de dinheiro. Esse foi o início de minha carreira como atração turística.
Tudo começou com um dia qualquer. Era verão, estava um calor que fazia com que você se sentisse dentro de uma Airfryer, vinha aquele bafo quente de cima e batia nas pedras portuguesas e te cozinhava por baixo. Não me importava, era o primeiro dia que eu poderia usar meu novo look! Virei para a minha amiga parceira e falei “Lulilove, bora dar um rolê”. Coloquei o traje e fomos dar uma volta. Lulilove era intercambista, não tinha o direito a incrível traje, esse estava reservado apenas para mim. Ela era tipo “friends with Mickey” que é o cara que fica andando ao lado do Mickey na Disney para barrar fãs malucos.
Fomos ao centrinho, para ir ao mercado. Não demorou mais de dois passos para que os turistas começassem a olhar para mim. Não demorou três passos para que eles apontassem e falassem alguma coisa. Cinco passos e estavam tirando fotos minhas escondidas. Sete, e me pediram para tirar foto com as crianças. Assim, leitor, eu era o Mickey.
Foram fotos de graça, leitor. Fiz pela felicidade das crianças e dos idosos do velho continente. O mercado começou a ficar um destino não muito atraente, as voltinhas pelo centrinho e até mesmo uma escalada ao morro para a Universidade estava compensando muito mais. Foi o que fizemos. Até que meus pés começaram a doer e voltamos para casa.
No dia seguinte, quando eu podia usar o traje, eu bati na porta de Lulilove (minha vizinha) e falei:
— Bora?.
Evidentemente, para o bem desta crônica, ela borou.
As fotos foram de graça, novamente. Pelo bem da nação, pela felicidade do povo. E pelo bem da nação e felicidade do povo, ajudei um velho inglês. O coitada tava perdido e eu o levei até a capela da universidade. Mas essa ainda não é a história dele, guarde a informação para mais tarde.
No terceiro dia, Lulilove bate na minha porta. Creio que ela, quando voltamos, passou a noite em claro pensando nas oportunidades que estavam sendo desperdiçadas. Creio que todas as vozes da cabeça dela uniram as mãos e começaram a enrolar como se faz em um desenho animado quando há pensamentos malignos. Assim que o horário comercial começou, ela bate na minha porta com um sorriso contagiante no rosto. As vozes da cabeça dela ensaiaram a noite inteira para dizer:
— Bora ver se eles patrocinam o nosso sorvete?
Coloquei o traje na hora. Minhas vozes nem precisaram pensar.
Saímos em busca dos turistas. Fiquei um pouco mais imponte a caminho da universidade fingindo que eu tinha algo muito importante para fazer, estar ou ser. Não demorou muito para que um grupo de turistas japonesas me parasse e pedisse uma foto.
— 1 Euro — digo sorrindo e com o dedinho esticado.
Me deram 1 euro. Dei a moeda para Lulilove guardar no bolso. Continuamos na luta. Leitor, foram fotos com as crianças, adultos, mulheres e idosos. Tirei foto com todo mundo que você pudesse imaginar. Criei até uma cara de pau absurda e quando via um grupo de turistas turistando na universidade eu perguntava se eles não queriam tirar foto comigo, uma estudante legítima. Admito que dessa vez, o sorriso foi mais largo. Bem mais largo.
E assim começou, leitor. Eu e Lulilove saíamos para trabalhar de dia e voltávamos só de noite, com o jantar custeado e lanchinho da tarde também. Só que os negócios começaram a crescer, e a gente tinha que investir para se diferenciar da concorrência, bussiness, leitor.
Achamos no brechó um penico de praxe. Provavelmente essa foi a frase mais estranha que você já leu na história da literatura, não foi? Orgulho disso. Enfim, achamos no brechó o penico da praxe. Vermelho, ainda por cima! Da cor do meu curso de direito! O penico, traduzindo, é literalmente um penico de plástico vermelho que costuma estar acompanhado de uma chupeta gigante. Os caloiros usam ele na praxe (i.e., trote), como humilhação disfarçada de tradição cômica, de ainda ser um bebê, considerado criança demais perto dos veteranos que são os doutores. Então, os caloiros andam com o penico e a chupeta da cor do respectivo curso para passar vergonha.
E achamos isso no brechó.
Lulilove e eu tivemos a mesma ideia. Aquele era o nosso maior tesouro.
Começamos, portanto, a andar pela cidade com a Lulilove segurando o penico. Colocamos algumas poucas moedas e uma nota de cinco euros antes de sair de casa, como muita gente faz. Quando alguém pedia uma foto, a gente primeiro tirava e depois Lulilove atacava o turista bobão mostrando o penico para ele. Como se fosse aquele chapéu dos músicos de rua. Tem que pagar cover, my friend! O suco do golpe. E, leitor… Nem te conto! Foi assim que começamos a ganhar muito mais do que 1 singelo euro por foto. Tinha gente que dava 2, 5 e até mesmo 10! Aquilo era uma fonte inesgotável de renda! E ainda tem gente que insiste na ideia arcaica de vender pedra! Ah! Faça-me um favor…
O bom dos meus fregueses de Coimbra é que todos passavam apenas o dia na cidade, por se tratar de uma cidade exclusivamente universitária e pequena (apesar de ser a terceira maior de Portugal), eles não passam mais do que o dia, logo os clientes se renovam a cada 24 horas. O bom também é que por se tratar de uma cidade universitária, no período de férias aquilo fica deserto. Então, é a Disney inteira para o Mickey reinar. E o bom de Portugal é que é um país muito visitado por velhos ingleses cheios da grana. Eles não se importam em pagar alguns euros para uma fotinho de recordação para os netinhos. Ou seja, aquilo é um mar de oportunidades. Estava quase criando uma start-up com tanta freguesia. E Lulilove como sócia, é claro. O truque na manga, caro investidor leitor, é saber analisar o mercado. E aqui, a ideia em relação a moeda é a chave. Veja bem, para o inglês que está de turismo em Portugal, o país inteiro é muito barato e o euro também. Estes eram a maioria do nosso público. E para nós, as CEO´s, o euro é altamente valorizado. Portanto, os cinco euros dele era troco de pão na visão dele, mas para nós, aquilo era equivalente a dois jantares e meio na cantina da universidade! Está vendo só? Vai aprendendo.
Tenho certeza de que quando eu encerrei as atividades, os ingleses sentiram a minha falta. Eventualmente eu voltei para passar as férias no meu país tropical e abandonei a freguesia. Uma pena, mas tudo que é bom acaba, não é? Além disso, no escuro, tarde da noite, antes de dormir, quando tudo já aconteceu, eu penso que em algum lugar há uma foto minha com alguma criança desconhecida em um porta-retrato.
E ainda ganhei um belo de um sorvete por isso.
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