
Ana Maria Gonçalves na Academia Brasileira de Letras é ‘reparação histórica’ e sinaliza abertura da Academia, mas é preciso mais, apontam pesquisadoras
Pesquisadoras negras celebram a entrada de Ana Maria Gonçalves na Academia Brasileira de Letras como um marco histórico, mas pontuam a demora da Academia e temem que Gonçalves seja uma exceção. Autora é anunciada como homenageada na FLIMA 2026.
Publicado originalmente em 11 de julho de 2025.
Foto Ana Maria Gonçalves: Eduardo Krapp (Folhapress).
Ana Maria Gonçalves, 54, foi eleita ontem (10) como a nova imortal da Academia Brasileira de Letras em sucessão ao linguista Evanildo Bechara na cadeira 33. A autora de “Um Defeito de Cor” chega à Casa de Machado de Assis como a primeira mulher negra nos mais de 100 anos de existência da instituição.
Momento simbólico na história da literatura brasileira, inegavelmente, essa entrada não chega, contudo, sem controvérsias. Gonçalves entra na Academia sete anos depois da candidatura de Conceição Evaristo que perdeu para o cineasta Cacá Diegues. A campanha de amplo apoio popular, com direito a abaixo-assinado na internet apoiando a candidatura de Conceição, denunciou a falta de diversidade na ABL e expôs o grupo como a perpetuação da consagração de homens brancos na literatura brasileira.
Na época, essa candidatura incomodou muitos acadêmicos, afinal de contas, expôs um jogo de preferências e o caráter narcísico da elite cultural brasileira, predominantemente branca. Em contraposição, a candidatura e a eleição de Ana Maria Gonçalves fluiu com muita tranquilidade. Até a tarde de ontem, a eleição de Gonçalves era tida como “certa” entre jornalistas. Dito e certo. Venceu com a esmagadora maioria dos votos, 30 dos 31 possíveis, e acontece após uma sequência de novos imortais que representam muitas das demandas das novas gerações de leitores e pesquisadores. Gilberto Gil e Ailton Krenak marcam muito bem essa mudança de perspectiva dentro da Academia Brasileira de Letras.
Pensando este novo momento na Casa, e também as contradições desta eleição, convidei algumas pesquisadoras negras do campo da literatura que estão pensando autoria negra, mercado editorial e o cânone literário brasileiro.
‘Quem ganha mais é a Academia’, diz Fernanda Miranda, professora da UFBA, sobre entrada de Ana Maria Gonçalves na ABL

Para Fernanda Miranda, doutora em Letras pela USP, professora da UFBA e autora de “Silêncios prEscritos: estudo de romances de autoras negras brasileiras (1859-2006)” (Malê), a entrada de Ana Maria Gonçalves na Academia Brasileira de Letras é um momento simbólico, mas que demorou. Neste jogo de prestígio, é a Casa de Machado de Assis quem ganha com a entrada de “uma das autoras mais prestigiadas da língua portuguesa no século XXI”. Para a revista O Odisseu, escreveu:
A eleição de Ana Maria Gonçalves como primeira mulher negra na ABL é um acontecimento histórico, e como todos os acontecimentos históricos, nos permite compreender melhor o tempo e a estabelecer relações mais complexas entre o presente e o passado.
A presença de autoras negras é uma realidade no sistema literário brasileiro contemporâneo. O mercado editorial já sabe. A universidade está aprendendo. A crítica literária situada nos centros, na maior parte do tempo, aparenta dificuldade de articulação quando se trata da autoria negra, mas se revela hoje menos cega do que já fora. Contudo, essas instituições mais tradicionais, como a ABL, em geral demoram um pouco mais para perceber que literatura é movimento, não é algo da ordem do estável ou do fixo.
Autoras negras têm movimentado a literatura brasileira do ponto de vista estético e temático e ampliado o alcance da recepção e das formas de construção do conhecimento. Negar sua relevância é insistir em repetições e na hegemonia literária que por muito tempo deu sentido aos nossos processos aqui no Brasil. Portanto, a eleição de Ana Maria Gonçalves para ocupar esse território sinaliza um passo da ABL em direção a um entendimento menos restrito para a literatura brasileira. Ganha mais a ABL, é ela quem se enriquece ao trazer para seu convívio uma das autoras mais prestigiadas da língua portuguesa no século XXI.
Ganham também as mulheres negras, os leitores e leitoras negros/as, editores/as, jornalistas, professores/as, enfim, todos/as aqueles/as que vêm construindo outras vias para o entendimento da literatura, afinal, foi toda essa comunidade crítica quem construiu a viabilidade para expansão das vozes que agora se fazem ouvir em espaços anteriormente surdos, como a ABL. Essa eleição não deixa de ser uma resposta a questões que essa comunidade tem se posicionado para as instâncias de legitimação tradicionais.
Contudo, nesse momento de justa celebração do acontecimento, é importante ainda estarmos alertas para não confundir um ato de auto-resgate de uma instituição (tida como falida por muitos), com um ato de reconhecimento verdadeiro.
Foi Conceição Evaristo – negada por eles – quem disse: o importante não é ser o primeiro ou a primeira, o importante é abrir caminhos. Então, vamos acompanhar os próximos passos, para saber se Ana Maria e Krenak vão figurar como elementos únicos, simbólicos e por isso mesmo, representantes de ausências constitutivas, ou se a Academia Brasileira de Letras realmente está apontando para novos contornos, mais amplos e democráticos.
‘Ana Maria Gonçalves representa todas as autoras negras que vieram antes dela’, diz Gabriela Costa, pesquisadora da autoria negra no mercado editoral
Autora de uma importante pesquisa historiográfica quanto à presença de autores negros no mercado editorial brasileiro, a socióloga Gabriela Costa (UnB/ Unicamp) celebrou a entrada de Ana Maria Gonçalves na Academia Brasileira de Letras. Em seu perfil no instagram, o excelente @leia_preta, chegou a declarar: chegou a nossa vez! E eu não poderia deixar de convidá-la para uma conversa. Em depoimento para a O Odisseu, ela conta que essa chegada de Gonçalves representa um novo momento na história da literatura brasileira e que traz, junto com ela, as demais anteriores:
128 anos depois estamos comemorando a primeira mulher negra a se tornar uma imortal. Esse momento é significativo e Ana Maria Gonçalves representa todas autoras que antes dela deveriam ter ocupado este lugar, como Ruth Guimarães, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e tantas outras.

‘Um defeito de cor’ se tornou um dos maiores livros de nosso tempo, esta história que narra a formação deste país, deste chão tão negro. Para nós, ela já era uma imortal, mas este reconhecimento é significativo diante de todo sistema literário brasileiro. Isso é tudo que sempre sonhamos.
‘É político estarmos em espaços como esse’, diz Calila das Mercês, pesquisadora e escritora, sobre a entrada de Ana Maria Gonçalves na Academia Brasileira de Letras

Entre as dimensões da presença de uma mulher negra na ABL, há uma dimensão que não se escapa: o da coletividade. Esse aspecto foi abordado em minha conversa com a jornalista, pesquisadora, pós-doutora em literatura pela USP e escritora Calila das Mercês (autora de Planta Oração). Entre as “muitas emoções” que esse momento representa, Calila destacou que existe o aspecto político: junto com Ana Maria Gonçalves, entra a possibilidade de outras pessoas negras, é um caminho aberto. Em depoimento à O Odisseu, escreveu:
Celebremos Ana Maria Gonçalves na ABL! É uma conquista coletiva e significativa para as pessoas leitoras e escritoras no Brasil, especialmente às pessoas negras.
Sim, são muitas camadas reflexivas sobre a ausência e a constante espera da presença da mulher negra – de trajetória excelente – em espaços de legitimidade. E no que diz respeito ao reconhecimento das contribuições de conhecimentos, feituras e tecnologias neste país. Mas a chegada, ou retorno (nosso), à ABL, com a presença de Ana Maria Gonçalves, partilha e reafirma a história e pertença que também é nossa. É político estarmos em espaços como este, com dignidade, respeito e com tudo que é nosso por direito. E que seja continuidade… porque ainda seguimos em luta.
‘Estamos mais que honrados por ela ter aceitado o convite’, diz curadora da FLIMA Maria Carolina Casati. Evento irá homenagear a nova imortal na edição de 2026
Logo após o anúncio que Ana Maria Gonçalves havia sido eleita para a Academia Brasileira de Letras, veio outro anúncio que muito me alegrou, que foi o anúncio de Ana Maria como homenageada da FLIMA, a Festa Literária Internacional da Mantiqueira, em 2026. A festa, que tem uma das curadorias mais interessantes no cenário nacional (assinada pelo super trio curatorial Maria Carolina Casati, Cristiane Tavares e Roberto Guimarães), segue com a tradição de homenagear autores vivos (esse ano homenageou Milton Hatoum) e de estar super atenta às intersecções entre a literatura e as problemáticas do mundo contemporâneo.

Aproveitei então para conversar com Maria Carolina, que além de curadora da FLIMA é doutora pela EACH-USP e tem o excelente perfil de crítica e divulgação literária @encruzilinhas. Em depoimento para a O Odisseu, ela aproveitou para falar não apenas da alegria que é ter Gonçalves na ABL, mas também na FLIMA:
Pensar na reparação histórica que é a Ana Maria Gonçalves na Academia Brasileira de Letras é pensar como a gente pode construir futuros, presentes, imbuídos de passados, como diz Leda Maria Martins, a partir das palavras. Tê-la na FLIMA do ano que vem nada mais é do que concretizar essa possibilidade de futuros, mais uma vez, imbuídos de passados e presentes por meio das palavras. A gente está muito honrado que ela aceitou o convite e poder, não só, celebrar o sucesso de ‘Um defeito de Cor’, que para nós da FLIMA é um grande livro da história brasileira, mas também pensar como ela constrói pessoas a partir da palavra, como ela traz, praticamente, uma certidão de nascimento da Kehinde, Luisa Mahin, e como ela pode explicar quais são os papéis das mulheres negras nesse país até hoje. Mais do que honra, é puro gozo.
A possibilidade de escreviver novos futuros
A partir da declaração de Casati, gostaria de resgatar o tema de um ensaio que escrevi há algumas semanas sobre a então ausência de mulheres negras na Academia. Na época, escrevi que os acadêmicos é quem deveriam estar preocupados em correr atrás de ter uma mulher negra entre os membros, pois não seria possível pensar no futuro de qualquer instituição cultural que insiste em deixar de fora mulheres negras. Não há credibilidade alguma no tradicionalismo exacerbado, especialmente quando essa tradição recorre a imagens coloniais que não se aplicam a este nosso contexto.
Reafirmo todas essas palavras. A entrada de Ana Maria Gonçalves na Academia é um marco para a Academia. Demonstra que os acadêmicos estão, mesmo que minimamente, sensíveis às demandas deste tempo e temem o risco de “perder o bonde da história” (para citar mais uma vez Conceição Evaristo). E quais os próximos passos então? Porque certamente essa não é uma linha de chegada, mas de partida. O próximo passo é ampliar o acesso, é pensar novas possibilidades de pluralizar as instituições culturais com novos debates e novas pessoas. A representatividade não é um fim em si mesmo. Deve-se ter mulheres negras na Academia porque elas existem, elas escrevem, elas são lidas. Assim como mulheres indígenas, assim como pessoas quilombolas, assim como imigrantes, assim como nortistas e nordestinos. Não se reivindica um lugar para que sirva de inspiração e exemplo (apenas), mas porque é um direito.
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