
A poesia dos dias
Tomemos por aqui: viver é, tal como o poema, um exercício cotidiano de experiência. Mesmo quando burnout, emergência climática, consumo excessivo, contraste, invisibilidade, violência, racismo, solidão acompanhada, desamor; mesmo quando o mundo insiste em abreviar.
Imagem de capa: ‘Parangolé’, de Helio Oiticica (Reprodução).
[…] uma fronteira desguarnecida
entre a pessoa e a cidade.
Alberto Pucheu
Porque há um território fugidio entre nós e a cidade, onde as respostas se escondem. Quando se esvai totalmente, resta-nos as montanhas, a serra, o interior profundo. Quando se vai um grande poeta, a vida parece ficar pequena, perder o jeito. Se apresenta, então, uma chance de avaliarmos os dias. Muitos acordarão normalmente, com as mãos na terra, e seguirão despercebendo seus calos. Mas há tanto a ser sentido, pensado, feito, mesmo quando não acolhemos o desconhecido. E, como um animal que passeia nas montanhas e ainda não sabe que terá de aprender a descê-las, estamos todos como “um organismo em movimento reagindo a passadas”, como generosamente escreveu o poeta Leonardo Fróes em seu poema. Pois seguimos no tempo da internet das coisas, em que tudo é rápido e sem freio.
Não sai da minha cabeça a possibilidade de diálogo com uma maneira de estar no mundo mais capaz de olhar nos olhos, de sentir alegria pelo outro, de dizer “obrigado”, de sentir falta e admitir sem medo do julgamento, de revelar uma fraqueza ou uma pequena vilania — como bem disse a poeta. De cometer fragilidades repensadas. Menos conexão com os objetos, mais com as pessoas.

Penso muito em um modus vivendi que se afine com o que possa fazer mais sentido para o que ainda podemos ser. Começa muito antes dessa etapa, mas, geralmente é nesse momento que o pensamento inscreve, em letreiro grande, uma necessidade silenciosa de poesia — o que, ultimamente, venho chamando de a poesia dos dias.
Em Arte poética II, Sophia de Mello Breyner Andresen escreve: “A poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, o meu modo de estar no real”. Tomemos por aqui: viver é, tal como o poema, um exercício cotidiano de experiência. Mesmo quando burnout, emergência climática, consumo excessivo, contraste, invisibilidade, violência, racismo,
solidão acompanhada, desamor; mesmo quando o mundo insiste em abreviar. Há sempre uma força à espreita que enluva a mão que acaricia — provocar novamente o puro toque é uma grande sina.
Sugerir o gesto de retirar as luvas, de abandonar as máscaras, de desfazer a forma que violenta por padronizar a visão. Encontrar um modo de traduzir isso talvez seja o grande encanto de tudo. Transpor esse ponto para as nuances deste tempo é onde mora a poesia. Durante todo o dia, diversas oportunidades se apresentam naturalmente — na poesia das coisas que vivemos, sonhamos e também na esquiva do que não virá.
Tateio devagar um monóculo antigo que resgata a imagem de pessoas que nunca vi: os sorrisos, as vozes, os sonhos, seus corpos. Vento. Assim são os dias e as jornadas que vive uma pessoa adulta neste país. O real é formado por uma dosagem familiar entre o novo e o conhecido — um tatear lento das formas.
Li em uma revista científica que um novo oceano vem surgindo no coração da África. Afar, na Etiópia, está localizada sobre uma pluma de manto quente que quase pulsa, levando constantemente calor e rochas derretidas das profundezas da Terra para a crosta. Tamanha força vem empurrando as placas tectônicas e desgastando a superfície, formando uma fenda no solo. O mar vai invadir o espaço e formar um novo oceano, separando o Chifre da África do resto do continente, afirmam os cientistas.
A lentidão de seu processo só atesta o inevitável — tantas vezes marcado na história do mundo. A forma muda.
Tudo começou depois que achei esse monóculo azul na gaveta. Eram pessoas minhas, mas até agora não faço ideia de quem sejam. Depois de uma pequena investigação, descobri que ninguém da família sabe ao certo de quem se trata. O que eram quando a fotografia foi tirada? E o que são agora, quando o tempo parece não ter passado a mão sobre a cabeça de ninguém? A forma muda a forma.
Lendo O inespecífico e a forma, artigo da professora Luciane Azevedo, comecei a pensar em como a língua é uma consciência maior, que se remonta em uma quantidade infinita de possíveis transformações — uma mutante inveterada, cheia de fome. A desforma é um formar. A concepção de inespecífico surge da soma de vários gêneros textuais em um só: tudo se espraia no novo e, por ser novo, colhe indícios de investigação da linguagem.
A professora Luciane usa como ponto de partida o romance de Valeria Luiselli, Arquivo das crianças perdidas, para escrever. Ela aponta que muitas das produções atuais que escapam à classificação convencional de gênero textual são descritas como inespecíficas: obras híbridas que misturam documento, ficção, ensaio, diário e outras formas. E conclui que isso não significa o fim da forma, mas a sua reinvenção — um modo de a arte continuar a “dar forma à vida”, mesmo quando parece escapar dela.
“A lentidão de seu processo só atesta o inevitável — tantas vezes marcado na história do mundo. A forma muda.”
Tiago D. Oliveira
Nós somos o poema, a própria forma em si — essa maneira inevitável de contar a história. Se olharmos de frente, andamos correlacionados, sem metáforas aparentes. Aliás, leio também em Luciane que “poemas que abrem mão da metáfora, que flertam com o banal e com a cadência narrativa, refletem, além de outros aspectos, uma concepção de fazer poético”. Vamos vivendo verso a verso, dando formas.
Lembro do mestre Leonardo Fróes, que foi viver para a serra, no alto, conviver com as árvores e com os animais. O homem na montanha, mostra contínua de que a mudança é, acima de tudo, uma força para poder continuar. Tatear outras formas dos dias. Afinal, acreditar é mudar o que se pode, mantendo o que de nós não é indefinido. Escrever o ar, as paisagens e a geografia a partir de uma convivência natural talvez tenha sido o maior poema que nos deixou o grande poeta. Um livro que se abre novamente com a sua partida, soprando com mensagem ainda. Afinal, somos todos aedos e podemos fazer das coisas, coisas. E da vida, um poema que nos cabe escrever, mesmo sem uma única palavra no papel. Sê-lo em escrita e leitura, como fez o mestre poeta.
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