
A poesia da simplicidade em Morrer num dia bom
Em morrer num dia bom, lançado este ano pela Editora 7 Letras, Nicolas Casal transforma o ordinário em poesia e os objetos em “parte da nossa história” e “de nossos afetos”.
Quando estamos em estado de poesia, tudo ao redor é matéria para nossos versos. A vida torna-se uma ponte entre o metafórico e o real, não necessariamente nessa ordem. Em morrer num dia bom, lançado este ano pela Editora 7 Letras, Nicolas Casal transforma o ordinário em poesia e os objetos em “parte da nossa história” e “de nossos afetos”.
Autor de duas outras obras: O ano da cabra, Editora Patuá e Aos Pares, Editora Penalux, Nicolas Casal ganhou o 28º Concurso Nascente USP com o texto Poemas Felinos. Em entrevista à Revista Odisseu, ele afirma que morrer num dia bom é um livro que reflete não apenas a sua maturidade como pessoa, mas principalmente como escritor. Dividido em quatro partes: Dos bichos, Da morte, Das Coisas e De nós, o livro exibe uma diversidade de temas e demonstra a versatilidade de um eu lírico curioso, afiado e disposto a aceitar suas próprias limitações, mas sem perder o colorido e a vitalidade, mesmo que esteja em meio aos destroços da complexidade da vida.
Influenciado por nomes como Alejandra Pizarnik, Bashô, Alice Ruiz, Manoel de Barros e Ana Cristina Cesar, o autor afirma ser fascinado pela tradição da poesia breve cultivada por esses poetas e que ele experimenta largamente em sua obra, intercalando textos curtos como Jagunço e Corvo com textos mais extensos como Elefantes e Cidade. Porém, mais do que a extensão, a simplicidade das palavras, sem o peso do rebuscamento exagerado que, por vezes, embaça a poesia, é uma característica marcante dos textos de morrer num dia bom, o que torna a leitura uma experiência leve e, ao mesmo tempo, reflexiva em que as palavras nos confronta, nos conforta e nos conduz por um “rastro de cinzas” que se desdobra em beleza palpável.
Na entrevista, Nicolas reflete sobre o lugar da poesia na sua vida e o impacto transformador da palavra na vida de quem está disposto a semeá-las.
CA: Você é autor de dois outros livros e ganhou o Concurso Nascente USP. Como a poesia chegou em sua vida e qual a diferença entre o morrer num dia bom para as suas obras anteriores?
NC: A literatura chegou em minha vida a partir da família, com meus pais e minha avó trazendo leituras muito especiais. Comecei lendo prosa, a poesia demorou bastante para vir. Poesia soava como aquela coisa rebuscada, inatingível, sempre puxando para o século retrasado, até o momento em que fui apresentado às referências que ressoaram comigo. Acho que nos últimos anos estamos avançando muito quando o assunto é a acessibilidade da poesia.
Sobre a diferença entre morrer num dia bom e as obras anteriores: nas obras anteriores eu ainda estava começando, precisando de mais maturidade na escrita e na vida, então me sinto mais firme no ponto que alcancei em morrer num dia bom. Ainda tenho o vício de sentir que só o texto mais recente é que está mais fresco, mais desenvolvido. Parece que o melhor livro é sempre o próximo.
Vejo humores mais variados em morrer num dia bom, não é um livro tão melancólico quanto possa parecer. Até porque eu procurei formar uma narrativa com a obra, uma trama que passa pela perda e pela confusão e tenta encontrar espaços seguros, onde exista amor e afeto. O livro começa com o tema dos bichos, passa para a morte e em seguida para os objetos. É uma construção que se conclui em seu tema final, “De nós”, sobre os afetos humanos: temos poemas isolados, cada um com suas histórias, eu líricos variados, mas temos um ponto de partida e um ponto de chegada.
CA: Todo escritor é, acima de tudo, um leitor. Fale um pouco sobre as suas influências literárias e como elas perpassam a sua poesia.
NC: Minha poeta favorita é Alejandra Pizarnik, especialmente pela forma como ela aborda palavras simples, bem elementares (como “pedra”, “água”, “noite”), e as leva até os limites da linguagem. A tradição da poesia breve me fascina, então também admiro Bashô, Alice Ruiz, Manoel de Barros, Ana Cristina Cesar e companhia por motivos diferentes. Sinto que nesses trabalhos a palavra e o mundo são vistos com uma lupa, com espaço para experimentação, mistério, potência também.
Também venho lendo Louise Glück e estou adorando. Talvez seja porque ando mais voltado para a prosa ultimamente, e a obra poética dela tem um quê de prosa também. Averno, por exemplo, passa pelo mito de Perséfone quase como um romance dentro de seus poemas. É lindíssimo.
CA: A natureza é um elemento bastante presente nos seus textos, principalmente os animais. Qual a sua relação com a natureza e como isso influencia na maneira como você enxerga o fazer poético?
NC: Enxergo o fazer poético como uma expressão do desejo, mas essa visão é tão ampla que não chega a dizer muita coisa. A maioria das formas de definir o fazer poético acaba caindo nisso. Pode ser mais divertido dividir essas noções em pedacinhos, com um olhar particular para cada obra, e seguir a partir daí.
Em morrer num dia bom, descrevi uma natureza sempre escapando pelos nossos dedos. Em muitos momentos os poemas começam entre animais que vão fugindo: quem sobra é o ser humano se observando. Uma lagoa cheia de cisnes vira um espelho para uma pessoa que os assustou. Então essa convivência com a natureza é sentida mais como uma falta do que como uma relação presente. O desejo está lá, mas a primeira noção a aparecer não é uma harmonia, um pertencimento imediato. Até porque não acho que o ponto de partida dos nossos encontros seja a harmonia, assim, logo de cara, pelo menos não na sociedade em que estamos. O livro morrer num dia bom pretende construir uma harmonia com a natureza e até, se possível, com alguns seres humanos. Então ele começa na falta de pertencimento, na angústia, e vai traçando sua história até chegar no encontro.
CA: O cotidiano perpassa as poesias e notamos suas notas sutis em casa verso. Como o ordinário torna-se matéria prima para sua poesia?
NC: Acho importante dar mais cor ao cotidiano, ao ordinário. São palavras bastante cinzentas por si só, e sinto que isso nos fere um pouco também. Encontrar beleza fora do ordinário é uma maravilha, mas procurar se nutrir só do que é maravilhoso não se sustenta no dia a dia. Eu procurei me voltar aos objetos do cotidiano, principalmente na seção “Das coisas”, mas não é em um esforço de retrato, como uma natureza morta: é como um reconhecimento desses objetos como parte de nossa história, de nossos afetos.
Também vejo nesse olhar para o objeto inanimado, para o que chamamos de “coisa”, uma influência de Alejandra Pizarnik e Manoel de Barros, cada um de um jeito. Pizarnik pelo mistério das coisas, Manoel de Barros pelo encantamento nas coisas.
CA: No poema Concurso o eu lírico brinca com a ideia da imortalidade. Você acredita que as palavras do poeta o imortalizam, por menos doces que sejam?
NC: No poema Concurso, a morte resolve organizar um concurso literário e decide ficar com o prêmio no final das contas. Então eu sinto que as palavras só pertencem a quem escreve por um instante, depois já viram parte de algo fora de seu corpo. Percebemos esse descolamento em vida também, quando lemos um texto nosso escrito há algum tempo e não nos reconhecemos nele. Acredito que as palavras se imortalizam, enquanto a poeta ou o poeta continuam sendo carne e osso. E é justamente por isso que as palavras podem ter essa imortalidade, porque se desgrudam do nosso corpo mortal e vão passear por aí. Principalmente na poesia, que tem uma relação tão próxima com o sonoro, com a voz de quem lê ou declama, ou seja, com o nosso corpo mas também com o corpo do outro.
CA: Dia bom é um poema que fala sobre a morte, mas também destaca a linha tênue entre a certeza da sua chegada e o medo, ainda que hesitante, do momento derradeiro. Para você, Nicolas Casal, a poesia é uma maneira de lidar com o fim inescapável?
NC: Há maneiras mais e menos saudáveis de lidar com a morte e acho que a poesia está no meio-termo. Especialmente em poemas sobre assuntos mais densos, o caminho não costuma levar a saídas bem definidas, o que pode formar labirintos ou alimentar uma romantização do sofrimento. Pensando nesse papel terapêutico, o ideal pode ser encontrar uma dieta balanceada: alguns poemas sobre se debruçar na dor, sim, mas muitos sobre construir outros caminhos para além da dor.
Começo morrer num dia bom com um poema sobre uma perda e o encerro com um poema sobre um encontro. O livro faz um movimento inverso ao da natureza, vai da morte para a vida, mas não é um movimento que pretende ficar apenas no papel. Tanto que a intenção é que essas palavras alcancem a vida concreta mesmo: em algum momento o livro precisa parar. Às vezes precisamos parar para conversar com pessoas queridas sobre o que acabamos de ler, às vezes precisamos parar por motivos muito menos agradáveis, mas esse salto de volta à vida é um assunto que eu também quis abordar.
CA: Em Demissão o Eu Lírico enfrenta dois dos maiores medos de um escritor: a página em branco e o vazio da palavra. Como você lida com as ausências da “deusa da poesia”?
NC: Demissão se parece com o poema Concurso com essa brincadeira de poetas perdendo algo sobre seus poemas: a fama, a propriedade, a inspiração. Temos pequenas perdas ao longo de todo o livro, seja para a morte, a deusa, a musa, o tempo, o que for. Na seção sobre bichos, faltou incluir um pássaro roubando poemas e voando com eles, mas nenhum pássaro teve interesse.
Para lidar com o momento em que a página em branco vira um problema, tento olhar ao redor, principalmente, e sair um pouco desse olhar focado em si. Considerando a página em branco como uma folha, um objeto, ela já tem sua própria história, uma história que precisamos desconsiderar quando a usamos só como um espaço físico para colocar a nossa história em cima. O mesmo acontece com tudo ao nosso redor. Escrever isolando o resto do mundo funciona quando você já tem uma narrativa traçada e quer se concentrar nela, mas no caso da página em branco, sem saber o que escrever, acho que a questão é principalmente deixar de se isolar. Também temos sempre outras alternativas, como se prolongar no vazio das coisas, o que é perigoso. Assim todos os poemas acabam sendo sobre coisa nenhuma.
CA: Na seção IV, intitulada “De nós”, o amor e as suas muitas manifestações permeiam os poemas e demonstram as muitas dimensões de afetividade experimentadas por um ser humano. Para você, o amor é um dos temas fundamentais da poesia?
NC: Pensando no amor para além do romântico, podemos encontrá-lo mesmo nos poemas com mais dureza. Isso volta a um outro assunto que discutimos: sobre a poesia e o desejo, ainda que se manifeste pelo ódio, ou seja, pelo amor ao oposto do que está sendo contado. Claro que é sempre com a marca de quem escreve, mas o amor está sempre por perto: está na admiração e na denúncia também, outro assunto forte para a poesia.
CA: Por fim, responda-nos: qual o papel da poesia em um mundo em que a realidade pode ser, por vezes, dolorida?
NC: Bom, a poesia pode se somar às vozes que mudam essa realidade, ou, para o que é realmente imutável, pode trazer formas de lidar com essa realidade. Sendo uma produção social, acho necessário que a poesia assuma suas responsabilidades sociais também. E é claro que vejo na poesia a chance de fazer com que as nossas vozes sigam reverberando. É uma forma de levar para a coletividade os nossos desejos, angústias, apelos.
A pluralidade de vozes também tem um papel muito importante nisso: uma poeta ou um poeta por conta própria trazem uma única voz, uma maneira de ver as coisas e de se manifestar que não consegue abarcar tudo. Talvez se volte muito para acolher, por exemplo, mas não tanto para construir. Pode ressoar com um público e não alcançar outro. Mas é coletivamente que nós conseguimos formar uma composição mais completa.
Pensando mais individualmente, a poesia nos dá muitas chances frente à realidade, tanto de fuga quanto de enfrentamento. Podemos preferir o enfrentamento, mas também precisamos da fuga. Outro papel possível, especialmente para morrer num dia bom, é o carinho. É um livro carinhoso, apesar das arestas duras.

Morrer num dia bom, Nicolas Casal
Editora 7 Letras

