Lançado em agosto, “O homem não foi feito para ser feliz” (Mondru), do escritor Maurício Mendes, acompanha o luto, as relações e os questionamentos de um médico negro no Brasil.
O romance “O homem não foi feito para ser feliz” (Mondru, 2025), estreia do escritor Maurício Mendes, acompanha o Germano, homem negro “mais puxado para o pardo”, na faixa dos quarenta anos, médico bem sucedido, que vive sozinho, nunca se casou, só transa com “putas”. A descrição sucinta não dá conta da personalidade complexa desse personagem. Falarei de alguns pontos que me fizeram pensar nessa obra.
Alguns personagens apontam a misoginia de Germano, além do machismo, do hedonismo e do sarcasmo. Ele é, realmente, tudo isso, mas de difícil interpretação. Pondero, nessa resenha, que o prólogo dita o porquê dessas atribuições ao personagem. É narrado que no começo da carreira, em 1999, Germano se deparou com um cenário desafiador como plantonista recém-formado em uma cidade pequena do Ceará. Distante, sem medicamentos, com pouca estrutura, ele atende uma paciente que se queixa de um incômodo na perna esquerda. De prontidão, Germano identificou como um caso de trombose, mas informou que ali ela não encontraria o tratamento necessário e a orienta a buscar atendimento em Juazeiro. Durante o diálogo, Josiane, a paciente, questiona se tinha alguma coisa relacionada com a sua profissão – além de professora de português e estudante de psicologia, também saia esporadicamente com homens, por dinheiro. Diagnosticada, na ausência do médico, comete suicídio no hospital. Sabemos pouco e apenas isso.
“Na noite seguinte, voltei para Fortaleza, e não conseguia pensar em nada além de que eu poderia ter salvo Josiane. Da sua doença, do meu descaso. Da dor desesperada que a consumia por dentro. E eu sabia que estava lá, e, com sua morte, talvez passasse a correr atrás de mim” (p. 31).
Germano namorou durante a juventude, mas arrisco dizer que esse episódio mudou a percepção que ele tinha da vida. Não há como não sair afetado. Josiane era estudiosa e ganhava a vida como acompanhante. O quanto isso ficou marcado em Germano, para que ele, aos quarenta e tantos anos, só durma com garotas de programa? E o perfil buscado era muito específico: branca, inteligente, leitora, que não aparentasse ter a profissão que tinha, que não o chamasse de amor. Josiane também se encaixava em alguns aspectos desse perfil.
Com o desenrolar dos capítulos, vamos nos aprofundando no personagem e em outras áreas de sua vida. O que desloca Germano da rotina e o põe a questionar-se é a morte do pai que, durante sua infância, era um homem alcoólatra (o que determinou o fato de Germano não consumir bebida alcoólica), mas que o ensinou como transitar sendo um homem negro na sociedade. Como filho único, fica encarregado de organizar o enterro e acolher a mãe durante os primeiros dias do luto. Pensa até que talvez “também tivesse morrido”, pois “algo tinha dado muito errado” na vida.
Os momentos em que pensa no pai e na vivência como homem negro da infância até a juventude são os que mais refletem sobre sua ascensão social após se tornar médico. Penso em Neusa Santos Souza, a partir da obra Tornar-se negro, que reflete essa questão para a população negra no país como um projeto de integração à sociedade, na tentativa de sentir-se pertencente dentro de um sistema que exclui o negro. Germano reflete sobre o racismo que sofre e como é lido socialmente, por isso evita se comportar de uma maneira que o confunda com outra coisa senão doutor: não usa ternos, para não ser confundido com segurança, por exemplo. Mas sabe que é necessário “jogar o jogo” para manter a própria integridade.
“Ser médico não bastava. Era necessário exibir sinais exteriores de riqueza. Um branco mal-vestido poderia ser um rico excêntrico, um negro sempre seria um fodido” (p. 40).
Então, ele nos apresenta Camille. Mestranda em estudos literários, compartilhava com Germano diversas leituras. Mulher branca, jovem, acompanhante discreta, não o chamava de amor. A relação com Camille é bastante explorada e vemos como, mesmo rejeitando completamente a ideia de ter um relacionamento monogâmico, eles constroem um vínculo duradouro e até sincero. Germano nunca escondeu que não passariam de encontros, mas ela aparentava nutrir sentimentos por ele. Germano não me passa muita confiança e não posso perder de vista que é da sua perspectiva que a relação entre os dois é narrada, a forma como ele encara a relação pode ser ou não diferente dela. Mas, Camille conta que continuará os estudos em outro país e busca em Germano alguma reciprocidade, que não encontra, deixando para trás apenas um livro.
Durante esse processo de luto e perda, ele decide sair com Lílian, o completo oposto das mulheres com quem dormia. Instável, também branca, com problemas com a própria aparência, não era acompanhante de luxo, mas uma colega que fazia parte de um clube de leitura. O primeiro encontro foi um fracasso. Ela o tratou como ele odiava ser tratado, com carinho em excesso nas palavras que denunciava um afeto que não existia.
A narrativa apresenta alguns momentos do passado de Germano, episódios que exploram seu caráter, como o fato de ter namorado uma mulher cristã e continuar descrente, o primeiro encontro com Camille, em que ela tem uma crise de asma que o faz se desesperar e pedir para ver as pernas dela. E os sonhos lúcidos. Ah, os sonhos. Sonhava com um barco em alto mar, sonhava com o pai no barco. Sonhava conversar com o pai. É possível pensar como esses sonhos refletem um estado de alma, no meio do oceano, completamente consciente e sozinho até encontrar alguém bem longe. Era assim que Germano se sentia, nadando em um mar sem salvação.
“Tem surgido uma pequena embarcação no horizonte, que eu tento nadar pra alcançar mas de nada adianta, a distância não se reduz. O sonho de ontem foi mais além, tinha um cara no barco, de costas para mim” ´(p. 101).
Germano é muito reflexivo, mas enxerga tudo de um ponto de vista bastante condicionado. Admite que tem sentimentos por Camille, depois de passar páginas e páginas negando qualquer possibilidade de relacionamento. Fica obcecado, mas já era tarde demais. No fim, só restou Lílian, suas dietas restritivas, suas conversas desinteressantes, chamando-o de amor.
O romance termina explorando a controvérsia da existência de Germano. Era apaixonado por uma mulher, mas se recusava a manter qualquer tipo de relação que não cliente-acompanhante e, depois de tudo, entra em uma relação que foi estereotipada por ele durante toda a narrativa. Germano é complexo. Não estava feliz. Ser um homem negro de um contexto humilde que mudou sua posição social devido a carreira o fez encarar alguns cenários durante toda a vida que foram modificando a perspectiva que ele tinha sobre relações, afeto, sucesso, felicidade… É uma obra para ser lida e interpretada, porque Germano não sabia se interpretar sozinho.