Crítica

“‘Vamos fazer um corre?!’: Mapeando encruzilhadas em ‘Vera’, romance de José Falero”, por Douglas Sacramento

‘Vera’, romance de José Falero, leva o leitor por espaços que se entrecruzam: periferias, becos, vielas e prédios de classe média.

Fotos de Diego Apoli (Divulgação).

Leda Maria Martins, no livro A cena em sombras, fruto da sua tese de doutoramento, cunhou a noção de “encruzilhada” – caminhos entrecruzados em três vias, símbolo de Exú, Orixá que guarda os cruzamentos – como conceito teórico que orienta toda a produção negra. Contudo, as produções culturais negras, inseridas nesse caminho ramificado, estabelecem diálogos com diferentes sistemas e conhecimentos. Por estarem situadas nesse lugar de atravessamentos, tais produções configuram uma cultura negra elaborada de forma híbrida, marcada pela diversidade e pelo sentido plural.

Para a intelectual negra mineira, a encruzilhada rompe com a forma centralizada e de traçado único da produção cultural hegemônica, ao evidenciar que o sujeito negro dialoga com culturas e modus operandi diversos, visto que não faz parte de uma produção fixa e encaixotada. Portanto, ao prestarmos atenção na produção negra contemporânea, especialmente na literatura, fica evidente como a encruzilhada atravessa essa tessitura, e com José Falero não poderia ser diferente.

Mas, afinal, quem é José Falero? É importante apresentar dados sobre a figura autoral, pois o local de onde escreve dialoga diretamente com as demandas, os temas e as contextualizações presentes em sua obra. José Falero nasceu em 1987, em Porto Alegre, na periferia, numa localidade chamada Vila Sapo – espaço que aparece constantemente em suas produções. É autor de romances, contos e crônicas, além de ser casado com a também escritora Dalva Maria Soares.

Feito esse preâmbulo e delimitadas as rotas para adentrar no romance, a encruzilhada é o ponto de partida para compreender a obra de Falero, indo além da delimitação de suas histórias entre becos, vielas e o contraste entre periferia e bairro de classe alta. A encruzilhada é um elemento de representação espacial e simbólica, marcado pela oralidade e pelas demandas de ser negro no Brasil, atravessado por violências e mortes simbólicas que afetam sujeitos negros e negras periféricos/as. Trata-se de um conceito que abarca tópicos de diferentes áreas do conhecimento e permite discussões profundas e bem delimitadas – temas muito caros a mim.

‘Andar pelas encruzilhadas com Vera, romance de José Falero’

O autor José Falero (Foto de Diego Apoli – Divulgação).

Minha relação com o autor e com o romance analisado começou há alguns meses, quando estava numa livraria aqui na capital baiana e me deparei com uma promoção de livros da editora Todavia. Entre eles, o romance mais recente de Falero, Vera (Todavia, 2024). Comprei sem pestanejar. Já tinha lido e adorado Os supridores (Todavia, 2020), obra que concorreu ao Prêmio Jabuti em 2021 e, em 2025, foi eleita pela Folha de S. Paulo como um dos melhores livros do século XXI até o momento.

Meses após a compra, ao terminar uma leitura, escolhi retirar Vera da pilha de livros ao pé da minha cama – com exemplares ainda não lidos, mas que tenho interesse de ler com mais urgência. Embebido e excitado pela divulgação dos semifinalistas do Prêmio Jabuti de 2025, no qual o romance do escritor porto-alegrense figura na categoria Romance, comecei a ler.

A minha identificação com a obra começa pelo local em que se passam as narrativas do autor: a periferia, um espaço que me afeta, já que também sou do Subúrbio Ferroviário de Salvador. Muitas das demandas e dificuldades em trafegar na cidade estão ali representadas nas personagens de Falero.

Se em Os supridores as questões relacionadas ao trabalho, às disparidades salariais e à dicotomia entre riqueza e pobreza aparecem de forma escancarada, em Vera, a mulher negra que dá título ao romance introduz outras nuances – que aparecem de forma tímida no primeiro livro – que ganham bifurcações e reentrâncias necessárias para compor a narrativa.

Vera, personagem que dá título ao romance, é uma mulher que percorre as instâncias da periferia e do centro de Porto Alegre. Suas relações e encontros orientam os percursos das personagens secundárias, que vão sendo iluminadas no decorrer da obra. Um beco que leva a outro beco que leva a outro, como na favela.

Negra, periférica, empregada doméstica e mãe de um menino, Vera mora num grande terreno compartilhado com suas irmãs e com a mãe, Dona Helena. Essa vila, situada entre as localidades de “Vila Viçosa e Nova São Carlos, no coração da Lomba do Pinheiro, no extremo leste de Porto Alegre” (p. 10), foi desbravada e dividida em lotes por sua mãe, cujos terrenos foram comprados e transformados em casas pelos atuais moradores.

A vila é repleta de becos e vielas, cujos nomes remetem às mulheres mais velhas que ali residem. O Beco da Dona Helena, local em que se passa a maior parte do romance, é onde Vera mora com seu filhinho Vanderson.

Assim, acompanhamos o cotidiano de Vera: sua labuta como empregada doméstica, os assédios que sofre do porteiro e do marido da patroa, e a inesperada descoberta do amor com Aroldo. 

Nas andanças e nas longas viagens que realiza para transitar pela cidade, o leitor se depara com as denúncias feitas pelo autor, flagrantes de violências cotidianas: a extensa caminhada até o ponto de ônibus, o ato de acordar cedo para pegar um transporte que não sabe se passará no horário certo e os assédios que as mulheres sofrem dentro dos coletivos.

Andar pelas encruzilhadas com Vera e ser sua companhia “de corre” é ser guiado por uma energia que revela caminhos e conduz a lugares dados como “esmos”, mas que são a explosão de uma vivência periférica que está no bojo do que é ser brasileiro numa sociedade racista, excludente e violenta. Todo o romance é permeado por discursos machistas e racistas que atravessam o percurso da protagonista, portanto, o leitor está diante de uma obra que escancara como gênero, raça e classe afetam o corpo de uma mulher negra e limitam seu direito de ir e vir na cidade. Ainda assim, Vera não tem caminhos fechados: a abertura de caminhos é uma marca da protagonista.

‘Vera’ não morre com a violência

Uma passagem emblemática ocorre quando o porteiro Marcelo, após ter o casamento destruído pela violência que cometia contra a esposa, decide colocar a culpa em Vera. Ele a enforca na porta do trabalho, episódio que culmina na demissão da protagonista.

‘Vera’, romance de José Falero
Editora Todavia, 2024
304 pp.

Vera não conseguia respirar, muito menos gritar por socorro, e sentia como se os seus olhos estivessem prestes a saltar das órbitas, tamanha a força com que Marcelo a estrangulava. E o porteiro, naquele estado de espírito de besta, nem sequer tomava conhecimento de que o pequeno Vanderson, berreiro aberto a chorar, puxava-o pela calça do uniforme, tentando inutilmente detê-lo. (Trecho de ‘Vera’, de José Falero – p. 268).

Contudo, essa cena não representa o fim da personagem. Mesmo após sofrer essa violência física e, em seguida, uma violência simbólica na delegacia – onde lhe questionam o que fez para ser enforcada por um homem violento –, Vera não tem seu final nesse episódio. Pelo contrário: ao receber o pagamento pelo tempo trabalhado (uma quantia grande), utiliza o dinheiro para fazer uma festa para o filho.

Em paralelo à trama principal, somos apresentados a caminhos secundários e terciários – outras encruzilhadas – de diferentes personagens, como Marcelo, o porteiro do prédio; Lúcia, irmã de Vera, que cuida do sobrinho; Vanderson, o filhinho de Vera; e Davi, adolescente vizinho da família de Dona Helena, que está descobrindo sua sexualidade. Cada personagem surge com sua própria trama desenvolvida, enquanto outros apenas aparecem e desaparecem, fazendo parte desse movimento de vivência na cidade grande. Esses caminhos dialogam com os personagens secundários, construídos com mais fôlego narrativo.

Chama a atenção, entre os personagens que circulam e apontam outros caminhos, a irmã de Vera, Lúcia, que cuida do sobrinho – uma personagem cujo ódio pela criança não é compreendido pelo leitor a princípio. Trata-se de uma relação conturbada, marcada por uma obrigação em cuidar de Vanderson, pois a mãe do menino trabalha e a avó é muito idosa. Entretanto, há um contexto por trás desse cuidado, atravessado pela questão racial e pelas formas como o racismo influencia os afetos e as relações familiares: o pai biológico da criança não a assumiu, e Lúcia não quis se responsabilizar, cabendo a Vera socorrer a irmã e criar o menino – atitude comum na periferia.

– Acontece, minha querida, que não pedi para ninguém criar ninguém. Por mim eu tinha tirado, tu sabe muito bem disso. Mas daí veio a Vera, me encheu o saco até não poder mais, insistiu pra eu não tirar, me prometeu que, se eu tivesse a criança, eu não precisava me preocupar, porque ela mesma ia pegar para criar; e aí, beleza, eu tive, e de fato a Vera pegou para criar. Ou seja, não fui eu que saí oferecendo. (Trecho de ‘Vera’, romance de José Falero – p. 125)

As experiências dessas mulheres negras são palpáveis, isto é, podem ser reconhecidas em minha tia, uma vizinha, uma ex-aluna ou uma amiga. Logo, ‘Vera’ leva o leitor por espaços que se entrecruzam: periferias, becos, vielas e prédios de classe média. Ao mapear esses caminhos e encontros, Falero cria um romance polifônico, no qual a humanidade dos personagens periféricos, atravessada por demandas sociais, raciais e de gênero, não é silenciada. Ao contrário do apagamento imagético que ocorre nessas localidades, no romance de José Falero tudo está exposto, nada permanece oculto. Vera me levou para um corre e me mostrou a cidade pelo ponto de vista de uma mulher negra. Siga seus passos.

Douglas Sacramento é doutorando em Estudos Étnicos e Africanos (Pós-Afro/UFBA). Bolsista CAPES. Mestre em Literatura e Cultura (PPGLitCult/UFBA). Pesquisa morte e outras temáticas vinculadas a morte na literatura negra e não-negra, como: pós-morte, questões de perda e luto, corpo ausente e presente, erotismo e morte, representação de ritos fúnebres e relação da morte com temática religiosa de matriz africana.