
Deus nunca falou comigo
Será finalmente Deus falando comigo, desejo. Deus nunca falou comigo, mas Ele escolhe as coisas loucas deste mundo para confundir as sãs, lembrei. Eu sempre busquei a Deus.
Foto de Francesco Alberti (via Unsplash).
Cruzo a praça da República e olho ele nos olhos. Era uma armadilha, sou fisgado. Miro bem direto pro fundo dos olhos dele. Azuis. Meu Deus, tão azuis. São naturais, não são lentes. Já tinha olhado muitas vezes pra dentro daquelas janelas, já passei por ali de dia, no fim da tarde, de noitinha. E ele tá sempre lá. Na última vez em que a gente se cruzou eu tava com uns pileques na cabeça e então sorri, dei boa noite. Ele sorriu de volta. O sorriso dele não é tão bonito quanto os olhos, mas é um sorriso eminente. Ele deve olhar direto nos olhos de outras pessoas, penso quase enciumado. Ele espera ser correspondido e talvez poucas pessoas retribuam, divago, agora um pouco pesaroso. Em todos os casos, o sorriso tá ali, em alto relevo na boca rosada e de lábios finos que ele tem.
Passo o cartão, passo raiva, passam os dias e não submerge da minha lembrança nem uma cena sequer da praça da República. Não me recordo dele enquanto aperto o quatro no elevador nem quando acaricio com o dedão o calo na minha mão direita, mania besta que tenho. Sempre que cruzo a praça da República, olho no fundo dos olhos dele e logo depois sou derrubado por uma amnésia brutal. Desço as escadas da estação do metrô e o que vi evapora da mente feito álcool 70. Só que quinta, agora, foi diferente. Não esqueci, porque dei a ele um nome: Zé Pilintra!
Fui criado em um lar evangélico, aprendi a chutar tudo o que fosse macumba, até meu vocabulário tomou uma bicuda, então levei um tempo até concatenar as ideias. Antes que os olhos azuis dele me chamassem atenção, saltava aos meus olhos, pobrezinhos, tão castanhos, a vestimenta do cabra. Calça branca, blazer branco, camisa vermelha aberta até o meio do peito, chapéu branco envolto numa fita, adivinha só, vermelha. Que homem bonito. E que homem esquisito. Me pego pensando se ele existe mesmo ou se é uma alucinação, um chamado espiritual ou coisa que o valha.
Será finalmente Deus falando comigo, desejo. Deus nunca falou comigo, mas Ele escolhe as coisas loucas deste mundo para confundir as sãs, lembrei. Eu sempre busquei a Deus. Minha avó, diaconisa da igreja Quadrangular, dizia receber mensagens do Espírito Santo de Deus e endereçava à alma requerida por Ele. Ela falava na lata, em bom português, no meio de um churrasco, durante uma viagem de ônibus ou num culto. Às vezes, falava em línguas estranhas. O recado descia. Com certeza era Deus. E minha vez, quando seria, eu me perguntava. Quando seria eu também um interlocutor dEle.

Eu sempre busquei a Deus. Deus nunca falou comigo.
Aos 16 anos um filho da puta meteu um cano na minha cabeça e me roubou um celular. Meio-dia. Dentro do ônibus. Eu tinha saído da aula e tava indo para o trabalho. Eu ganhava R$ 400,00 em dinheiro vivo, metia na meia, voltava altas horas da noite pela avenida Washington Luis até o Grajaú. Cu trancado. Mas foi ao meio-dia que a raposa levou meu Motorola, eu tava pagando ainda. Tá fazendo cara feia por quê?, ele me questionou, descendo a arma e empurrando contra a minha costela. Nem ali eu vi Deus. Não vi filme da minha vida. Nada. Silêncio.
Em 2018 o avião que eu tava quase caiu. Pelo menos foi o que eu e quase todos os outros passageiros achamos. Decolou na turbulência, chuva no meio da Amazônia, meio da tarde, ficou tudo branco, silencioso. Eu, meu pai e minha mãe na mesma fileira. Pensei na tragédia que ia ser, morrer a família toda de uma vez. Mas Deus, Deus mesmo, nem ruído, nem pista, mesmo lá no alto, no céu.
Na pandemia tive covid. Quando saiu o resultado positivo, nada de Deus. Tive febre, quase 40, delirei e Deus não estava lá nos meus delírios. 25% do pulmão comprometido. 3 mil mortes por dia na primeira metade de 2021. Primeira vez que andei de cadeira de rodas. O ar não vinha. E Deus também não.
Penso que sou eu o problema. Meus ouvidos são mocos pra Deus. Ou Deus grita tão forte e alto e óbvio que eu nem consigo ouvir. Ou talvez eu seja igual à baleia 52 hertz que emite sons numa frequência que nenhuma outra escuta e ouve sons numa frequência que nenhuma outra emite. A baleia navega sozinha num mar abarrotado.
Eu quero falar com Deus. Aceitei a dor, comi o pão que o diabo amassou, virei um cão, lambi o chão, me vi tristonho, me achei medonho e nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada.
Vai ver Deus não fala com ninguém, me consolo. E como até hoje eu não pequei ao mentir que ele se dirigiu a mim, talvez um dia eu vá para o céu. Quem sabe lá eu vou falar com Deus.
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