Com aguçado senso crítico e destreza estética, Aloisio transforma montanhas em música, marés em poemas e terra em matéria-bruta de beleza.
Publicado originalmente em 1 de agosto de 2025
Não há nada mais assustador para um poeta do que a sensação de ver uma coisa com olhos despidos de poesia. Enxergar a crueza do mundo na sua materialidade adoece e é por isso que o poeta Aloisio Romanelli foi taxativo ao afirmar que “[…] a poesia é necessária à vida”. O jovem escritor é autor do livro Relances de Mar e Montanha, lançado pela Editora Mondru(2025) e oferece ao mundo textos que transitam entre memórias, desejos e paisagens variadas, numa viagem sensorial pelo que há de mais belo e corriqueiro nos cenários que fizeram/fazem parte da sua vida.
O livro começou a ser esboçado há dez anos e reúne textos que misturam o olhar da juventude e da maturidade, mas sem perder o principal fio: a atração pelos espaços físicos e geográficos, principalmente das duas cidades nas quais o autor morou: Minas Gerais e Rio de Janeiro. A capacidade de ver poesia em luzes de natal ou em meninos encolhidos sobre jornais em uma noite fria demonstra não apenas o tino preciso para observar o mundo, mas a necessidade de vê-lo, muitas vezes, sem vernizes. Com aguçado senso crítico e destreza estética, Aloisio transforma montanhas em música, marés em poemas e terra em matéria bruta de beleza.
“Há 10 anos eu comecei a esboçar o livro, reunindo poemas que de algum modo se relacionassem. Percebi que havia um fio condutor na minha poesia, que se manifestava, sobretudo, na temática do cotidiano e na forte presença dos espaços geográficos e naturais. Ao longo do tempo, a minha dicção amadureceu, ganhou novos contornos formais e estéticos, porém mantendo a essência conceitual descrita” (Aloisio Romanelli em entrevista à Odisseu)
Leitor de Drummond, Aloísio desenha um Eu lírico que, apesar de não deixar de falar de grandes temas, como o amor ou a morte, também não teme o abismo por traz da folha em branco e nem se furta de descrever o bailado excêntrico da “doida da cidade”, dando-lhe o mérito de ser “a única que não se repetia” entre as réplicas de coisas e gentes num barzinho qualquer de um lugar que parece com outros que já vimos ou, quem sabe, que já frequentamos.
“Sem dúvidas, considero que os poetas e artistas em geral carregam um pouco dessa “doida da cidade” consigo. […] A poesia, por sua vez, interrompe o fluxo ordinário da rotina e nos permite olhar para os miúdos encantos, mas também para as cruezas do mundo.” (Aloísio Romanelli em entrevista à Odisseu)
Dividido em três partes (A vista das montanhas, Rumo ao Corais e Retorno), o livro é uma troca entre um Eu lírico inquieto e um leitor que visita, cautelosamente (ou não), o universo em trânsito de quem afirma: “Neste lugar existo como quem procura não ter sido” (Fumacê) ou que se lança “de novo ao novo velho relance”, deixando claro que “sem saudade me lembro do que já fui (Geraes). Aliás, a memória é lugar comum na poesia de Aluísio e evoca uma nostalgia revestida de questionamentos e de certo dilema entre o desejo de não esquecer e a conformação de que olhar para trás não trará de volta a concretude das coisas.
A minha poesia sempre olha para trás. Neste meu livro, me debruço sobre os elementos cotidianos e extraio deles matéria de memória, essa companheira que exerce sobre nós força visceral, nos conecta com todas as nossas vivências em processo sinestésico, permeado pelos mais vastos e múltiplos sentimentos. Ainda que olhar para trás seja, por tantas vezes, uma experiência espinhosa, seja na vida ou na escrita, não deixo de percorrê-la, utilizando-a, também, como insumo para a reconfiguração do presente. (Aloísio Romanelli em entrevista à Revista O Odisseu)
Relances de Mar e Montanha é uma leitura que exige dos sentidos mais do que o óbvio e convida o leitor a dançar, mas também a sentar-se diante do mar e sentir a brisa suave de efeito calmante trazida pelos sons da noite. Mas não se engane! Enquanto andamos de mãos dadas com o Eu lírico por ruas, bares, praias e terras, aprendemos que a poesia “nos proporciona experiências estéticas, sensoriais, filosóficas e políticas, que tanto arrefecem a carga do nosso mundo caótico, quanto apontam suas mazelas, fomentando possíveis transformações. Por todos esses apontamentos e muitos outros a poesia nunca vai deixar de existir e penetrá-la é um caminho fascinante” (Aloisio Romanelli)
Relances de Mar e Montanha, Aloisio Romanelli Editora Mondru