Crítica

O Jardim redivivo de Adélia em ‘O Jardim das Oliveiras’

Em ‘O Jardim das Oliveiras’, Adélia ambienta um jardim que passeia por caminhos já delineados desde Bagagem, trazendo ao leitor uma aprazível sensação de retorno às origens da poeta.

Foto de capa: Fernando Cavalcanti (Reprodução).

Quando em 1975, Drummond se encanta com o manuscrito de Bagagem, a bela estreia da poeta, e diz “ela faz poesia como faz bom tempo”, não seria possível dimensionar como o tempo da poesia brasileira se confundiria ao tempo de Adélia Prado, a mineira que, do interior das Minas Gerais, demarcou na tradição do país uma dicção poética estrondosa. 

O percurso pela escrita de Adélia, e aqui incluo sua produção em prosa, descreve um trajeto denso e sinuoso, como as próprias rotas e estradas de sua terra, onde morros e montanhas são convites para um particular sentimento de interiorização. Em sua obra nada paira na superfície e as aparentes contradições são, também, matéria de aprofundamento. Assim, o conservadorismo da tradição mineira, da qual faz parte, coexiste com a expressão de uma identidade feminina cujo desejo sexual possa ser legitimado em sua “divina” potência; a forte religiosidade, traço conhecido de sua dicção, se depara com uma fé real, palpável, que questiona seus limites e suas debilidades intrinsecamente humanas; o  ambiente doméstico e interiorano é subvertido em espaço metafísico e existencial. Adélia elabora e alimenta contrastes que expandem sua produção para além de qualquer dogmatismo ou obviedade. 

Ela agora, dos seus 89 anos, nos agracia com O Jardim das Oliveiras, seu lançamento pela editora Record, após um hiato de 12 anos, desde o seu último Miserere. O novo livro reúne 105 poemas inéditos, escritos entre as décadas de 1960 e 1980, “guardados na gaveta” por todo esse tempo e só agora publicados. 

O Jardim

Adélia Prado segurando seu novo livro ‘O Jardim das Oliveiras’ (Record, 2025). Foto de Ana Prado (Reprodução)

O profundo simbolismo bíblico do Jardim das Oliveiras nos remete a uma experiência múltipla: nele Jesus se reunia com seus discípulos para rezar e transmitir conhecimentos. Nele também ocorreu a traição de Judas Iscariotes e é descrito como o local onde Jesus se curvou à vontade de Deus diante da crucificação iminente. Assim , o Jardim traz consigo a representação da presença divina e da firme confiança na Sua vontade. 

Em meio a essa mesma experiência de súplica e devoção ,elementos constitutivos de sua poesia, Adélia ambienta seu último livro, um jardim que passeia por caminhos já delineados desde Bagagem, trazendo ao leitor uma aprazível sensação de retorno às origens da poeta.

Nos primeiros poemas somos rapidamente convocados às tradições e memórias de Adélia. Sua infância, sob as lentes cruas da mulher adulta , a presença latente da mãe em seus rituais, o quintal e o pasto da menina ainda livre da morte e do pecado. Há aí uma nostalgia que se edifica não apenas em torno das pessoas e lugares dispersos no passado, mas ,sobretudo, pelo sentido de inocência e deslumbramento que ,fatalmente, se perdem no fluxo do tempo:

A INICIADA

A menina de coração sensível e desmedida fome
fica comendo a vida no quintal.
A flor do mamão-macho: ô cheiro!
O ovo no galinheiro: ô coisa!
Seu país verdadeiro são caminhos de chão,
sol e abelhas,
pai e mãe sem morrer,
um domingo sem fim.
A vida plausível
e os olhos do homem nela,
um susto novo.
E o coração batendo como um surdo. (p.16)

Adiante o Jardim se afunila e encontra uma poética mais áspera, em que o envelhecimento aproxima o eu-lírico da percepção da carne e suas cruezas, a passagem do tempo se torna convite incontornável para a busca do mistério, a ânsia pela concretude de um Deus que se faça palavra , aconchego de toda criação, anteparo para a crença no homem: 

“(…)
Depois o pai morreu, a mãe, a irmã,
o homem da mão seca e o cego.
Meu coração encolhe-se de dor,
verme entre brasas.
Ofereço a Deus meu braço, ele recusa.
Dou-lhe mais: os olhos, e ele nem ouve.
Me quer lúcida e sã entre bactérias, tristezas
e o que a vanglória do mundo chama os derrotados.” (p.122)

Assim como no apelo ao divino, a mística possibilidade de salvação em Adélia se dá pela poesia em sua natureza inata, em sua capacidade de nomeação dos encantamentos cotidianos, a matéria poética como o próprio milagre capaz de nos salvaguardar, nos livrar da derrocada humana que também se insinua em seus versos. A poesia , aqui, se entremeia à vida em todas as suas miudezas, revelando signos que dispensam o registro:

“(…)
A borboleta, só de abrir e fechar as asas, 
está falando.
Não se faz poesia apenas com palavras;
poemas, sim, mas quem precisa deles?” (p.77)

O Jardim das Oliveiras: ‘A poesia , aqui, se entremeia à vida em todas as suas miudezas, revelando signos que dispensam o registro’

O Jardim nos convida, tal qual em sua simbologia original, a penetrá-lo como mulheres e homens que buscam amparo diante da dúvida e do medo, a fim de se consolarem frente à coroa de espinhos que , a cada dia, a realidade duramente deposita acima de suas cabeças. A poesia de Adélia não utiliza os signos canônicos para apenas sacramentá-los, mas os aproxima da mais rasteira condição humana, onde, de fato, aderidos à palavra poética , perdem sua forma hermética e adorativa para se tornarem expressão da nossa fragilidade. Ao evocar sua religiosidade, a poeta nos incita a fé na palavra , capaz de abarcar todas as nossas vicissitudes, das mais sutis às mais cruéis, pois nela, que também é “chaga”,  tudo cabe, vida e morte, infância e velhice, desejo e renúncia , Adélia e “Pedrinho Matador”,o famoso serial killer brasileiro resgatado no poema PRO REO  (p. 126).

Percorremos o Jardim de Adélia como encontrássemos na Via Crucis cotidiana desvios graciosos nos quais, por vezes, nos perdemos, labirintos onde a brutalidade dos dias se conecta com os segredos capazes de nos salvar da nossa própria condição. O último livro de Adélia é um deleitoso retorno aos inícios da poeta, um Jardim redivivo onde, entregues ,confiamos na sua vontade , onde nos curvamos à potência de uma dicção que se mantém sólida e arrebatadora em qualquer tempo possível.

O Jardim das Oliveiras, de Adélia Prado
Record, 2025
144 pp.