
‘Há no abismo uma fronteira? Coreografias entre a queda e o planar em Juliana Krapp’, ensaio de Maria Emanuelle Cardoso
O chamado da água é ancestral, e seus arredores são a origem. O som dos corpos hídricos atiçam o nosso ouvido simbólico, ancestral. Não apenas o humano, mas tudo que é vivo vem da água. Aqui, o convite ao mergulho parte do microscópico. A água em sua forma íntima de lagoa.
Imagem de capa: Ophelia, de John Everett Millais (1852)
Tudo é água, acreditava o filósofo grego Tales de Mileto. E a história evolutiva diz sim ao filósofo. A vida nasceu da água, as civilizações se ajustaram ao redor de suas fronteiras. O chamado da água é ancestral, e seus arredores são a origem. O som dos corpos hídricos atiçam o nosso ouvido simbólico, ancestral. Não apenas o humano, mas tudo que é vivo vem da água. Aqui, o convite ao mergulho parte do microscópico. A água em sua forma íntima de lagoa.
Em termos limnológicos, a lagoa é um fragmento da água, que pode surgir da ação humana ou de maneira espontânea. O fluxo do líquido é pequeno, mas isso não significa que a água está estagnada. Pois a água é vida, e a natureza da vida é a colisão do corpo com a fronteira espaço-tempo; de maneira sutil ou brusca. […] Tudo poderia se quebrar/ se não corresse […]. E é a palavra conduzindo nossas canoas a outra margem, “atiçando o barro de onde viemos”.

A escritora e jornalista Juliana Krapp. Foto: site do Círculo de Poemas/ Reprodução
“Remadores criam distúrbios, mas não ondas”, e a tensão do movimento está no plasma desse reservatório, e não é o planar apenas, mas também a queda, que nos conduz ao outro lado; como percebo no livro de estreia de poesia Uma volta na lagoa, da escritora e jornalista Juliana Krapp. Por duas décadas, Juliana tem publicado poemas e textos esparsos em coletâneas e revistas literárias. A autora é doutora em literatura brasileira pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e jornalista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). A estreia da escritora foi publicada em 2023 pelo Círculo de Poemas, da Editora Fósforo, tratando-se de uma coleção de poesia brasileira e estrangeira de diversas épocas e tendências.
Li a lagoa em casa, antes de dormir, no intervalo do almoço, na sala de espera. Entre familiares, amigos, gatos, só. Os poemas te perseguem, te assombram, no melhor sentido do verbo. Foram muitas as releituras e a cada volta pela lagoa, um símbolo se mostrava, imitando a própria dinâmica aquífera, mutante a cada olhar, mergulho.
Em 2024, a obra foi finalista do Prêmio Oceanos e ficou com o segundo lugar do Prêmio Literário da Biblioteca Nacional, categoria de poesia Alphonsus de Guimaraens. O reconhecimento pelo circuito literário tradicional e institucionalizado iluminam uma obra que dialoga com a tradição literária, mas propõe desdobramentos profundamente contemporâneos. Entre lirismos, enjambement e versos livres, temos acesso à uma coletânea multitemática que nos apresenta a voz e o estilo da escritora carioca. Os versos causaram-me certa inquietação. Li a lagoa em casa, antes de dormir, no intervalo do almoço, na sala de espera. Entre familiares, amigos, gatos, só. Os poemas te perseguem, te assombram, no melhor sentido do verbo. Foram muitas as releituras e a cada volta pela lagoa, um símbolo se mostrava, imitando a própria dinâmica aquífera, mutante a cada olhar, mergulho.
O poema de abertura do livro, “Meu pai” nos apresenta a poética da lembrança, do olhar o outro com atenção até a pulverização dos olhos, para referenciar a poeta argentina Alejandra Pizarnik. Essa contemplação do outro, de seus abismos, limites. Há um esboço do passado, onde cada palavra é uma embarcação porosa flutuando sobre as sensações, se me permitem uma conexão com o livro-frase de Virginia Woolf. Seu corpo coberto de lodo-betume do tempo nos rememora quão grande é a parcela de nós mesmos que está no passado, no outro, e vice-versa.
O pai afugenta o mal, é motivo de espanto, de culpa e afeto. Os conhecimentos, o sangue e a confluência paternos estão no eu lírico, são inerentes a ele, como a dualidade é inerente ao que é vivo e está no ar. Pois a mesma corda utilizada para ancorar um barco no espaço é o instrumento bélico de tortura e autoaniquilação. “No que sei e o que não sei do meu pai” é o fim do poema, aceitando que o outro é interrogação e dádiva, revelação e mistério, mágica e violência, simultânea e incessantemente.
O poema é uma piscadela para o autor – temos acesso à uma voz lírica densa, com pleno uso de ferramentas poéticas para nos contar da fronteira de tensão entre a memória, a admiração, o estranhamento. No subtexto do livro há uma crítica ora sutil ora explícita à violência e preconceito, seja ela nas subjetividades ou perpetuadas pela superestrutura. Tudo isso feito com uma canoa-palavra nunca panfletária ou pedagógica, mas sempre capaz de encantar e enjoar o leitor com a vista das margens, atiçando o barro de onde viemos.
O fluxo narrativo constrói uma prosa poética que mistura imagens brutais, adoecidas, ora eróticas ora detalhadas, que servem de ressonância e contraste à identidade do eu-lírico. Esse será um ponto nevrálgico do livro: um narrador que perpassa pela cidade, pelas pessoas, reconhecendo as ambiguidades em si, em tudo. E a relação com esse “tudo”, seja ele o pai, a si próprio, uma infância, um limite, um
amor, um desconhecido, é de travessia.
É de afeto, essa balsa ao outro que estamos atrasados para pegar, mas sempre dá tempo. E como dá tempo nos sentamos, aliviados, diante dessa margem de partida e chegada que é o outro, o passado, o corpo. Chegamos ao destino sabendo que a única forma de encurtar uma distância. Conforme avançamos a leitura, percebemos que nos desencontros, nas quinas, inflexões, reside a natureza anfíbia das coisas.
O segundo poema, que dá nome ao livro, nos apresenta a turbidez e a transparência da nossa experiência vital. “Uma volta pela lagoa é a única coisa que fizemos juntos”, esse passeio-retorno ao ancestral, uma despedida ao som primordial da água. […] Tudo é teia remoinho espasmo/ de suspense/ a carne do mundo exibindo suas garras […] e como ferem essas garras, quando se tem um útero e tudo é proibido, fardo dado desde o nascimento, para quem em águas propaga a vida.
Em um ato de autoconsciência, o eu-lírico reflete constantemente sobre o fazer poético, como se a linguagem por si só fosse uma lagoa a ser atravessada, a nos conceder ciclos de cheia, seca, palavras.
[…] Muitos deles me apontariam o dedo/ e me chutariam pra fora/ eu que/ amanhã seguirei sozinha/ compartilhando com incontáveis mulheres/o mesmo silêncio encrustado há séculos/ ao redor do sangue que fazemos escorrer/ em segredo […] O corpo que gera a vida é por si só a margem e a lagoa, ora cultivada, ora assoreada. É difícil estar em um corpo, é difícil se sentir em casa, lidar com a falta e o julgamento do outro, e nesse sentido, fazer do vazio um hábito, um habitat. Fazer do vazio uma casa, uma casa que arde, pinica e sente, incansável e implacavelmente.
E quando Krapp fala de abismos, pense em um espaço repleto de memórias, uma fera-ferida de olhos arregalados. O terceiro poema “As bonecas” trata com absurda sensibilidade a violência incessante a qual são expostos os corpos, o quão a história das mulheres, seus corpos, suas bonecas são violados, interrompidos e marginalizados. A história de nossas ancestrais, que foram estupradas, ridicularizadas por seus hábitos, expostas à solidão de irmãs, amigas e companheiras imaginárias. […] E ordenaram que fosse dada como morta/ para que ninguém/ no futuro/ jamais pudesse saber seu nome […].
A tríade introdutória da obra insere o leitor em uma volta afiada, e nos apresenta o fio condutor da obra: o mistério. Colamos o ouvido no peito do mistério-abismo porque é irresistível/ perscrutar o abissal. E é necessário atravessá-lo, aprender a sobrevoá-lo, sabendo que estar vivo é uma experiência mortal, da qual não se sai ileso, ainda mais para alguns corpos, expulsos do lago por terem nascido muito aquáticos. Nos poemas que se seguem, não há onomatopeia de domingos. A concisão, o trabalho, a autenticidade dos relatos nos diz: a volta é sinuosa, e às vezes, nos cantos, há tristeza, saudade, sangue.
Em um ato de autoconsciência, o eu-lírico reflete constantemente sobre o fazer poético, como se a linguagem por si só fosse uma lagoa a ser atravessada, a nos conceder ciclos de cheia, seca, palavras. Entretanto, não temos todo o tempo do mundo para o mergulho. O poema foi feito no fim do mundo e sabe disso. […] aqui, onde/ a barbárie já nasce seca/ em seus olhos […]. Os poetas são trabalhadores, são pobres, para flertar com a frase da também poeta Mila Teixeira.
O fazer poético abandona qualquer ingenuidade, seja ela temática ou formal: como no poema “A questão”, diga-se de passagem um dos meus favoritos do livro e da literatura contemporânea como um todo. A peça literária atua no limiar entre o pessimismo da razão e o otimismo da vontade. Vontade essa materializada no rito de passagem, esse estar no mundo portando apenas nossas asas molhadas, que pesam. Mas não impedem o voo: […] estou cansada/ do zumbido da minha própria voz não sou não/ me ocorre ser ninguém dores/ titubeiam ordinárias após tanto uso o passado […] não tenho os atributos necessários estou aqui/ apenas de passagem […].
Na lagoa, as ambiguidades convivem entre si sem se anular ou se sobrepor […] a palavra flagelo/tão íntima/ da palavra folguedo […]. A festa e a dor convivem, com uma fronteira que atravessamos por ou contra a nossa vontade. Nisso há um quê de iluminação/ queimadura, nutrição/ferida: o sol e o sangue/ ambos penetrando/ sempre/ com seus ferrões/ a palavra flagelo, a palavra folguedo. A multiplicidade da natureza se exibindo em nós todos, sendo feita aqui de uma forma sutil, como um jogo semântico muito perigoso – e justamente pelo perigo: vital.
Há uma sútil melancolia nesse limiar, a inerente tristeza das horas, a raiva diante do luto, como no poema o amor morreu: […] onde reina o mato alto/ o capim bravo, a devoção/ da terra pelo sol/ e as folhas secas/ que sempre ardem aos olhos/ para estragar tudo. O poema é uma denúncia ao abandono, parte da metáfora de uma natureza abandonada, hostil que ainda assim insiste em completar seu ciclo. Algo como o amor, nascendo nas frestas como folhas fazendo pirraça na calçada. E é aí, quando uma árvore quebra uma calçada, que está a revolução. Quando uma mulher reivindica o direito de construir a sua própria narrativa, sem cair nem em idealizações nem no pessimismo puro, há uma centelha de esperança. Pela e através da liberdade, ainda que limitada e nunca plenamente conquistada.
Recorrer ao corpo, a animalidade, pode ser interpretado como um giro epistemológico de cunho ecofeminista, ainda que não declarado ou panfletado, pois o corpo da mulher, assim como a fauna e os recursos hídricos são explorados, aniquilados pelas forças hegemônicas.
A percepção do corpo feminino e as expectativas de gênero atravessam toda a obra, podendo ser percebida como esse peso, essa força de coerção social e familiar nos empurrando à fibromialgia, à exaustão, à dor. […] Onde há sempre a trama de vapores e uma mulher/ que acaba de chegar/ com seu corpo envenenado […]. O corpo feminino tenta expurgar o veneno do patriarcado, e esse movimento nos leva a passear pelos escombros como quem se reconhece nos fragmentos. Há pouco tempo para a escrita, há o trabalho, o capitalismo, a crise, o poema é escrito apesar de: não sou poeta não apenas/ ouvi um estrondo/ e tentei descobrir de onde vinha/.
Juliana sabe que a linguagem nem sempre dá conta de tudo. Para a luta, para a fuga, resta o corpo: […] à discreta contração de lábios não temos/ sequer lastro de linguagem sequer/ réplica e sua pouca carniça/ – ao fundo só o desejo de orquidários/ e uma perturbação de pernas […]. Recorrer ao corpo, a animalidade, pode ser interpretado como um giro epistemológico de cunho ecofeminista, ainda que não declarado ou panfletado, pois o corpo da mulher, assim como a fauna e os recursos hídricos são explorados, aniquilados pelas forças hegemônicas. Lagoa nos conta de uma associação entre o feminino e o selvagem de forma leve, divertida até, com uma breve melancolia. Mas um olhar bem treinado pela própria escrita de Juliana percebe que ela nunca quis dizer apenas o que disse: […] Estou atada/ porém/ ao mundo da sonolência/ e das cintilações breves/ da louça quebradiça e da mixórdia/ – ao lugar/ das mulheres e bichos/ que se espatifam n’água.

Uma volta pela lagoa
Juliana Krapp
Círculo de Poemas, 2023
104 pp.
Para circundar uma lagoa e sobreviver à memória, é necessário um esforço contínuo, talvez somente realizável através do amor. Um esforço de inseto em atrito com a vidraça. Esforço de quem sabe que apesar das profundezas há a dádiva, calma, nem tudo é tristeza e queda, sobre a margem do rio também florescem cajueiros. “Enquanto tudo ao seu redor é ênfase […]/ o seu avesso/ é puro vidro/ ardoroso: quer partir”.

Maria Emanuelle Cardoso nasceu em Montes Claros, Minas Gerais, em 15 de novembro de 2000. Bióloga, atualmente cursa o mestrado em Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais (PPGBURN) na UNIMONTES. Realiza pesquisas na área de Etnoecologia e atua como educadora popular. Seu livro de estreia “amarelo mostarda” foi publicado em 2024 pela editora Nauta. Faz parte da equipe de poetas da Fazia Poesia e tem textos publicados em antologias e revistas em português, espanhol e inglês. Recebeu o segundo lugar do Prêmio Poesia Agora Verão 2021 (Trevo) e foi selecionada para o Clipe Poesia 2023 na Casa das Rosas. Seu segundo livro “foram os peixes a inaugurar a linguagem” está no prelo.
