
Sorrir com Lima Barreto (e com Jorge Augusto): Comentário crítico ao livro ‘Modernismo Negro’
Fala de Fabiana Carneiro da Silva durante o debate de lançamento do livro O modernismo negro: a literatura de Lima Barreto, na USP em maio de 2025. Evento organizado pelo Professor Marcos Piason Natali e que também esteve presente como debatedor o pesquisador Caio Gabriel da Silva.
Fotos de Jorge Augusto: Denni Sales/ O Odisseu.
Em Natal, no ano passado, participamos do Congresso Internacional Griots e pude, então, ter em mãos o livro O modernismo negro: a literatura de Lima Barreto, que Jorge levou em primeira mão para ser vendido (nem preciso dizer que os poucos exemplares acabaram em 5 minutos). Eis que ao manusear o objeto livro me emocionei quando pela primeira vez irrompeu sobre as minhas retinas a imagem de Lima Barreto sorrindo. Dito com maior minúcia, o provocador projeto gráfico do livro, realizado por Diego Ribeiro e Welber Trindade, apresentou uma montagem de capa constituída por uma sequência de fotografias (criadas, por sua vez, com recursos da inteligência artificial) em que acompanhamos o movimento de abertura de um sorriso por Lima Barreto. Ao final do livro, uma outra composição em que à foto original de referência da capa, um difundido registro preto e branco de identificação de LB quando de uma de suas internações Hospital Nacional dos Alienados, na cidade do Rio de Janeiro (foram duas 1914 e 1919), foi agregada uma nova fotografia, desta vez colorida, em que a vestimenta obrigatória aos encarcerados no hospital foi substituída por um terno e gravata e o aspecto sisudo de Lima Barreto cedeu espaço a outro aberto sorriso. Em mais uma possibilidade de composição desses paratextos, apreendemos, ainda, a fotografia do autor, Jorge Augusto, também esboçando um contido sorriso, que se coloca em sobreposição à fotografia original do escritor carioca. A experiência com essa dimensão material do livro me sensibilizou de sobremaneira e ganhou ainda mais ressonância depois da travessia de leitura da obra.

A sensibilização primeira, em grande medida, se vinculou à possibilidade que o livro, em sua dimensão visual, mas não só, oferece de que vislumbremos a imagem de Lima Barreto para além de uma gramática da violência (para usar os termos de Saidiya Hartman), isto é, para além dos enredamentos com que boa parte da recepção crítica da obra de Lima, em sua ênfase biográfica e redutora, aprisionou a produção literária e a trajetória do autor, vinculando-os ao um campo semântico ligado a termos como incapacidade, inadequação, ressentimento, tristeza, alcoolismo, etc. Não posso deixar de mencionar aqui, o quanto a discussão dessa problemática do enredamento racista da imagem do autor versus as inscrições de autodefinição dele foi adensada pelo estudo de Fernanda Silva Sousa.
Em sua tese doutoral, trabalho que tive a alegria de acompanhar como integrante da banca de qualificação e defesa, Fernanda se detém em exercício de análise não apenas dos diários de Lima Barreto, mas também das fotografias que dele circulam; em disputa por uma leitura que esteja para além do paradigma da “violência” e da “resistência”, a autora produz um exercício de crítica especulativa, tendo como pressuposto uma defesa da necessidade ética do cuidado com vidas e trajetórias negras. Fernanda Sousa, de mãos dadas com as proposições de Saidiya Hartman, Tina Campt e Christina Sharpe, nos convida a capturar as imagens de beleza e autodefinição de Lima Barreto e a imaginar o que não está explícito nos textos, mas pode ser pensado a partir deles.
Em alguma medida, o sorriso que capa do livro de Jorge Augusto desentranha da fotografia original de Lima Barreto pode ser lido como um exercício de especulação, de fabulação crítica, que, em sua amplitude polissêmica, também me convocou a fabular: o que, em face à discussão empreendida por Jorge Augusto, nesse livro sobre o modernismo, provocaria o sorriso de Lima Barreto?
O sorriso de Jorge Augusto me parece suplementar a imagem que o autor delineia de si mesmo no impactante capítulo que abre o livro, intitulado ‘O doutor’
Dra. Fabiana Carneiro da Silva

Elegendo as águas negras da experiência atlântica, bem como o enraizamento originário nessa terra, ambos territórios que dizem de minha constituição afro-indígena, arriscaria um primeiro movimento fabulativo que tem como rastro o sorriso de Jorge Augusto esboçado na orelha do livro. O sorriso de Jorge Augusto me parece suplementar a imagem que o autor delineia de si mesmo no impactante capítulo que abre o livro, intitulado “O doutor”. As primeiras palavras deste capítulo são: “Esse texto foi escrito durante uma longa noite. Escura e confusa, entre gritos de horror e silêncio”. Nele, o autor Jorge Augusto, com a potência de uma escrita também de feição literária, revê em retrospectiva a sua trajetória de formação acadêmica e explicita o assombro de ser ver enquanto sujeito negro periférico vivo, enquanto doutor negro a construir um projeto intelectual, a despeito, mas também atravessado, por todas as constrições da necropolítica no Brasil.
Sinto e penso, assim, que uma primeira fabulação de atribuição de sentido ao sorriso de Lima Barreto está na imaginária – e talvez nem tão imaginária assim – possibilidade de que o autor carioca possa testemunhar a realização do presente estudo e sua publicação por esse irmão sobrevivente. Um sorriso de afeto e reconhecimento ao ver o jovem doutor baiano, do bairro da liberdade, assumindo o desafio epistemológico de dar continuidade ao empreendimento de projetar uma civilização desde um ethos cultural negro, fazendo vibrar, entre nós, um pensamento corajoso, inventivo e refinadamente critico. Cumpre dizer que é belíssimo o modo como Jorge, ainda nesse capítulo, se alinha-irmana a Lima, criando como cena fundante do livro a hipótese de que possa haver algo de comum e vigoroso entre a experiência de um intelectual negro apreendendo a Modernidade no subúrbio carioca no século XX e a experiência de um intelectual negro vendo a contemporaneidade da periferia de Salvador no século XXI. A leitura integral da obra pela sofisticação dos movimentos analíticos dos textos literários de Lima Barreto e pela singular forma de revisão do discurso acerca do movimento modernista de São Paulo, confirmam a hipótese esboçada pelo autor nesse primeiro capítulo e nos devolve aqui para fins desse debate a questão: de que modo o projeto literário de Lima Barreto – assentado num regime de produção subjetiva negra e empenhado no combate à antinegritude no Brasil – resguarda em si o potencial de reorientação de vidas dispersas pela diáspora e, quiçá, de refazimento de comunidades para além da pátria?
Modernismo Negro: A dimensão cismada do sorriso de Lima Barreto encontra ressonância no modo como Augusto desenvolve o seu pensamento
Me fiando ainda nos volteios engendrados por uma noção espiralar do tempo, reconheço, em novo movimento fabulativo, a cisma presente no sorriso de Lima Barreto. Nessa direção, a alacridade de um outro estatuto para sua produção literária, estatuto este que, (re)inscrito numa episteme negra, restitui a potência de seu projeto e a ele atribui o devido valor, convive com a desconfiança. A cisma entrevista no sorriso de Lima Barreto diz sobre o conhecimento de um campo hostil e que ainda dispõe de engenhosos mecanismos para manter às margens não apenas sua obra, como também proposições críticas contracoloniais, como a de Jorge Augusto. A dimensão cismada do sorriso de Lima Barreto encontra ressonância no modo como Augusto desenvolve o seu pensamento. Ao eleger as categorias de Língua, Território e Memória como condutoras de sua leitura da obra de Lima Barreto, o crítico se confronta com os referenciais ocidentais, branco-europeus, que balizaram a construção do arquivo da literatura nacional, bem como da tradição crítica brasileira. Cismado, ele não apenas coloca esse repertório sob estatuto da “desconfiança”, como demonstra em que medida os parâmetros até então mobilizados para recepção da obra de Lima Barreto (quando lida) não dão conta de apreender e fazer ressoar muitos dos elementos constitutivos dessa textualidade, sobretudo o caráter ético-estético do projeto barretiano.

Editora Segundo Selo, 2024
438 pp.
Não poderei adentrar na minúcia desse movimento (o convite é para que o leitor/a leitora o faça). Interrompo esse meu gesto fabulativo com o apontamento de que a cisma de Jorge Augusto cria um novo itinerário de leitura da obra barretiana e, percorrido esse caminho, nos impele à repensarmos nos modos como temos nos movimentando por entre os diversos arquivos literários produzidos no Brasil. Nos encaminhamentos finais do texto, Jorge apresenta a noção de “sismografia”, evocando não a dimensão cismada que fabulativamente atribuí aqui ao sorriso de Lima e ao modus operandi da produção discursiva de O modernismo negro, mas sim o “sismógrafo”, dispositivo científico para a apreensão das ondas que se propagam no interior da terra. Em diferença às noções de “cartografia” ou “topografia”, deficitárias de um esquema de representação em grande medida estático, a proposição da “sismografia” transposta ao campo literário por Jorge Augusto versa sobre a possibilidade de um trabalho crítico capaz de captar o movimento, as conexões e as expansões das obras e do campo, ao invés de buscar assinalar singularidades ou fragmentações deles.
Nas palavras do autor, “a experiência negra de produção literária sugere um deslocamento dos procedimentos constitutivos das noções de continuidade e ruptura em paradigmas de superação e sobreposição, em direção a um trabalho crítico focado no estabelecimento de “conexão, expansão territorial e circularidade temporal: devir e diferença”.
No livro, o trabalho de Lima Barreto é, assim, sismografado por Jorge Augusto. Ele se mostra como um ponto significativo de uma rede de interrelações com os vários arquivos literários do país, que são então (re)vistos as partir das questões linguísticas, éticas e epistêmicas inscritas na produção desse autor negro e suburbano. Penso que nosso debate também possa revisitar essa proposição de modo a conjecturar coletivamente, na esteira dessa visada de um modernismo negro, formas alternas de compreensão e mobilização dos textos literários, numa práxis que dê a ver a significância dos princípios civilizacionais negro-brasileiros vivos e cintilantes nesse território.
Uma vez mais sensibilizada e encorajada por seu trabalho, Jorge Augusto, estou. E como gesto inconclusivo, de agradecimento e devir, a você e ao Lima Barreto devolvo a oralitura do meu sorriso.
Fabiana Carneiro da Silva
Neta de Amada e de Quitéria, filha de Lourdes, mãe de Imani e de Yeté. Tece um caminho que alinhava docência, pesquisa e ações artísticas no campo dos saberes contra-hegemônicos, sobretudo a partir do eixo constituído por literatura, corpo e experiência comunitária. Atualmente é Pesquisadora de Pós-doutorado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (IFCH-UNICAMP). Doutora e mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), atua como professora adjunta no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Coordena o grupo de pesquisa (Cnpq) Auê: artes da grafia. É autora do livro de crítica literária Ominíbú: maternidade negra em Um defeito de cor (EDUFBA,2019), do livro de poemas Casa Cheia (Paralelo 13s, 2023), organizadora do livro Sonhos com e para Stella (Segundo Selo, 2023) e editora dos livros Escola Viva Buraco D’água (Capanga de Aruanda, 2024) e Iê, o grito da capoeira-menina (Capanga de Aruanda, 2025).

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