Reportagem

O que ‘Mônica vai jantar’, livro de Davi Boaventura, ainda tem a nos dizer

Mônica vai jantar, romance inventivo de Davi Boaventura, ganha segunda edição com posfácio inédito do autor após ser finalista em prêmios e ganhar adaptação para o teatro.

Foto: Davi Boaventura.

Quem pega nas mãos e abre o livro “Mônica vai jantar” (Dublinense), se depara com um elemento que salta aos olhos de qualquer bom leitor. Não, não estou falando apenas do excelente trabalho de capa e edição da Dublinense, mas do texto, organizado em um único sólido bloco de prosa, não tem parágrafos, tampouco pontos ou vírgulas. Trata-se de um texto corrido, uma única frase que ocupa as noventa páginas da edição que tenho em mãos. 

A primeira vez que eu ouvi falar de Mônica (para os mais íntimos) foi através do amigo Paulo Zan, que me indicou com o seguinte discurso: é um livro ousado. De fato. O romance de Davi Boaventura é ousado tanto pelo formato do texto quanto pela premissa. Uma mulher se prepara para um jantar, uma confraternização em sua empresa, evento importante, quando descobre que o seu marido foi pêgo se masturbando publicamente dentro de um ônibus. A partir de então, o que lemos é um mergulho na mente de uma mulher diante de um dilema que ninguém espera viver. 

Durante a mesa que Boaventura participou com a também romancista Carluce Couto na programação da revista O Odisseu, no Ateliê M.E, durante a Flipelô 2025, Davi disse que a inspiração veio de um vídeo que alguém da sua família recebeu no WhatsApp e que denunciava um homem que se masturbava dentro de um ônibus. Na ocasião, ele também contou que até pensou em contar a história a partir do próprio assediador, mas não queria fazer uma pastiche de Lolita, de Nabokov. Para aumentar a complexidade do dilema, era preciso adicionar outra camada e é então que Mônica surge. 

Lançado originalmente em 2019, o livro também se relaciona com o período de mestrado e doutoramento de Boaventura em escrita criativa na PUCRS. Já no ano de sua primeira publicação, o livro causou alvoroço e foi finalista dos conceituados Prêmios Minuano, AGES e São Paulo de Literatura. Começava ali a vida de Mônica que viria a experimentar novas aventuras. Em 2023, estreia a adaptação Casa limpa marido sujo, dramaturgia de Tatiana Ribeiro e direção de Amanda Mantovani, uma realização da Gestão de Cultura de Jundiaí. Mas o que Mônica ainda tem a nos dizer hoje depois de anos do seu lançamento?

‘Não tem uma palavra fora do lugar’, diz  Taiane Santi Martins sobre ‘Mônica vai jantar’

Taiane Santi Martins. Foto: Davi Boaventura.

Para escrever sobre Mônica, decidi chamar para a conversa alguém que, eu já sabia, esteve presente em diversas etapas da vida deste livro que continua a se afirmar como um grande feito do romance de nosso tempo. Convidei Taiane Santi Martins, autora do excelente Mikaia (Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e segundo lugar no Prêmio da Biblioteca Nacional), para falar um pouco sobre o livro de Boaventura. Martins relembra os anos de amizade com o autor e um pouco de do processo de escrita que acompanhou de perto. 

Era junho de 2019 quando nos encontramos na Olaria, antiga sede da livraria Bamboletras, em Porto Alegre, para celebrar que finalmente ‘Mônica’ conseguiria ir jantar. Nós éramos os amigos de Davi, seus colegas, seus pares. Tínhamos acompanhado a construção de ‘Mônica’, a revisão incessante de Davi com aquele texto. Conhecíamos trechos daquela mulher que prestes a sair para um jantar importante descobriu que vivia com um abusador. Aprendemos da estrutura do pensamento de Mônica ao assistir Davi tantas vezes debater a construção de fluxo de consciência. Conta Taiane Santi Martins.

O livro então surge como projeto de mestrado de Boaventura sob orientação do grande Luiz Antonio de Assis Brasil na PUCRS. O escritor de Mônica ainda faria o doutorado também em escrita criativa pela mesma instituição, onde conheceu Taiane (que se doutorou no mesmo programa). Na dissertação, Boaventura ainda utilizava vírgulas no texto, mas não pontos. Na versão que foi publicada em livro, já não havia pontuação alguma. O autor falou algumas vezes em ocasiões públicas que a pontuação é uma espécie de cabresto para o leitor, algo que ele não queria. Martins conta um pouco de como foi acompanhar essa criação experimental:

Conhecíamos o seu ritmo acelerado das vezes que o vimos ler ‘Mônica’ em voz alta, de um fôlego só. Sim, ‘Mônica’ foi feita para ser lida de um só fôlego, em alto e bom som. Não apenas porque o livro todo se passa em um único parágrafo, mas diante de uma quebra de confiança tão grande a voz se impõe. Ler em voz alta, foi o que eu fiz quando cheguei em casa, naquela mesma noite do lançamento.

O texto tão diferente do que a maioria está acostumado poderia dar muito errado ou muito certo. E deu certo. Não apenas enquanto um texto que chama atenção pelo simples fato de ser diferente, mas também pela qualidade literária como conta Martins:

Ao final do livro, lembro de ter pensado: ‘puta merda, Davi, não tem uma palavra fora do lugar’. Era justificado todo o tempo de reescrita. Davi assinou o contrato de edição no dia da defesa de seu doutorado em Escrita Criativa, e eu assinei como testemunha desse momento símbolo. Agora, ‘Mônica’ ganha nova edição como segundo romance nacional mais vendido da história da Dublinense. E eu sigo sendo testemunha do trabalho literário de Davi Boaventura. Que ‘Mônica’ ainda possa jantar com muitos leitores.

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‘Consegui me despedir de Mônica’, escreve Davi Boaventura 

O livro agora ganha uma nova edição e o autor trabalha em seu terceiro romance de nome Madame Exú, como nos contou na participação da programação da revista O Odisseu na Flipelô+. Quem é amigo de Davi (posso dizer que sou), sabe como o seu processo de escrita pode ser devagar dado o perfeccionismo e desejo de precisão. 

No posfácio inédito que sai com essa segunda edição, Davi aproveita para falar um pouco do seu cuidado com o texto e anuncia o fim de um ciclo:

Acho que hoje, depois de seis anos de livro publicado ─ e onze anos desde que comecei a escrever o primeiro rascunho ─, consegui, enfim, me despedir de Mônica: ela já não me pertence mais, não é mais uma figura na minha cabeça, ela foi viver o calor da rua.Agora, completo, Mônica se junta a outras mulheres icônicas da literatura brasileira contemporânea – Bibiana, Belonisia (Torto Arado), Kehinde (Um Defeito de Cor), Cecília (A Pediatra) e Júlia (Pequena Coreografia do Adeus) – para seguir uma vida longa através de novas leituras. 

Mônica vai jantar, de Davi Boaventura
Dublinense