Entrevistas

‘Eu estou fazendo uma confissão’, diz N Netta, autora de ‘Do tamanho de um grão’, primeiro romance sobre aborto no Brasil

Em entrevista à revista O Odisseu, N Netta contou como se deu a escrita do romance Do tamanho de um grão (Dulcineia, 2025), romance que inaugura o tema do aborto como centralidade na literatura brasileira.

Publicado originalmente em 13 de agosto de 2025.

Foto: Ale Bastos. Foto do livro: Studio Tertúlia.

Nos últimos anos temos acompanhado o crescimento de narrativas em primeira pessoa escritas por mulheres na literatura brasileira. Esse boom vem acompanhado de um movimento que joga luz sobre temas que envolvem a vivência feminina, mas que foram silenciados por uma censura moral. Em Melhor não contar (Todavia, 2024), de Tatiana Salém Levy, por exemplo, o tema do abuso sexual é explorado a partir dessa perspectiva intimista que exige muita coragem. Já em Do Tamanho de um grão, de N Netta, o tema é o aborto. 

Em entrevista à revista O Odisseu, Netta associa essas novas narrativas de mulheres como um desdobramento dos estudos culturais que nascem na década de 1980, mas reconhece que as histórias das mulheres foram silenciadas. “Quando falamos do nosso sangue o fazemos ao pé do ouvido de outra mulher”, contou. Falar de aborto ainda seguia como um tabu na literatura brasileira, sobretudo dentro de um viés testemunhal. 

Nesse sentido, Netta também destaca o papel das mulheres que vieram antes dela, como Annie Ernaux (autora do livro O Acontecimento [Fósforo, 2022], que também narra um aborto) a quem dedica o livro. Na entrevista que você lê agora, a autora destaca algumas das etapas da escrita do livro e também a busca por sua voz autoral.

“Arte sofre censura e artista é julgado. Se não acontecer isso, não é arte”, diz N. Netta, autora de Do tamanho de um grão

Ewerton: Comecemos pelo começo: Este é seu livro de estreia e eu achei bem ousado. Não só pelo tema, mas pelo uso da linguagem e pela construção da narrativa. O tema, entretanto, é sempre uma questão. Pensando a partir do senso de urgência que seu livro possui, como chegou à decisão de escrever sobre aborto em seu primeiro trabalho?

Netta: Eu sempre escrevi. Mas não me animava a publicar. Cheguei a desistir de ser autora, algo que sempre me perseguiu. Só tomei coragem de fazer o que estava traçado nas linhas da minha mão esquerda quando o tema aborto se apresentou a mim, através do livro O Acontecimento, de Annie Ernaux. 

Me identifiquei não apenas com o tema, mas com a forma como ela escreve: “senti uma vontade violenta de cagar”. O fato de Ernaux ser uma ganhadora do Prêmio Nobel legitimou minha identificação, o que me levou a tomar a decisão de estrear na literatura brasileira criando novos espaços.

Ewerton: Você teve algum medo? Como, por exemplo, se o livro pudesse ser alvo de censura moral ou de ser julgada pelos seus conhecidos ou pessoas do seu entorno?

Netta: Meu trabalho é resultado de muita pesquisa e reflexão. Sou uma mulher madura. Não tive medo algum de publicar o livro e tomara que tudo isso que você ponderou aconteça. Arte sofre censura e artista é julgado. Se não acontecer isso, não é arte: é reforço do status quo, o que não me interessa nessa altura da vida.

Ewerton: Ainda pensando nesta decisão, a protagonista compartilha com você uma série de similaridades: nasceu e mora em Belo Horizonte, estudou na PUC Minas etc. Sem entrar no mérito da autoficção (acho que não faz diferença se é você na história ou não) estou mais curioso em saber como você tem reagido com essas associações. As pessoas querem saber se a história é real, por exemplo?

Netta: A história é real. 

Ewerton: Você dedica o livro à francesa Annie Ernaux, cujo livro O Acontecimento é também a história de um aborto. Gostaria que você falasse um pouco de como a literatura de Annie Ernaux falou com você (a ponto de você dedicar a ela o livro). 

Netta: O livro O Acontecimento tocou o meu coração. Mas não foi apenas o livro.  A fortuna crítica de Ernaux, em especial o trabalho consistente de Isadora Pontes, que traduziu O Acontecimento para o portugues e que apresenta meu livro, contribuiu muito para o meu trabalho. O estudo que fiz da dissertação e da tese de Isadora, cuja orientação foi da professora Eurídice Figueiredo (UFF), guiou a construção do meu livro. Nesse ponto, reforço como é importante o trabalho da teoria literária que acaba alimentando e contribuindo para a formação da própria literatura. Tenho muito respeito pela crítica literária acadêmica brasileira.

“Não estou buscando facilidade ao escrever”, diz N. Netta, autora de Do tamanho de um grão

Ewerton: O livro é construído com uma narração em primeira pessoa, com um tom que remete a uma confissão, como se a narradora estivesse contando um segredo a nós. Como foi para encontrar a voz narrativa no livro?

Netta: Na verdade, no meu livro, eu estou mesmo fazendo uma confissão, contando um segredo. O emprego da primeira pessoa do singular é a voz narrativa esperada para esse tom, no meu entendimento. Até testei o uso da terceira pessoa, seria mais fácil. Mas não, não estou buscando facilidade ao escrever. 

Ewerton: Com Do Tamanho de um Grão, você inaugura um novo momento na literatura brasileira, que é a escrita sobre o aborto de forma tão direta. É o primeiro livro na tradição brasileira que não trata o assunto nas entrelinhas ou como um simples episódio. Me peguei pensando na cena em que a narradora está na biblioteca a procurar livros que falem de aborto e não encontra. Você tem expectativas de que essa escrita estimule novas histórias?

Netta: Durante a criação do livro, acabei me tornando uma pesquisadora da representação do aborto nas artes, em geral, e na literatura, em especial. Apesar de ser uma experiência muito comum entre as mulheres, desde que o mundo é mundo, o aborto é quase nada representado nas artes. Fico muito honrada de inaugurar o tema aborto de forma direta na literatura brasileira. Para a historiografia é algo importante.

Eu tenho expectativas de que meu livro estimule novas histórias, sim. Aliás, isso já está acontecendo. Muitas leitoras me mandam mensagens dizendo que era “a história que elas queriam contar” ou “você escreveu o que tenho vergonha de revelar” e “sua escrita me libertou”. Para minha surpresa, recebi também mensagens de homens. Eles querem contar suas histórias. Um deles me disse: “os homens também abortam, sabia? “. Sim, agora eu sei por que você me contou. 

Ewerton: A literatura brasileira está vivendo um ótimo momento de novas narrativas escritas por mulheres e em torno das plurais vivências femininas, sendo que muitas dessas narrativas enveredam nesse tom confessional e testemunhal que também há em seu livro. Como mulher e como escritora, como você vê o momento atual?

Netta: Acompanho a literatura brasileira contemporânea.

A emergência das vozes literárias de mulheres e a escrita de vivências próprias ao feminino me parece natural se admitirmos que estão sendo construídas, hoje, narrativas como propostas pela crítica literária acadêmica dos anos 1980, refiro-me à vertente dos Estudos Culturais. 

A ideia dos culturalistas era de que viessem a tona narrativas marginais, como é o caso das mulheres, para desestabilizar o cânone, dentro do pensamento de que a expressão escrita da humanidade, a literatura, não poderia ficar restrita às grandes histórias, em geral narradas por homens. 

O tom confessional e testemunhal dessas narrativas de mulheres me parece espelhar nosso jeito natural ou construído de nos expressarmos e até mesmo a natureza do que narramos, geralmente, coisas que não são para serem faladas, que dirá serem escritas. 

A mulher também sangra, como sangram os soldados, só que não sangramos na guerra. Sangramos sozinhas, dentro de quartos, em cima da cama. Mas o nosso sangue não é heróico, não foi narrado na ágora, e quando falamos do nosso sangue  o fazemos ao pé do ouvido de outra mulher.

Agora, tom confessional e testemunhal em literatura, as chamadas “escritas de si”, não é exatamente uma novidade. Tantos escritores e escritoras escreveram assim. Narrar na primeira pessoa do singular é algo que remonta à Rousseau, não entendo porque se tornou voz tão amada e odiada na literatura contemporânea. Ou entendo? 

Ewerton: Por fim, este é um livro de estreia, mas o que você tem pensado para os próximos passos? Será que há novas histórias por aí? 

Netta: Estou com alguns projetos na incubadora. A produção de um livros de fotos com trechos do livro Do tamanho de um grão, uma vez que tenho as fotos que foram tiradas do casarão, onde funcionou a clínica de aborto: um material inédito, um documento importante. Também tenho planos de traduzir meu livro para o francês.  

Quanto a novas histórias, “São belos nas noites de chuva os faróis azuis” é o “título de trabalho” do meu próximo livro, a escrita está em progresso. Uma história de adultério, infidelidade e videotape que não vou demorar a publicar. Adianto um trecho para os leitores e as leitoras de O Odisseu:

Ele passa os olhos pelo meu quarto.

Ficava o tempo todo preocupado com a possibilidade de que eu aparecesse com doença de mulher. Repara o tubo de Albocresil na profusão de objetos em cima da mesinha de cabeceira. Eu estava tratando uma secreção esverdeada de cheiro forte e persistente que tinha começado a pingar de dentro de mim há uns dias.

Z era um nojo com aquele pau dele.

E nem era um pau tão bonito assim.

Quando saia do banheiro, já sem cueca, o pau encolhido entre a pança flácida e os bagos enrugados parecia uma flor culpada com ar de impertinente inocência.

Dava tapinhas para despertá-lo, olhando para os lados, com coisa que aquilo, pau encolhido, não, não era com ele.

Do tamanho de um grão, de N. Netta
Dulcinéia, Grupo Quixote, 2025
120 pp.