‘Escrever sobre o luto foi extremamente terapêutico’, diz Plácido Berci, jornalista e escritor de ‘Louca Normalidade’
Em entrevista para a revista O Odisseu, Plácido conta como o luto em decorrência da perda do seu pai o levou à escrita do romance introspectivo ‘Louca Normalidade’ (Mondru, 2025).
Publicado originalmente em 30 de julho de 2025.
Jornalista esportivo, Plácido Berci é autor do livro “Nuvem de Terra” (Globo Livros, 2018), livro que surge a partir de sua experiência morando em África, mais precisamente no Quênia. Seu rosto e nome vão soar familiares para quem acompanha o noticiário esportivo, espaço no jornalismo que é marcado pela descontração e até mesmo animação, coisas que você não irá encontrar facilmente no segundo livro do autor “Louca Normalidade” (Mondru, 2025).
Com um teor altamente filosófico, por vezes denso, o livro é um mergulho na subjetividade de um jornalista aposentado que se vê perdendo a lucidez e duvidando de tudo o que ocorre ao seu redor. O plot, no caso, serve como porta de entrada para um debate muito maior. Em “Louca Normalidade”, Plácido desenvolve uma narrativa que se aproxima do ensaio filosófico, abordando questões como medo, solidão, loucura e morte. Na conversa que você lê a seguir, o autor fala como o luto do pai foi fator fundamental para que o tema e a voz narrativa do livro se aproximasse. Plácido, que se prepara para uma semana de conversas na Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP, aproveitou para contar das suas referências e do que virá em seus próximos passos na literatura.
‘O meu luto paterno certamente interferiu na densidade filosófica e emocional presente no livro’, diz Plácido Berci, autor de ‘Louca Normalidade’

Ewerton: Em “Louca Normalidade”, você traz uma narração que é marcada pela introspecção, mas não só isso, pelo debate filosófico também. Embora obras como esta possuírem uma tradição na literatura ocidental, no Brasil, pelo menos, desenvolvemos poucos romances filosóficos. De onde veio a inspiração?
Plácido: Creio que o ar filosófico foi resultado dos momentos de vida pelos quais eu estava passando. Comecei a escrever o livro pouco depois de voltar de um período morando no Quênia, numa experiência que já havia me botado para pensar sobre as escolhas dos seres humanos, desigualdade, história recente do mundo, entre outros temas mais densos. Tanto que aquela vivência também rendeu um livro, o Nuvem de terra, publicado em 2018. Na sequência, veio a pandemia, um relacionamento amoroso que terminou de maneira desastrosa e, principalmente, o luto pela morte do meu pai. Em resumo, pensei bastante sobre a vida e seus caminhos nos últimos anos. A terapia rolou solta e consumi muito material em leitura, filmes, séries e músicas que serviram de inspiração para o Louca Normalidade.
Ewerton: Ainda sobre o teor filosófico do seu romance, gostaria que você falasse um pouco das suas inspirações enquanto leitor. Inspirações que reverberam no livro.
Plácido: O autor que mais me inspirou durante esse processo de escrita foi o brasileiro Daniel Galera, em especial com a obra Barba ensopada de sangue, em que a narrativa madura se alia ao tom misterioso de uma investigação. Na maioria de seus livros, o Galera costuma apresentar dilemas masculinos de protagonistas confusos e “quebrados” e vários deles me fizeram companhia desde o início da escrita de Louca Normalidade. A obra Herzog escrita por Saul Bellow, ganhador do prêmio Nobel de Literatura, também me inquietou com a história de um homem já próximo à terceira idade e ainda cheio de dilemas. O livro do Bellow foi um presente do meu pai, para quem a minha nova publicação é amplamente dedicada, o que o torna ainda mais especial. Por fim, sempre curti histórias investigativas de suspenses e mistérios. Foi divertido brincar com elementos desse tipo de escrita que sempre me encantou. O Raphael Montes foi uma baita inspiração na reta final da escrita do meu livro.
Ewerton: Notei que sua escrita parece um pouco desinteressada por uma ideia convencional de um enredo. Seria como se o enredo servisse de plano de fundo para um debate um tanto denso sobre morte, vida e propósito. Esses são temas sempre espinhosos, mas você trata com o cuidado devido. Por que tocar nesses assuntos? Você sente que, atualmente, pensamos pouco neles?
Plácido: O meu luto paterno certamente interferiu na densidade filosófica e emocional presente no livro. Escrever sobre esse tipo de assunto, revisitando momentos e sentimentos ligados à relação pai e filho, foi extremamente terapêutico. Sobre estarmos pensando menos a respeito da morte, acho que a maioria das pessoas tem, teve e sempre terá dificuldade em falar sobre isso de maneira mais profunda.
Ewerton: Enquanto lia, pensava no personagem Raskolnikov, de Dostoiévski em “Crime e Castigo”, muito por essa narrativa psicológica, introspectiva e que envolve também um crime. Gostaria que você falasse um pouco mais do protagonista, Francisco Solano, como ele surgiu para você?
Plácido: Francisco Solano é uma grande homenagem ao meu saudoso pai, Pedro Berci Filho. Diria que o protagonista carrega uns 80% de seu jeito, características comportamentais e manias. Fisicamente, o descrevo exatamente como era meu pai. Em Louca Normalidade, Francisco passa a fazer anotações em blocos de notas por recomendação médica após um derrame sofrido, tal qual fazia meu velho pai também pelo mesmo motivo de saúde. A ideia de escrever meu livro surgiu ao vê-lo rascunhando papéis de maneira metódica e, ao mesmo tempo, caótica. As anotações reuniam observações banais, memórias, poesias, lembretes e frases sem sentido. Adaptei o hábito dele a um contexto ficcional em que o protagonista acorda e não se lembra de uma anotação feita no bloquinho do dia anterior e aí passa a investigar o que aconteceu no hora da misteriosa nota. Foi o pretexto perfeito para viajar pelos dilemas que envolviam a minha figura paterna num livro que reunisse mistério e drama. Mas com o tempo, admiti para mim mesmo que o derrame não era o real motivo para a complexidade do meu pai e, por consequência, de Francisco Solano, e sim a angústia de quem se vê como fora dos padrões sociais por ter problemas psiquiátricos. Aceitar isso trouxe novas camadas à narrativa.
‘Acho que a incerteza do protagonista é também reflexo da minha própria incerteza’, diz Plácido Berci
Ewerton: Como jornalista que também escreve, sei que a escrita de literatura pode ser um desafio para nós que aprendemos uma escrita mais técnica. Como foi para você encontrar o seu próprio estilo de narrativa?
Plácido: Esse é o meu terceiro livro, o primeiro de ficção. Até por ser repórter, possuo uma linguagem mais objetiva, sem tantos floreios. Gosto do texto fácil sem ser raso. Os dois primeiros são relatos de viagens guiados pelo olhar jornalístico e pelas experiências vividas na Inglaterra (no primeiro livro Paixão – uma viagem pelo futebol inglês) e no Quênia (no Nuvem de terra). Neles eu já fui testando algumas coisas, aprimorando outras e expondo mais sentimentos e observações pessoais. Acredito ter sido uma lapidação de estilo, uma evolução literária, que me fez ter vontade de escrever um romance.
Ewerton: O clima de incerteza que permeia o livro, em grande parte por conta do modo como o narrador está sempre incerto, é um super desafio enquanto processo de escrita, sobretudo para um escritor iniciante. Mas você lidou bem! Conte um pouco de como foi criar essa ambiguidade.
Plácido: Esse livro é o projeto mais desafiador da minha vida. Foram sete anos de escrita, cheios de reflexões, aceitações e libertações. Acho que a incerteza do protagonista é também reflexo da minha própria incerteza sobre até que ponto eu deveria expor algumas questões pessoais adaptadas ao contexto ficcional. Gosto muito de obras de suspense psicológico que jogam com a interpretação de quem as consome e foi divertido escrever algo nessa linha. Espero que também divirta os leitores e, principalmente, os faça pensar.
Ewerton: Assim como a morte, a vida e o propósito, outro tema no livro é justamente a velhice, já que o personagem Francisco Solano é um senhor de idade, jornalista aposentado. Ao apresentar o personagem com essas características, você também assume esse debate. Por que falar de envelhecimento?
Plácido: Justamente por ter me inspirado na figura do meu pai para escrever a história. Francisco Solano tem 67 anos, a mesma idade que tinha meu pai quando faleceu. Observar seus últimos anos me fez pensar sobre nossa relação e sobre como ele enxergava a vida. Tenho 35 anos, um pouco mais da metade do que meu pai tinha. Também por isso, foi um enorme desafio tentar enxergar o mundo com seus olhos. Até porque os dele eram claros, flutuando entre o azul e o verde. Já eu não tive tanta sorte e nasci com um par bem menos encantador de olhos castanhos escuros.
Ewerton: Por fim, não dá pra deixar de perguntar: você já pensa em escrever algo novo em ficção após essa sua estreia?
Plácido: Escrever ficção é bem mais difícil do que eu imaginava. Mas é como fazer um gol de falta. Não é fácil marcar um, mas depois do primeiro gol você quer fazer outro. Comecei a rascunhar um drama misterioso que se passa num futuro não tão distante na Amazônia e é narrado por duas vozes femininas. Será uma longa e curiosa viagem.
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Louca Normalidade, de Plácido Berci
Mondru, 2025.
