“O samba e a literatura exercem um importante papel na minha vida”, afirma o escritor Nei Lopes, que participa da FLIP 2025
Nesta entrevista, o escritor se revela cético sobre as possibilidades da arte e da cultura em uma sociedade como a nossa, orientada segundo as lógicas do mercado e da indústria de consumo.
Publicado originalmente em 30 de julho de 2025.
Foto de capa: Claudio Belli/ Valor/ O Globo.
Nascido em Irajá, subúrbio do Rio de Janeiro, Nei Lopes é autor de uma obra vasta. Publicou ensaios, contos, crônicas, poesia, romance e dicionários, além de ser compositor, desde os anos 1970, de diversos sambas marcantes na história da música nacional, especialmente em parceira com Wilson Moreira. Temas relacionados às culturas africanas e brasileiras afrodiaspóricas estão presentes em toda a sua trajetória artística e intelectual, não apenas como assunto de reflexão teórica, mas também como campo de ação política. Afinal, o samba e a literatura de Nei Lopes atuam no sentido de uma conscientização crítica da população negra quanto ao seu lugar na história do país, em seus conflitos e confluências. Ler a obra de Nei Lopes, assim, é também ler o Brasil.
Nesta entrevista, o escritor se revela cético sobre as possibilidades da arte e da cultura em uma sociedade como a nossa, orientada segundo as lógicas do mercado e da indústria de consumo. No entanto, não deixa de ressaltar a importância que essas expressões têm. Por meio da leitura obstinada, em um “eterno trabalho de descobrir coisas”, Nei Lopes expõe seu método criativo e sua concepção de vida, com alguma esperança, talvez, nos que vierem depois. O escritor participa da Festa Literária Internacional de Paraty nesta semana, quando lançará seu novo livro.
“Não tenho muita fé na construção de um futuro ‘possível’”, diz Nei Lopes que lançará livro novo na FLIP 2025

Rodrigo: Nei, assim como você, sou nascido e criado no subúrbio carioca. Venho de uma família de migrantes nordestinos que se espalharam por diversas comunidades no Rio de Janeiro. Lembro vagamente de cenas das sociabilidades das pessoas negras e brancas, nordestinas ou não, naquele ambiente e duas práticas atravessam essas relações: a música e a contação de histórias como guardiães não apenas da memória, mas também da construção de um futuro possível, em que uma vida possa acontecer. Poderia falar um pouco sobre como essas duas artes se aproximam (ou se afastam) dessas noções em sua trajetória?
Nei: Desculpe se decepciono, mas não tenho muita fé na construção de um futuro “possível”. O mundo está em guerra, a intolerância está mandando em tudo, e ninguém, muito menos eu – sabe o que pode acontecer. Música, “contação” de histórias, essas coisas simples, estão hoje nos refrões da sociedade de consumo e das leis do mercado, dos quais nós todos somos dependentes.
Rodrigo: Nesse sentido, o samba e a literatura ainda exercem um papel decisivo nesse crescimento e interesse pelos estudos das culturas afrodiaspóricas?
Nei: O interesse que vejo é sempre passageiro, volátil, volúvel; e, infelizmente, tudo dura muito pouco.
Rodrigo: Você é uma grande referência nos estudos das culturas africanas e brasileiras afrodiaspóricas, temas que atravessam toda a sua obra artística e intelectual. Como você vê o desenvolvimento desse campo na atualidade e o interesse, cada vez mais crescente, por essa temática?
Nei: Eu, sinceramente, nunca me vi, nem me vejo como referência. Tudo que eu faço é para ter onde me segurar, fazendo do que gosto; que raramente são essas que a “globalização”, mentirosa, impõe a todos, da criança ao velho; esse american way of life que nos empurra a língua do colonizador goela abaixo. Aí, até nossas conquistas enquanto afrodescendentes às vezes acabam virando “palhaçada”. Na música profissional comecei, com o parceiro Reginaldo Bessa, escrevendo soul music. E logo depois, com o saudoso Wilson Moreira, tentei mostrar a riqueza da música afro-brasileira “de raiz”, com jongos, calangos etc. Mas as gravadoras nos fecharam as portas. Então criamos um repertório de sambas mais ou menos óbvios; e assim nos tornamos conhecidos.
“Não sou um ‘acadêmico”, diz Nei Lopes
Rodrigo: Apesar dos muitos avanços políticos e sociais no país, temos testemunhado hoje retrocessos com a ascensão de um fundamentalismo religioso e de discursos supremacistas, tendo representantes em diversas instituições, do parlamento às escolas da educação básica. Em seu último livro, o romance A última volta do Rio, você passa por essas questões, além do problema da violência urbana. Qual seria o papel do artista e do intelectual diante desse quadro?
Nei: O samba e a literatura exercem um importante papel na minha vida. Mas, aos 83 anos de idade, o que mais posso fazer é deixar para os que vierem depois de mim o legado do meu nome. Mas “permanência” nos tempos em que vivemos, é quase impossível. A “politica” não permite. E quando falo “política” estou me referindo a dinheiro, interesses pessoais (mesmo escusos) que chegam até a criminalidade; ou já nascem dentro dela.
Rodrigo: Você recebeu diversas honrarias de algumas das nossas principais instituições de ensino superior, como a UFRGS, a UFRJ, a UFRRJ e a Uerj. A universidade brasileira, embora tenha se tornado mais inclusiva com as políticas de ação afirmativa e outras tantas medidas de incentivo à permanência estudantil, parece ainda ser um espaço muito desigual. Como a sua obra dialoga com essas questões, considerando sua ótima circulação no ambiente acadêmico?
Nei: “Pra finalizar, resumindo esta história” quero explicar que sou um mero “bacharel em Direito” (tanto que estou lançando agora na FLIP, um Dicionário de Direitos Humanos e afins). Não sou um “acadêmico”, como se diz por aí. Nada disso! O que eu faço é ler, ler, ler, num eterno trabalho de descobrir coisas que os bancos escolares, inclusive o da Universidade, não me ensinaram. Assim, vou mostrando para os meus pósteros, minha concepção de Vida. Para que eles, filhos e netos, não se tornem assim amargos como me sinto agora.
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