Ensaio

No palco das letras, o copeiro poeta

Quem lê os romances, os diários, as sátiras, os contos, as dramaturgias de Lima Barreto, a partir não de um ponto de vista eurocêntrico, mas de forma ética, reconhece suas escolhas estéticas.


Entre tantos debates recentes da crítica do campo literário como um todo, encontro, em uma pequena cena da peça “Casa de poetas”, uma síntese de autoria do romancista, dramaturgo, jornalista e crítico Lima Barreto. Publicado em 1911, o texto parece retratar, de forma concisa, um tenso debate envolvendo forma e conteúdo, autoria e obra, entre a literatura militante e a parnasiana.

Em uma casa de classe média, após o juíz Clarimundo perguntar ao copeiro Luís se este viu o poema publicado na Gazeta daquela manhã, Luís afirma que, por se tratar de versos parnasianos, não gosta. “Paternalmente”, Clarimundo responde: “Como se fosses capaz de fazer melhor!”.

Para a surpresa de Clarimundo, Luís se afirma poeta. E começa a declamar seu poema, cujas imagens remetem ao seu trabalho braçal. Reproduzo trecho da cena:

Luís (recitando) O barulho dos pratos.
Clarimundo (esperando) Como é?
Luís (com confiança) O barulho dos pratos.
Clarimundo (bondoso) Continua. É inspiração do ofício. Continua.
Luís (recitando) Na pia os pratos fazem tec-tec, Ao encontro dos garfos e das facas.
Clarinda (voltando-se) Deixe o rapaz… A poesia perde todos… Vamos, Luís, continua.
Luís (que até então ficara aterrado, continua) É a sina da gente…
Clarinda (interrompendo, sem sair da janela) Vá, Luís, deixa isso para mais tarde. Vá tratar de pôr a mesa.

As imediatas reações ao texto de Luís evidenciam uma estrutura material, patriarcal e colonial, determinando se Luís pode falar, o que pode falar e como pode falar. Leia-se aqui: o que pode escrever e como pode escrever sua literatura. Trata-se de uma estrutura de poder. Clarimundo parece espantado com a audácia daquele que, aos seus olhos, não tem outra utilidade a não ser servi-lo. 

Ora, como pode uma mera mercadoria fazer poesia? – parece sugerir o juiz: Poeta? “Como se fosses capaz de …” Ser? 

Se a linguagem é própria dos Humanos – em um sentido fanoniano e dos estudos raciais-, como poderia a Literatura, cuja beleza estética é resultante de árduo trabalho com a linguagem, ser expressa por um Luís? Além de ousar escrever, ainda fala! Ou seria o inverso? Além de falar – sem máscara alguma -, ainda escreve? Literatura? Ousa versar sobre os pratos, de sua vida – aparentemente – banal. E que importa sua vida para a Literatura?

A crítica literária tradicional na manutenção de seu posto de Narciso, cujo rosto lhe reflete o signo da beleza, não admite a possibilidade de haver beleza nos braços que lavam os pratos de Clarimundo.

Possivelmente Clarimundo em 1960 compraria Quarto de Despejo, certamente espantado pelo subtítulo “Diário de uma ex-favelada”. Poucos anos após, não leria Casa de Alvenaria, e não consideraria qualquer possibilidade de Carolina ter escrito poemas e provérbios. Ele está desde aquela década falando “paternalmente” sobre Carolina Maria de Jesus e não concebendo seu livro de estreia enquanto um texto literário. Evidentemente que, nesta fala paterna, está a violência da modernidade contra vidas negras.

Não é novidade que Carolina Maria e Lima Barreto, como tantos outros escritores, foram encaixotados no rótulo reducionista de texto biográfico. A crítica literária tradicional na manutenção de seu posto de Narciso, cujo rosto lhe reflete o signo da beleza, não admite a possibilidade de haver beleza nos braços que lavam os pratos de Clarimundo. 

Ora, poderia haver alguma beleza nas vidas não brancas? 

É evidente que a indignação não é contra a forma literária usada por Luís somente. É por sua vida presente no verso. O crítico literário Luís Maurício de Azevedo escreve em Afromarxismo – fragmentos de uma teoria literária prática (2022) que

Os livros de Barreto são manipulações estéticas habilidosas de uma realidade material profundamente dolorosa, na qual as subjetividades foram esmagadas no limite do desaparecimento. Contudo, muito se fala do conteúdo biográfico dele justamente para não ter que se falar do conteúdo biográfico. Não se quer falar do alcoolismo. Não se quer falar da pobreza. Não se quer falar do estigma da doença mental. Não se quer falar da desvalorização da arte negra. E a melhor forma de se fazer isso é falar do alcoolismo dele, da pobreza dele, das limitações de alcance editorial de sua obra. Barreto é o maior bode expiatório de nossa literatura. É com ele que começa nosso vício de confundir as mazelas com o mazelado para que possamos nos sentir imunes a todas elas. (Azevedo, 2022, p. 85-86)

Quem lê os romances, os diários, as sátiras, os contos, as dramaturgias de Lima Barreto, a partir não de um ponto de vista eurocêntrico, mas de forma ética, reconhece suas escolhas estéticas que em nada devem às Literaturas lidas como mais criativas, complexas e eruditas ao longo da história da crítica literária. O fato é que Narciso não admite que os versos sobre os pratos revelem suas sujeiras, a podridão produzida pelo capital.  

A sujeira não para em Clarimundo. Nas universidades, no mercado literário, nas livrarias, nas feiras literárias, nos debates literários, Clarimundo está acompanhado de Clarinda. A personagem barretiana tem 18 anos, no entanto, chama Luís de “rapaz”, apesar deste ter 30 anos. Seu ato não infantiliza somente no vocativo usado. Infantiliza ao autorizar e recusar a possibilidade de fala do poeta. É Clarinda quem demonstra maior interesse pela poesia dele, mas não demora muito para ela afirmar, decretar e delimitar qual é o seu lugar, o seu lugar de negro (Gonzalez; Hasenbalg, 1982). Clarinda não vê Luís além de sua propriedade. É esta a relação estabelecida. 

Não tendo os versos de Luís produzido nenhum gozo branco, Clarinda não vê motivo para a continuidade da exposição – dita – literária. Em uma linha de crítica tradicional, Clarinda não concebe a possibilidade de chamar de Literatura textos não fundamentados em seu próprio espelho, na matriz greco-romana, francesa – ou de outros países centrais da Europa. 

Direi mais uma vez algo óbvio. Em um país fundado na escravidão, complexo e vasto, diverso étnica, linguística, cultural e esteticamente, é muito limitante uma só concepção literária ou mesmo duas formações de literaturas brasileiras. Temos epistemologias, estéticas, cosmovisões e princípios éticos oriundos de bantos, iorubás, das diferentes culturas originárias, dos terreiros, dos territórios periféricos e suburbanos, etc. De maneira que, a literatura feita no Brasil – seja em sua forma escrita, seja em sua forma oralizada – não é homogênea.

Lima Barreto dizia isto de outra maneira. Dizia não admitir só haver a literatura do sertão e a literatura das meninas de Botafogo, uma literatura que se “desfaça em ternuras por Mme Y” a condenar da criada que lhe furtou alfinetes (Barreto, 2017, p.83-84). Lima Barreto ainda afirma além disso, não compreender que a literatura “consista no culto ao dicionário; (…) que ela me exclua dos seus personagens nobres ou não, e só trate de Coelho Neto; não posso compreender que seja caminho para se arranjar empregos rendosos ou lugares na representação nacional (…).” (Barreto, 2017, p.83-84) 

A branquitude, no campo literário, sempre rotulou os Outros do Ocidente, e no ato de nomear, cerceia, marginaliza, mantém o pacto do seleto grupo em seus lugares de privilégio, como também teme a perda deste poder simbólico.

Sua crítica ao Coelho Neto, inclui sua concepção de língua literária, literatura, temas e personagens ficcionalizados, e como todo este campo da linguagem pode ser usado como instrumento em jogos de poder, discursivos e materiais, isto é, pelo pacto da branquitude (Bento, 2022).

Nos debates literários recentes, nada ou raramente falam em raça quando criticam sobre o quanto são engajadas certas obras literárias. Nada ou raramente falam em raça quando criticam memórias de vidas não brancas ficcionalizadas. Curioso é que, ainda que Lima não racializasse diretamente a chamada literatura contemplativa com saudade de seus alfinetes, o debate que promovia em defesa da literatura militante parece ainda encontrar seus detratores nos dias de hoje, ainda que considerando as particularidades dos distintos tempos históricos.  

A branquitude, no campo literário, sempre rotulou os Outros do Ocidente, e no ato de nomear, cerceia, marginaliza, mantém o pacto do seleto grupo em seus lugares de privilégio, como também teme a perda deste poder simbólico. Isto é, a manutenção do protagonismo nas listas de livros mais vendidos, o reconhecimento do público-leitor, a boa recepção da crítica, todo capital simbólico do meio social literário, e a garantia de seu lugar universal no palco do que chamamos de Literatura.  

Ora, esta concepção de Literatura e sua função, repleta da brancura da qual fala Frantz Fanon, mobiliza ainda. No entanto, não mais é possível chamá-la de superior e universal. Ela é identitária, branca e perpassa a história da literatura brasileira escrita.

Apesar disso, as literaturas ditas menores, cujas línguas e estéticas romperam com a brancura – em uma perspectiva fanoniana-, simplesmente são o que são: complexas; belas; diversas e singulares.

Ensaio publicado no n29 da revista O Odisseu, “A crítica literária hoje”, já disponível para os assinantes da revista e em breve disponível gratuitamente no site.