
Talvez o poema seja o mundo sem nós no mundo: primeira coletânea de Mary Oliver é publicada no Brasil
A experiência da poesia de Mary Oliver é imbricada de uma relação algo poliédrica junto à natureza, em que o mundo de fora invade o mundo de dentro da casa.
Foto: Rachel Giese Brown (Reprodução).
Mary Oliver aponta insistentemente para um pássaro e, minuto a minuto, repete que aquela imagem, aquela existência, se trata de um milagre. E quem não enxerga esse milagre ainda não se atentou ao cerne de todas as coisas: “O mundo é isto e é o ofício do mundo”. O milagre fortuito na repetição (como todos os poemas sobre tordos, cães, o seu convívio e suas lições tiradas do rato almiscarado, os besouros cavoucando a terra, os sabiás e os morcegos, a injunção que há nas palavras perseguindo o real), são o tema principal desta poesia reunida da poeta americana, sua primeira coletânea lançada no Brasil, em tradução da poeta portuguesa Patrícia Lino.
A experiência da poesia de Mary Oliver é imbricada de uma relação algo poliédrica junto à natureza, em que o mundo de fora invade o mundo de dentro da casa, de onde o gesto metalinguístico de escrever sobre o que se quer escrever assume, poema a poema, uma constituição política de mundo – uma busca pelo retrato ou captura de um mundo mineral, molecular, em assunção. Essa aventura dentro do mundo natural é apenas uma das superfícies rugosas que o ambiente criado por Oliver apresenta: aqui, há uma extensa inspeção em torno do mistério da linguagem, como criar modos de estruturar mundos.
Pequenas Glórias, o volume em questão, lançado no Brasil em abril de 2026 pela Círculo de Poemas, é uma reunião de poemas que inclui a produção significativa da poeta entre 2000 e 2002 (incluindo poemas em prosa), e um conjunto de ensaios de 2004, em que o mapa de autores em diálogo com a obra de Oliver se estabelece. A poeta, nascida em Maple Heights, Ohio, em 1935, e falecida em Hobe Sound, Flórida, em 2019, pode ser lida aqui em excertos de sua maturidade, no domínio dos temas e tendências de sua obra, e em consonância com os autores que admira, com os modos de vida que a interessam, com o cultivo de um método e de uma visão de mundo. .
No prefácio que antecede seus ensaios – preparações ou pausas para os seus poemas, em construção a cada frase, a cada pensamento, mesmo que não em verso -, a poeta diz que “a voz do poema é a voz da solidão” e que é “uma voz de carne e osso, que desliza, salta sobre a margem para um rio qualquer que se cruze, e pousa depois, com lâminas afiadas, no mais ínfimo pedacinho de gelo”. Essa voz encarnada, que salta sobre o rio e, na terra firme, repousa com lâminas afiadas, para partir, dividir, desbravar ou ameaçar as coisas ao redor, ou para espelhar as coisas em sua superfície lisa, se espalha como as heras; na poesia de Mary Oliver, coisa e estado de coisa são a mesma aparência. No poema Trabalho, lemos: “Sou uma mulher de sessenta anos e a coragem não é um dos meus / maiores atributos. / Converso todos os dias com Deus ou com um dos seus enviados: aquele / pinheiro alto ou um grilo-nadador-de-chão”.
“Na poesia de Mary Oliver, coisa e estado de coisa são a mesma aparência” – Pedro Lucas Bezerra
O arco dessa poesia está circunscrito entre a dissolução interna da angústia e a pluralidade da natureza: os animais, as plantas, os pequenos gestos e acontecimentos às raias do prosaico, cuja conclusão é denotativa. No mesmo poema, Oliver filosofa sobre a palavra ser “a sofisticação da carne / a resposta aos milhares de episódios curvilíneos — a gente vai levando como pode… — a ternura eletrizante das palavras que descem do cérebro para sair pela boca”, e dirige seu olhar para sua cachorra, Luke (e os cães são frequentes na vida da poeta, com quem divide diversas fotografias): “E hoje Luke é nada / à exceção das manhãs / em que agarro as palavras e as jogo no ar / só para que Luke saia disparada das trevas, / como aqui e agora / — o mundo é isto”.
As experiências no mundo aqui são aquelas conduzidas pelo acaso, pelo silêncio que aborda um gesto indeciso do lado de fora, na quietude ou na abertura total para o mistério. Como? “Acordei e sentei-me como sempre à minha mesa. / Mas é primavera, / e há um melro no bosque algures entre os ramos sinuosos. E canta. / É por isso que paro agora junto à porta. / É também por isso que desço agora até a grama”. O que acontece à poeta é perceber que “Talvez o poema seja o mundo sem nós no mundo”, e a experiência da poesia é também a experiência de apagar-se e dar lugar à coisa impetuosa, sem desvios, em que o encontro dos acontecimentos no mundo é também aquele que o poema não captura, mas reprograma, dentro da angústia, afinal, de reproduzi-lo.
A tradução da poeta portuguesa Patrícia Lino preserva o que há de mais Adélia Prado em Mary Oliver (fica a dica dessa ponte possível), e nos aproxima de uma poeta cuja intimidade está circunscrita aos territórios compartilhados com os outros animais, com as plantas, com as beiras de praia. Às vezes, esbarramos numa baliza lusitana (um silbadora, em tradução para whistler, que nos pareceria mais plausível se fosse assobiadora, por exemplo), mas nada que evite ou dificulte a passagem pela poesia de Oliver. No início do livro, Lino diz em nota que: “onde foi necessário e não, fez magia”. As peônias, asmadressilvas e os todos concordam.
No ensaio sobre Ralph Waldo Emerson, em que recorda a vida desse teólogo e filósofo americano tocado pela melancolia, Oliver diz que ele “oferece sugestões com gentileza; abre portas e nos diz para olharmos sozinhos as coisas”. Esse interesse pela obra de um ensaísta que busca no olhar a chave para a essência da vida indica um caminho possível para estética da própria poeta: conservar olho aberto, ouvidos em comunhão com tudo. Ouvir e não indagar, e seguir os primeiros sonhos da humanidade, passear com a alegria dos cachorros. Ser, afinal, uma “infinitude”, como Oliver quis.


