Entrevistas

Clarisse Escorel: “Tive a coragem de escrever sobre o amor”

Em entrevista para a revista O Odisseu, Clarisse Escorel conta como escrever seu romance “O amor na sala escura” foi um ímpeto de coragem romântica. 

Foto: Divulgação.


Confessei a Clarisse Escorel, quando a encontrei para esta entrevista na Livraria Janela, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro: “tive um pouco de medo quando comecei a ler o livro e vi que era um romance”. Nós rimos e ela entendeu. Apesar do amor romântico ser tema de inúmeras histórias canônicas, o desgaste do tema em obras superficiais ou puramente piegas tem feito com que algumas pessoas se afastem das histórias de amor. Sobre isso, Clarisse disse “Eu acho uma pena, pois todos nós temos uma história de amor para contar”. Ela está certa e eu estava errado. “O amor na sala escura”, seu primeiro romance que acabou de sair pela Bazar do Tempo não tem nada de piegas, embora seja um daqueles romanções dignos de novela das oito. O livro nos apresenta a história de um casal jovem que, entre encontros e desencontros, vivem um fervor incontornável. É de ler desejando se apaixonar. 

Como a própria Clarisse explica, “O amor na sala escura” fala sobre o absurdo que é viver uma história de amor. Sobre a sorte de encontrar alguém que seja capaz de despertar um sentimento tão forte e tão arrebatador que não será esquecido nem mesmo se acabar. Em entrevista, ela diz “Se sofrer for o preço a ser pago por viver uma história de amor como essa, eu pagaria”, e com isso se torna a maior defensora de nós, os emocionados. 

Neste seu primeiro romance, a autora narra em primeira pessoa um amor que resiste a morrer. As rupturas, quase que cíclicas, parecem tensionar ainda mais os sentimentos de dois jovens que se encontram na cidade do Rio de Janeiro na década de 1990. Para dar os contornos de intensidade necessários, Clarisse aposta em cenas oníricas, descrições minuciosas dos sentimentos e referências a várias outras histórias de amor que vão de clássicos do cinema à literatura. Na entrevista que você confere agora, ela nos conta que esse seu maior ato de coragem, evidenciando também que ainda resta um preconceito quanto ao tema, especialmente por aqueles que desejam falar da “Grande Literatura”. 

Confira o papo!

Clarisse Escorel, autora de “O amor na sala escura” (Divulgação).

“Eu não consegui conter o meu impulso para a escrita”, diz Clarisse Escorel sobre a escrita de “O amor na sala escura”

Ewerton: Gostaria de começar com esta afirmação: “O amor na sala escura” é um livro sobre amor. Como você recebe isso?

Clarisse: Sim, é um livro sobre amor. Eu tive essa coragem. Eu ouvi isso de mais de uma pessoa e de pessoas que eu respeito muito. E eu já sabia disso, já sabia o que eu estava escrevendo. E sabia também que isso poderia não dar certo. Ao mesmo tempo, eu não podia deixar de escrever esta história. Tem uma coisa que minha mãe me diz até hoje: seja fiel a você. Acho que esse é um segredo, uma lição para a vida. Tem um momento da vida que a gente começa a gostar de ser a gente, entende? A gente fica confortável na nossa pele. E eu durante muito tempo reprimi esse desejo de escrever essa história, demorei a me permitir escrevê-la. Mas chegou um momento em que eu entendi que eu queria escrevê-la neste momento e que eu queria estrear no romance com essa história. É claro que é um processo… e que eu não decidi isso de um dia para o outro. Por outro lado, eu recebi apoio de pessoas importantes para mim. Por exemplo, eu ouvi isso de Assis Brasil. Eu escrevi um conto uma vez e ele me disse “olha, isso aqui é o seu romance”, e eu entendi que eu estava como se comendo pelas beiradas e que eu estava escrevendo contos me aproximando dessa história.

Naquele momento eu não me permitia escrever um romance, eu entendia que não estava na hora. Mas quando eu ouvi do Assis e depois ouvi a mesma coisa de uma amiga escritora em quem eu confio muito, eu tomei a coragem de respirar fundo e mergulhar. Então, respondendo a você, sim, é uma história de amor. E eu estou muito feliz com a recepção que o livro está tendo. 

Ewerton: O tema te assustava?

Clarisse: Eu ficava preocupada com o que os outros iriam pensar. Eu amo histórias de amor. Sempre li, procurei na literatura e nos filmes, e eu tinha uma experiência com o tema, uma experiência não necessariamente minha, mas a partir de histórias de amor que estavam à minha volta e que me inspiravam muito, seja para o bem ou para o mal. Como o próprio Assis Brasil diz, o amor é um tema universal e eu acho que, no fundo, interessa a todos. E que por algum motivo, a minha impressão era de que talvez, fosse um tema que estivesse fora de moda, ou melhor, que fosse um tema que talvez não estivesse em voga. Ainda assim, eu não consegui conter o meu impulso para a escrita. O meu impulso para a literatura é uma coisa irracional, eu preciso sentar para escrever. Claro que às vezes a gente precisa escrever sobre algum tema, como os jornalistas fazem. Mas o impulso para a literatura é diferente e me encanta. É uma coisa que me leva às vezes para a dança. Eu dancei por muito tempo e na adolescência quis ser bailarina, algo que eu nunca seria porque eu não tinha o talento necessário, mas eu dancei por anos e era também uma coisa que me movia, me mobilizava e me emocionava. Então escrever, para mim, é como dançar. 

Ewerton: Você falou uma coisa que eu também sinto, que hoje em dia parece que escrever sobre o amor, e especialmente o amor romântico, está um tanto fora de moda. Há, inclusive, quem diga que isso não pertence à “Grande Literatura” com L maiúsculo, o que é um pouco estranho porque quando olhamos para os clássicos, reconhecemos diversas histórias de amor. Dito isso, quero te provocar: escrever sobre amor hoje em dia é mais desafiador?

Clarisse: Acho que sim. Não deveria ser, mas acho que sim. E esse foi um desafio que eu enfrentei. Eu tinha muito medo de cair numa coisa sentimental, piegas, numa coisa água com açúcar. Eu queria que fosse engraçado dentro de uma tragicidade, ou que trouxesse um desencontro, ou tristeza. Acredito que o grande desafio é escrever sobre o amor de uma forma original, não apenas trazendo histórias novas, mas estruturas novas. Acontece que estamos em um momento de muita patrulha.

Ewerton: Sobre a escrita ou em geral?

Clarisse: Sobre a escrita, especificamente. Quais os temas sobre os quais podem ser escritos hoje? E quem pode escrever sobre esses temas, a quem interessa esses temas? Quais temas podem interessar aos jornais ou às revistas? 

Ewerton: Isso resultou numa censura interna?

Clarisse: Acho que é uma censura social e que chega nos autores. Os temas dito importantes parecem ser o que se espera. E como isso chega no autor? Talvez como uma censura ou um desestímulo. Não digo que isso aconteceu comigo, mas acho que poderia acontecer. Não é um livro que fala sobre guerra, né? É um livro sobre amor. Ao mesmo tempo, se nós perguntarmos para todas as pessoas que estão aqui nesta livraria, elas diriam que têm alguma história de amor, seja um amor bem sucedido ou não. Então é uma certa contradição não querer falar de amor. Nós gostamos disso! Nós gostamos de histórias de amor e está tudo bem.

Clarisse Escorel: “Acho que tem total diferença quando é uma mulher que escreve sobre o amor”

Ewerton: De certa forma também, há a implicação de gênero aí, correto? Quer dizer, escrever sobre amor sendo uma mulher, com uma narradora mulher, também é diferente. Porque os homens estão aí sempre escrevendo sobre o amor, mas eles têm uma recepção diferente, ao menos ao meu ver. Quando um homem escreve sempre acaba sendo como um “tema universal”, independente de qualquer coisa.

Clarisse: Sim. E, de fato, é um livro narrado por uma mulher, então ele parte de uma perspectiva específica. Outro dia me fizeram uma pergunta sobre a narração, provocando que uma narração em primeira pessoa não é confiável. Essa narradora, que no fim do livro descobrimos que se chama Catarina, tem uma perspectiva. Se eu fosse narrar a partir da perspectiva do Daniel, seria outro livro. Bom, eu já escrevi e fiz alguns exercícios de escrita em terceira pessoa e até tenho contos em terceira pessoa que eu pretendo publicar em breve. Até me divirto escrevendo em terceira pessoa, mas preferi em primeira. De algum modo, as pessoas têm certa dificuldade de entender que não necessariamente sou eu, Clarisse, narrando. Há essa confusão e tudo bem. Quando eu quis, lá atrás, escrever essa história seriamente e profissionalmente, como sempre quis fazer em minha vida, virei essa chave. Essas coisas pararam de me perturbar. 

Ewerton: O que as pessoas iriam pensar?

Clarisse Escorel, autora de “O amor na sala escura” (Divulgação).

Clarisse: Isso! Estou tranquila, estou bem na minha pele. Tive essa conversa com meu marido que não é uma pessoa das artes e com quem tenho uma relação maravilhosa há 20 anos. Falei a ele que queria escrever e que estava fazendo isso de modo sério. Fiz um pacto com ele, a partir dessa amizade de confiança profunda, que eu não gostaria que a cada coisa que eu escrevesse ele perguntasse “mas isso sou eu?”. Volta e meia ele me provoca dizendo: “mas eu não sou assim!”, quando lê os meus textos. E eu digo: “exatamente, não é você”. Claro, é uma história que tem várias referências à minha vida, mas não sou eu. Talvez eu tenha desviado da sua pergunta, então quero retomar: sim, acho que tem total diferença quando é uma mulher que escreve sobre o amor, assim como a narração de uma mulher sobre o amor. Mas essa história precisava ser assim.

Ewerton: Gostaria de falar do título. 

Clarisse: Por favor. 

Ewerton: Como ele surge?

Clarisse: Você vai gostar dessa história! Até quinze dias antes, o livro não tinha esse título. Ele se chamava “Sudoeste”, uma referência ao vento que aqui no Rio de Janeiro é muito característico. Quando vem o vento sudoeste, ele traz mau tempo. E é como se essa cidade solar, de muita praia, fosse abalada. Cresci com as pessoas dizendo isso: “o sudoeste veio ou vem aí”. É como uma mudança no tempo, nas marés, uma coisa violenta. E esse vento aparece no livro. Há muito a presença da brisa, do vento, então eu cheguei no título um pouco por aí. Mas quando eu entreguei o livro a Ciça [Ana Cecilia Impellizieri Martins, editora da Bazar do Tempo], ela me chamou e disse: “Olha, Garcia Roza já tem um livro chamado ‘Vento Sudoeste’, o que não seria necessariamente um problema, já que o livro é antigo, mas você tem certeza do título?”. Eu gostava do título, mas confesso que não estava de joelhos por ele. Aí um dia, quando eu estava fazendo a revisão, olhando cada vírgula, veio o título. Eu me lembro exatamente do momento. Eu tinha acordado cedo, estava sentada em frente ao computador, às sete da manhã, olhando pela janela. De manhã, a vista da minha janela é muito bonita. Vi a luz entrando aos pouquinhos. Eu revisava o livro e passei pelo trecho, que é logo no início, quando eles se conhecem em um festival de cinema que se chama, justamente, “O amor na sala escura”. Como eu não tinha visto isso?! Como eu tinha deixado passar?! Na mesma da hora eu mandei para Ciça que também adorou. O título faz sentido porque “O amor na sala escura” fala de um amor de cinema, um amor idealizado, sabe? Também evoca a um amor em um lugar de sombras, um lugar difícil, ou um esconderijo.Depois, me analisando sobre como deixei o título passar, percebi que eu tinha muito medo com relação ao livro, mas é essa coisa, sabe? Está com medo, mas vai com medo mesmo. 

Ewerton: Há algo no seu livro que me chamou atenção e que agora, você mencionando tanto o título “Sudoeste”, como esse mau tempo, ou até mesmo “O amor na sala escura” como algo mais sombrio, que é o fato de que esse é um livro trágico. Há muita tragicidade nele e referências ao trágico. É um livro passado por uma dor muito forte, por um incômodo. Porque também é um amor “castrado”, interrompido. Fale um pouco sobre isso.

Clarisse: Tenho dito que ninguém nos prepara para lidar com a morte. Quando a gente vive a primeira morte, é uma coisa muito radical. Semelhantemente, ninguém nos prepara para lidar com o amor e com a violência que o amor pode ter. Eu sempre fiquei intrigada com como nós podemos ter encontros tão poderosos e tão disruptivos e aquilo não se realizar plenamente. Na minha visão, quando o amor acontece, é um milagre, porque é muito difícil acontecer. E acho que todos nós estamos em busca disso, em busca dessa experiência. Claro, há pessoas que se protegem demais, mas ainda acho que essa é uma experiência que todos nós desejamos. Então eu acho que um amor assim é muito difícil de acontecer e quando acontece, é algo muito poderoso, é algo único, é como a passagem do Cometa Halley. Voltando à sua pergunta, quando eu comecei a escrever o livro, eu comecei a sofrer como a Catarina. Isso logo no início, depois passou. Eu comecei a me perguntar: “será que é demais? será que eu estou exagerando nessa reação, nesse amor?”. Mas tem vezes que o amor é assim. Eu fiquei preocupada com a coisa da verossimilhança, até que eu li, recentemente, o livro da Ingrid Fagundez [Diário do Fim do Amor, editora Fósforo, 2025], como quem vou ter uma mesa n’A Feira do Livro. Quando li o livro, disse: “aqui está a prova!”, de fato o amor pode ser dramático, trágico. 

Ewerton: Tem uma questão também, que é como as novas gerações enxergam o amor. 

Clarisse: Muito! Sinto que hoje em dia é quase se a gente não pudesse sofrer por amor, como se fosse feio ser vulnerável. Eu tenho uma filha adolescente, de 16 anos, e volta e meia ela me fala: “Mãe, você é muito emocionada”. Acho que é uma coisa da geração. 

Ewerton: Acho que é em “Orgulho e Preconceito” que Jane Austen escreve que a todos é reservado um momento de sofrer por amor. 

Clarisse: Eu adoro esse livro!

Ewerton: Pensando a partir disso, sofrer por amor também é uma sorte?

O amor na sala escura, de Clarisse Escorel/ Bazar do Tempo, 2026/ 186 pp.

Clarisse: Sofrer por amor não é fácil. Bom, pensando a situação do livro, eu acho que sim. Acho que tem amores pelos quais vale a pena sofrer. Às vezes esse é o preço que se paga por ter uma história memorável. Com isso não digo que sofrer por amor é bom, mas que é legítimo. Se esse for o preço para viver uma história memorável, eu pagaria. E a verdade é que ninguém sai ileso de um grande amor. 

Ewerton: Para a gente terminar, quero te contar uma história. Tenho um amigo que está muito apaixonado por outro rapaz. Mas ele está com muito medo de se entregar e sofrer por amor novamente, porque ele está muito machucado de relações anteriores. O que você diria para ele?

Clarisse: Eu diria que eu entendo a opção desse seu amigo. Mas que às vezes a gente tem que se abrir pra esse amor transbordante. Vou te contar uma história. Quando eu reencontrei meu marido, antes da gente começar a namorar, fomos a um primeiro encontro. Quando eu o vi entrando, eu tive vontade de sair correndo. Eu entrei em pânico pensando “eu vou me apaixonar por ele e vou sofrer tudo novamente, tudo o que eu já sofri na vida!”.  Ele entrou, e nós estávamos com um casal de amigos e eu fiquei insuportável porque eu queria que ele não gostasse de mim. Nós estávamos em um bar com esse casal de amigos, lá em 2003, até que essa minha amiga falou: “Vamos para o ensaio do Monobloco!” e eu falei “vamos!”. Chegando lá, nos perdemos os quatro e na época minha irmã tocava percussão. Eu fui lá pra frente dançar. Nem liguei que a gente se perdeu. Quando deu o intervalo, eu fui tomar alguma coisa e cruzei com ele. Ele estava muito chateado que eu não estava nem aí para ele. Ele falou “acho que vou embora” e eu disse “ok”. Depois disso ele me ligou e eu não atendia. Eu deixei ele ligar dez vezes. Eu virei uma megera, mas porque eu estava me protegendo. Eu sabia que no momento em que eu abrisse a guarda, eu não iria resistir. Mas eu só posso dizer “que bom que eu abaixei a guarda”. Diga isso ao seu amigo: às vezes é bom baixar a guarda.