
Francisco Mallmann: “Nossas experiências dissidentes não podem ser pensadas apenas a partir de referências do norte global”
Em entrevista à revista O Odisseu, Francisco Mallmann fala como a leitura foi fundamental para sua formação subjetiva e artística e, ao mesmo tempo, propõe uma reflexão crítica sobre o conceito de “literatura LGBTQIA+”.
Foto: Luana Navarro.
Francisco Mallmann é artista, professor e pesquisador interdisciplinar. Sua trajetória na literatura perpassa temas como dissidência de gênero, memória, corpo, cidade e América Latina. Autor dos livros Haverá festa com o que restar (Urutau, 2018), com o qual conquistou o Prêmio Biblioteca Nacional na categoria Poesia, Língua pele áspera (7Letras 2019), América (Urutau, 2020) e Tudo o que leva consigo um nome (José Olympio, 2021).
Em entrevista para O Odisseu, Francisco Mallmann relembra o impacto que teve ao conhecer, ainda no ensino médio, a literatura de Caio Fernando Abreu, especialmente o livro Morangos mofados. O autor fala sobre como a leitura foi fundamental para sua formação subjetiva e artística e, ao mesmo tempo, propõe uma reflexão crítica sobre o conceito de “literatura LGBTQIA+”.
Ao longo da conversa, Mallmann comenta sua experiência com editoras independentes e a posterior publicação por uma editora de maior alcance, destacando a importância política do trabalho independente na circulação da poesia contemporânea e recorda o período em que precisava sustentar pessoalmente a circulação de seus livros. Segundo ele, essa prática ajudou a construir uma compreensão da literatura como presença, algo que continua tentando preservar mesmo após alcançar uma distribuição mais ampla.
A entrevista aborda ainda o papel da literatura como campo de disputa e a importância da América Latina em sua obra. Francisco também adianta alguns de seus projetos futuros, entre eles, uma prosa poética sobre cidade e especulação imobiliária e um livro híbrido entre poesia e ensaio sobre a performance de raça e gênero.

Francisco Mallmann: “Fui me formulando junto à literatura, junto com a poesia. Fui entendendo quem eu era, quem eu poderia ser, quem eu queria ser”
Kaio: Quando foi seu primeiro contato com a literatura LGBTQIA+?
Francisco: Lembro de um acontecimento muito marcante. Foi durante o ensino médio, na biblioteca do colégio onde eu estudava: o encontro com os livros de Caio Fernando Abreu. Foi muito importante. Tudo mudou. Se abriram muitas coisas: reconhecimento, desejo, possibilidade. Foi com Morangos Mofados. O conto Aqueles dois ficou profundamente marcado em mim. A história de Raul e Saul. Nunca mais esqueci. Depois disso, o mundo ficou mais vasto.
Fui me formulando junto à literatura, junto com a poesia. Fui entendendo quem eu era, quem eu poderia ser, quem eu queria ser. Me deu vida. Me senti vivo. Às vezes retorno à literatura de Caio Fernando Abreu para me lembrar de mim.
Mas não foi propriamente aí que entendi que estava entrando em contato com “a literatura LGBTQIA+”. Isso veio mais tarde, quando compreendi as dimensões políticas e estéticas dessa nomeação.
Quando entendi tanto a importância quanto as armadilhas da identidade. Sobre como é fundamental nos nomearmos em uma paisagem hostil às nossas presenças e narrativas, mas também sobre como a normatividade se conforta quando suas margens estão devidamente classificadas.
Como se, por fazer “literatura LGBTQIA+”, não pudéssemos disputar outros lugares. Como se nossos trabalhos fossem confinados a uma espécie de prateleira identitária. E me chama atenção que ainda naturalizemos categorias como “literatura LGBTQIA+”, mas raramente coloquemos em operação marcadores como “literatura heterossexual” ou “literatura cisgênero”, capazes de fazer tremer essas pretensas neutralidades.
As dissidências sexuais e de gênero são muito vastas. Nossas criações também. Me pergunto, com muita sinceridade, sobre nossas estratégias, como artistas, para (des)nomearmos a nós mesmas e aquilo que fazemos.
Kaio: Haverá festa com o que restar, Língua pele áspera e América foram publicados por editoras independentes. Como foi essa experiência?
Francisco: Há uma dimensão política muito forte na publicação por editoras independentes, especialmente aquelas dedicadas à poesia. Me sinto parte de uma geração que pôde experienciar a publicação de seus trabalhos graças a um movimento de pequenas editoras que se contrapôs às lógicas muitas vezes elitistas das grandes casas editoriais. Isso foi decisivo para mim.
Ter uma interlocução, um espaço de publicação, vivenciar concretamente a possibilidade de ter o trabalho no mundo. Aprendi muitas coisas sobre poesia nesse percurso. Eu mesmo fazia os livros circularem. Foi um momento em que meu trabalho dependia muito do meu corpo presente, algo que nem sempre é óbvio na literatura.
Eu levava meus livros comigo, enviava os livros pelos correios, organizava leituras, encontros, conversas. Eu tinha de estar para que o livro estivesse. Sem esse trabalho árduo de me fazer presente, de sustentar a circulação com o próprio corpo, não haveria distribuição. Isso produziu uma relação muito concreta e muito afetiva com as leitoras e leitores. Acho que aprendi ali que literatura também é presença.
Kaio: Depois, Tudo o que leva consigo um nome foi publicado por uma editora de escalas maiores. Como foi essa transição?
Francisco: Talvez a coisa que eu mais tenha sentido tenha sido justamente a questão da distribuição. Depois de publicar em editoras pequenas, foi muito expressivo, para mim, encontrar o livro em livrarias de diferentes cidades do país. Ter uma sistematização dos direitos autorais, uma profissionalização mais ampla do trabalho de escritor.
E, claro, isso altera também o alcance do trabalho. As pessoas encontram o livro em livrarias físicas, em lojas virtuais, há um trabalho de comunicação, de circulação em eventos literários, de interlocução editorial mais ampla. No meu caso, houve também mais pessoas trabalhando diretamente no livro, pensando junto a edição, a materialidade, a circulação.
Ao mesmo tempo, tento preservar algo que vem do circuito independente e que é muito precioso para mim: a compreensão da literatura como relação. Como encontro. Acho importante não perder essa dimensão mais artesanal, mais vulnerável, mais próxima do corpo e das pessoas.
Kaio: Escrever literatura queer é também uma forma de ativismo?
Francisco: É na literatura queer que encontro, muitas vezes, as propostas de mundo que mais me interessam. Acho que há uma imaginação política muito afiada sendo operada na literatura de pessoas queer. A “multidão queer”, de quem fala Paul B. Preciado, para mim, é uma multidão que escreve, antes de tudo. Que faz poesia, com ou sem palavras.
São trabalhos que deslocam as noções normativas de corpo, relação, desejo, cidade, família, futuro. Que inventam outras formas de existência possíveis. E isso me interessa profundamente.
Hoje, penso que tudo aquilo que alarga as estreitas dimensões de vida produzidas pelo neoliberalismo e o faz de maneira propositiva já é, de algum modo, uma forma de ativismo. Como uma prática de imaginação, de invenção de linguagem.
A literatura queer, para mim, não está apenas denunciando violências. Ela também está produzindo mundo. Produzindo possibilidade.
Kaio: Qual é a importância de falar sobre a América Latina na sua poesia?
Francisco: O que chamamos de América Latina aparece no meu trabalho não apenas como território geográfico, mas como campo de disputa estética, histórica e afetiva. Existe uma violência constitutiva nas formações latino-americanas: colonização, escravidão, apagamentos, ditaduras, desigualdades profundas. Mas existe também uma potência imensa de invenção, sobrevivência e criação.
Quando escrevi América, por exemplo, havia um desejo muito forte de encarar essas feridas e as violências dirigidas aos corpos dissidentes. Mas também de pensar como seguimos criando, apesar de – evocando o prefácio de Não vão nos matar agora, de Jota Mombaça, quando ela escreve a “Carta às que vivem e vibram apesar do Brasil”. Como seguimos produzindo linguagem, festa, desejo, imaginação.
Tenho muito interesse em pensar a América Latina como uma espécie de território em trânsito, instável, contraditório, atravessado por muitas línguas, muitos corpos, muitas temporalidades. Acho que minha poesia tenta operar dentro dessas fricções.
E existe ainda algo muito importante para mim: compreender que nossas experiências dissidentes não podem ser pensadas apenas a partir de referências do norte global. Há produções “latino-americanas” profundamente radicais, sofisticadas e potentes, que inventam modos próprios de pensar gênero, violência, memória, corpo e comunidade. Isso, para mim, é muito importante.
Kaio: Tem algum projeto literário por vir?
Francisco: Desde que Tudo o que leva consigo um nome foi publicado, trabalhei em alguns projetos de mais fôlego. Desenvolvi uma tese em Estudos da Performance, processo que me tomou muitos anos e exigiu uma dedicação de escrita quase exclusiva. Também publiquei, no ano passado, outra vez de novo, um livro com três dramaturgias e desenvolvi outros trabalhos dramatúrgicos nesse período, processos bastante intensos, porque envolvem ensaio, criação coletiva e pesquisa continuada.
Tenho trabalhado há alguns anos em dois projetos que acredito serem dois livros, não tenho bem certeza. Um deles é uma prosa poética atravessada por relações entre cidade, especulação imobiliária e dissidências de gênero. O outro é uma espécie de poesia-ensaio sobre arte da performance, atravessada por questões raciais e de gênero.
São projetos que vêm sendo escritos lentamente. Tenho aprendido a respeitar o tempo das coisas. Talvez porque alguns trabalhos precisem amadurecer junto com a própria vida.

