Artes Plásticas

Bienal de Veneza: 2026 e ainda é preciso falar do óbvio sobre a arte?

Nos pavilhões da Bienal, Israel, Rússia e China entram na discussão contemporânea. Mas é o Brasil, outra vez, que aponta: a arte nunca foi e nunca será imparcial.

Por Samuel Macedo.

Foto: Vicente de Mello/ Instituto Guimarães Rosa (Divulgação).


Comigo ninguém pode é o título da exposição do Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza de 2026, sob curadoria de Diane Lima, que já havia participado da curadoria revolucionária da penúltima Bienal de São Paulo, Coreografias do Infinito, ao lado de Grada Kilomba, Hélio Menezes e Manuel Borja-Villel. A presença de Diane, mulher negra baiana, marca um momento histórico para a arte contemporânea brasileira: pela primeira vez, a Bienal de Veneza terá uma curadora mulher à frente do pavilhão do Brasil. 

Ela escolheu duas grandes artistas brasileiras para representar o país: Adriana Varejão e Rosana Paulino. O título da mostra faz referência direta a uma obra de Paulino, Comigo ninguém pode. Ambas consolidaram trajetórias potentes, com exposições em diferentes cidades, incluindo Salvador, nos principais espaços como o Museu de Arte Contemporânea da Bahia, o Museu de Arte da Bahia e o Museu de Arte Moderna da Bahia. 

Nos últimos dez anos, o campo da arte no Brasil passou por transformações profundas, que impactam diretamente nossa relação com o país e suas múltiplas influências raciais e culturais. São marcas deixadas pelos povos da diáspora africana, pelos indígenas que sempre habitaram este território e pelos ibéricos, eles próprios miscigenados, mas enquadrados em hierarquias raciais e eugenistas que moldaram a história.

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Obras ‘Crisálida’ (no exterior) e ‘Tecelãs’, no interior. De Rosana Paulino. Foto de Vicente de Mello/ Instituto Guimarães Rosa (Divulgação).

Nesse contexto, enquanto muitos ainda se voltam para pensadores eurocentrados como Freud, preso a delírios datados que reduzem tudo ao viés masculino e europeu, Rosana Paulino oferece um contraponto vigoroso. Sua obra pensa os delírios da colonialidade, fabula novas narrativas e cria forças de ensinamento que partem do próprio Brasil. Como afirmou em entrevista à Pinacoteca do Ceará, em outubro de 2025, esse Brasil herdado tem muito a nos ensinar. 

Falar do óbvio nunca é simples. A arte, afinal, jamais foi imparcial. Nenhuma linguagem — cinema, música, artes plásticas ou visuais — nasce neutra. Toda criação carrega escolhas, intenções, disputas. Pensadores da imagem e da história da arte vêm se debruçando sobre isso há anos, especialmente em torno das obras repatriadas que ainda ocupam os grandes museus europeus. Françoise Vergès (2023), inspirada nas inquietações de Frantz Fanon, lembra que é preciso desordenar o mundo para poder reordená-lo. Essa desordem atravessa também o planeta em transformação, com paisagens devastadas pelo aquecimento global, pela destruição da natureza e pela urgência de repensar nossa relação com a terra. A arte contemporânea surge como plataforma privilegiada para reunir essas questões e propor novos olhares. Ela desafia a narrativa linear e eurocêntrica que organiza a história da arte, dos homens das cavernas até o presente, e abre espaço para outras vozes e memórias. 

“Hoje, artistas indígenas, negros, periféricos e de diferentes territórios do Brasil protagonizam um efervescente boom criativo.”

A Bienal de Veneza é palco de disputas intensas. Desde a última edição, mas agora com mais vigor, ativismos têm questionado a presença de países em conflito, como Israel, Rússia, China e também os Estados Unidos. O Brasil aparece como um fôlego nesse cenário, mesmo carregando as dores da colonialidade. Rosana Paulino expõe o corpo da mulher negra como território de memória e resistência. Adriana Varejão revisita a consciência histórica e a criação, dialogando inclusive com os debates sobre inteligência artificial e seu impacto nos processos artísticos. 

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Obra Monocromo maragogipinho, de Adriana Varejão. Foto: Vicente de Mello/ Instituto Guimarães Rosa (Divulgação).

Hoje, artistas indígenas, negros, periféricos e de diferentes territórios do Brasil protagonizam um efervescente boom criativo. Suas obras funcionam como quimeras, misturando elementos, textos, subtextos e materiais para inventar novas estéticas ou, ao contrário, se apropriando das formas clássicas para reinventá-las. Enegrecem peles, redesenham paisagens, reconstroem memórias. 

Nas minhas últimas disciplinas como docente substituto no Bacharelado Interdisciplinar em Artes da UFBA, em Salvador, voltamos sempre ao mesmo ponto: como a colonialidade, a fantasmagoria e a realidade continuam a nos assombrar. Rosana Paulino, para mim, é a grande artista contemporânea do Brasil. Sua trajetória é marcada por uma arte que tensiona ciência e discursos oficiais, mas que se articula a partir da fábula. 

A fábula, em sua obra, distorce o corpo e nos transmuta para a realidade: somos um país de maioria negra que ainda não sabe interpretar suas próprias imagens. Na era da inteligência artificial, temos Rosana com sua arte processual, feita de mãos que enxergam o que nossos olhos ainda não compreendem totalmente: as feridas coloniais que insistimos em negar. Como ela mesma disse em entrevista à Pinacoteca do Ceará, o Brasil joga fora, todos os dias, aquilo que tem de mais potente a oferecer ao mundo. 

Nesse sentido, Diane Lima reforça o que sabemos, seja de forma objetiva ou intuitiva: o Brasil é terra indígena e afrodiaspórica, conduzida por um império colonial português que, em sua história, também foi mouro. Essa complexidade nos marca. Herdamos esse destino. E, como em uma nau, somos novamente conduzidos por um oceano de disputas: estéticas, analíticas, políticas. Um povo que, muitas vezes, antipatiza com o conhecimento, mas que carrega na natureza e na herança cultural uma força que se converte em aparências e narrativas visuais, já sistematizadas por espaços como o Louvre. 

Nossa arte é pista e testemunho. História visual. Somos um povo que compulsoriamente retorna a essa ferida. Nos pavilhões da Bienal, Israel, Rússia e China entram na discussão contemporânea. Mas é o Brasil, outra vez, que aponta: a arte nunca foi e nunca será imparcial. Nos principais museus de Salvador — MAM, MAB, MUNCAB, MAC — vemos suas sombras e rastros. 

Estivemos atentos? O norte global, esse consenso geográfico, nos empurra para a questão central: é preciso rever a terra. O que corpos negros, indígenas, femininos e periféricos nos apontam? Não será a nossa arte, na Bienal de Veneza e além dela, que indicará perspectivas contrárias, não dominadas e potencialmente bússolas para o futuro?


Pesquisador em Audiovisual, Imagem e Arte Contemporânea. Doutor em Comunicação, Linha 01 – Fotografia e Audiovisual, pelo PPGCOM da Universidade Federal do Ceará (UFC). Integra o Laboratório de Estudos e Experimentações em Artes e Audiovisual (LEEA/UFC). Atualmente, é professor substituto no Bacharelado Interdisciplinar em Artes do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (IHAC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA).