Entrevistas

Marcos J. Custódio: ‘A boa ficção é um importante instrumento de deslocamento de certezas’

Em entrevista à revista O Odisseu, Marcos J. Custódio conta como a exploração do trabalho e a fantasia da ascensão social inspirou seu primeiro romance ‘Os Teus Olhos Estarão Sobre mim’

Fotos: Divulgação.


Como a ficção tem elaborado as problemáticas sociais contemporâneas, sobretudo as que envolvem a precarização do trabalho e o acúmulo de riquezas? Como você deve saber, esses são dois tópicos importantes para compreender os nossos tempos, principalmente em um Brasil tão desigual e que ainda reverbera o passado colonialista. Foram justamente esses temas que influenciaram o escritor Marcos J. Custódio a escrever a ficção perturbadora “Os teus olhos estarão sobre mim”. 

O livro conta a história de uma mulher, a Luísa, que, para se ver livre da pobreza e da vida nas ruas, aceita viver como o cachorro de uma família rica. Na conversa com Custódio, contei que, à primeira vista, fiquei com a sensação de que a história era um absurdo, um absurdo irresistível, mas um absurdo. Mas logo depois, percebi o quanto a nossa realidade de classe trabalhadora brasileira está submersa em um absurdismo.  Em resposta a essa provocação, Custódio responde:
A literatura é uma forma de arte capaz de tirar as pessoas do automatismo.  Nesse sentido, eu me lembro do que Franz Kafka (um dos meus autores  preferidos) escreveu em uma de suas cartas: “Um livro deve ser como um  machado que quebra o mar de gelo dentro de nós”. Acho que usar do ‘absurdo’  em uma narrativa sacode o leitor, fazendo-o enxergar a realidade sobre uma  nova perspectiva. Depois do estranhamento inicial, do “isso é impossível”,  quem se deixa envolver pela história vai descobrindo, ou relembrando, que a  realidade pode ser mais absurda do que a ficção.  – Marcos J. Custódio em entrevista à revista O Odisseu.

Marcos J. Custódio, autor de Os teus olhos estarão sobre mim. Foto: Divulgação.

Viver como bicho… mas como bicho já não vivia?

De fato, já a partir da sinopse, Custódio desenvolve uma atmosfera kafkiana que é incômoda já de primeira. A proposta nos apresenta uma contradição deste momento: como nós, enquanto sociedade, permitimos que seres humanos vivam de maneira tão sofrida ao passo que alguns animais recebem os maiores luxos? Isso também coloca em perspectiva o valor da vida, seja ela animal ou humana. A partir desse enredo, me peguei questionando várias coisas como, por exemplo, será que a vida humana vale mais (ou menos) que a vida animal? Seria mais indigno viver nas ruas sem amparo algum ou viver se “rebaixando” à ser um animal? De todo modo, o que está em questão continua sendo o sofrimento humano diante de um capitalismo cada vez mais indiferente. Para Custódio, essa é uma questão sobre o que chamamos de “desumanização”. 

A expressão “humano animalizado” tem, em geral, uma conotação negativa, e  pode significar que o indivíduo perdeu parte de sua identidade humana, por  isso é tratado/visto como um animal, ou menos que um. Apesar do nosso  fetiche pela distinção, por acreditarmos ser a espécie superior, é um fato que  nossa relação com os animais é mais complexa.

Trouxemos algumas espécies,  como gatos e cachorros, para tão próximo do nosso convívio que a expressão  “animalizado” pode ganhar outros matizes. O livro propõe ao leitor uma  pergunta dura: e se um ser humano fosse tratado como um animal, mas não  qualquer animal, como um cachorro, ou melhor, um cachorro de família rica?  Pense na experiência de alguém que não tem nada, que vive nas ruas,  desprovido de afeto e de conforto material, ‘invisível’, animalizado. E se, a essa  pessoa, fosse apresentada a oportunidade de ser o pet de alguém, recebendo  comida, bebida, carinho? Viver como bicho… mas como bicho já não vivia? – Marcos J. Custódio em entrevista à revista O Odisseu. 

Retomando o exemplo de Kafka, Custódio pensa, como acontece em ‘A Metamorfose’, que a questão da dignidade (ou ausência dela) do ser humano no contexto capitalista é sempre secundária quando em relação ao “bem maior”, o capital. “Em ‘A metamorfose’, um  homem acorda transformado em um inseto, e vai descobrindo que, apesar de  ter dedicado sua vida para sustentar a família, agora não tem mais valor. Eu,  fazendo coro a outros leitores dessa obra, me perguntei: por que tem que ser assim?”. Nesse sentido, o autor acredita que a literatura continua a ser esse instrumento capaz de incomodar de maneira produtiva, isto é, incomodar a ponto de provocar uma reflexão ou, quem sabe, uma mudança.

Às vezes, existe a sensação de que o mundo, por ter sido entregue  com esses contornos conhecidos, está pronto e acabado; foi o que foi, é o que  é, e assim sempre será. Mas a boa ficção é, dentre outras coisas, um  importante instrumento de reflexão, de deslocamento de convicções, de  questionamentos que podem se transformar em movimento, em ação, a nível  individual ou coletivo. É também um exercício de alteridade e de humanização.  Eu aposto na ficção, assim como Sin-léqi-unními o fez na Mesopotâmia do  século XIII a.C., ao compilar os feitos de Gilgámesh. Apostamos porque a  literatura é uma invenção humana, feita de palavras humanas, e, por isso, deve  nos lembrar de que somos humanos, ou melhor, do porquê somos humanos,  irmanados nessa longa tradição. – Marcos J. Custódio em entrevista à revista O Odisseu. 

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Os teus olhos estarão sobre mim, de Marcos J. Custódio/ Mondru, 2024/ 104 pp.