Entrevistas

Richard Plácido: “O insólito faz parte do nosso dia a dia”

Em entrevista à revista O Odisseu, Richard Plácido conta sobre as suas referências na escrita do experimental “Iberê a cavalo”.

Foto: Jadir Pereira (@jadirp).


Richard Plácido, autor alagoano que se divide entre a poesia e a prosa, lançou no ano passado o seu primeiro livro de contos pela editora Loitxa Lab. O livro, que tem apresentação de Julia Raiz e orelha de Carol Rodrigues, nos apresenta 23 contos nada convencionais. A prosa de Plácido, experimental e densa, conduz o leitor por um frenesi narrativo, em que vozes, personagens e cenários se repetem em diferentes faces. Desapegado de qualquer roteiro pré-definido do que é um conto, o autor cria a sua própria teoria da narrativa breve com um livro desafiador. 

Em entrevista para a revista O Odisseu, Plácido contou que o seu interesse sempre foi o de chocar e impactar o leitor, possibilitando que a dor dos personagens seja sentida de forma visceral por quem o lê. O livro, que apareceu entre a lista de melhores livros de ficção de 2025 pela revista O Odisseu, é apontado como uma coleção de contos de horror por Raiz na apresentação. Mas aqui, esse horror não se apresenta na forma de acontecimentos necessariamente sobrenaturais: as violências dos interiores das casas, os traumas de infância e o conflito familiar surgem como elementos aterrorizantes. Para o autor, isso é apenas uma prova de que o insólito está por todo lado. 

“Minhas referências de horror não vinham exatamente dos livros de ficção, mas vinham da vida comum”, diz Richard Plácido em entrevista à revista O Odisseu

Ewerton: “A memória é uma ilha de edição”, frase de Waly Salomão, abre o livro. Durante a leitura, a predominância da primeira pessoa sugere um livro autobiográfico. O que você tem a dizer sobre isso?

Richard: Para mim, toda e qualquer produção literária, mesmo aquela que pense o futuro distópico ou o passado reinventado, toda ela parte de um lugar de memória, não exatamente da vida de quem está escrevendo. Hoje há uma discussão repetida sobre o lugar da literatura autobiográfica e da escrita do eu, como se fosse um traço específico do contemporâneo. Se Caetés fosse escrito hoje, talvez perguntariam a Graciliano Ramos se João Valério foi inspirado na vida dele, se na juventude ele também foi guarda-livros e se apaixonou pela esposa do patrão. Talvez tudo isso tenha acontecido com ele ou com outra pessoa; talvez tenha sido fruto de sua imaginação e observação, mas, no fim das contas, a memória editada, escrita e revisada fez nascer João Valério. É por meio do olhar e da memória de Graciliano que as ruas de Palmeira dos Índios foram tomando forma naquele romance. Utilizo-me desse verso do Waly Salomão justamente para embaralhar mais as coisas nesse entremeio de ficção, autoficção e autobiografia. Uso nomes reais em histórias fictícias e nomes fictícios em situações reais. Há muita mentira também, muitas histórias contadas e recontadas por minha mãe e pelos vizinhos. A memória é, de fato, uma ilha de edição.

Ewerton: O livro é apresentado como um livro de contos, mas é preciso falar desse atravessamento lírico que conduz toda a prosa. O poético é apresentado de forma muito viva. Como foi para você manter a poesia na prosa?

Richard: Fui me formando como poeta ao mesmo tempo em que me formava como escritor de prosa. Na época em que publiquei meu primeiro livro de poemas, Entre ratos e outras máquinas orgânicas, eu fazia o Laboratório Sesc de Narrativas com o Nilton Resende. Na academia, meu objeto de estudo é quase sempre o conto, pois o conto é o gênero literário que mais gosto de ler. A questão é que meus primeiros contos eram ruins, eram engessados, e eu não conseguia encontrar um modo narrativo que me trouxesse liberdade. Exercitei diversas formas de escrever e busquei referências, mas muitas dessas referências estavam justamente na poesia. Foi aí que passei a entender o conto como uma unidade intensa, sempre em crise, se esticando. O poema também é esse lugar e sinto que lidar com a memória é, também, lidar com a fragmentação, com as elipses. Consegui, acredito, unir todos esses interesses e passei a desenvolver melhor os meus textos, menos como uma regra e mais como um experimento de escrita.

Ewerton: Na apresentação de Júlia Raiz, ela menciona que você faz uma literatura de horror. De fato, o livro tem imagens muito assombrosas, mas, para você, foi intencional escrever um livro que flerte com esse gênero?

Richard: Fiquei bastante surpreso (e feliz) com a leitura dela, porque nunca pensei que meus textos flertassem com o gênero. Tenho um querido amigo que ama o gótico e fala muito sobre o assunto. Acho interessantíssimo, mas nunca foi minha leitura predileta nem uma referência direta para mim. Mas, depois que recebi o texto, comecei a pensar sobre isso e percebi que minhas referências de horror não vinham exatamente dos livros de ficção, mas vinham da vida comum. Aqui em Alagoas, principalmente no interior, lidamos cotidianamente com lendas e causos, com nossos mais velhos contando as histórias do fogo-corredor, da comadre florzinha, da rasga-mortalha. Estamos acostumados, hoje um pouco menos, a participar de velórios onde o caixão era colocado no meio da sala e a gente, criança, ficava fitando o morto. Tenho a recordação do meu bisavô piscando o olho para mim no seu próprio velório. Ele morava na ladeira da Catedral de Palmeira dos Índios. Lembro que, sempre que passava uma coruja em cima da casa enquanto ele estava enfermo, com aquelas poucas luzes amarelas e o corredor imenso com muitos santos e rosas em copos de vidro, minha mãe, minhas tias e minhas avós diziam “a rasga-mortalha tá rasgando de novo em cima da casa, seu Jacintho vai morrer”. O insólito faz parte do nosso dia a dia. Vou perguntar ao meu amigo Ringo Star se essa história soaria gótica para ele.

Ewerton: O ritmo galopante da prosa, muitas vezes livre de pontuação, nos conduz a uma leitura intensa. É um livro que foge à convenção do que seria um conto, sem obedecer a essas ideias pré-estabelecidas desse formato. Como foi encontrar essa liberdade dentro do conto para escrever o livro?

Richard: Tomei coragem de me expor. Acho que na poesia as pessoas se sentem mais livres para arriscar, talvez porque existam mais referências, talvez porque existam poetas concretistas, modernos e contemporâneos, ou talvez seja apenas mais fácil se esconder entre os versos. Na prosa, o desafio foi aliar tudo o que envolve um conto, como diálogos, personagens e espaços, e ainda assim quebrar com as convenções. Não é exatamente uma inovação, até porque o conto nos dá essas possibilidades de invenção, mas é um exercício de coragem que fui conquistando aos poucos. Eu queria causar um impacto, queria tirar o leitor do prumo, queria causar sensações estranhas e confusas. Minha intenção sempre foi que o leitor sentisse a ansiedade aflorada das personagens, que o leitor sentisse os cheiros, os nojos, os sentimentos bons e os sentimentos ruins. Eu queria, em suma, que o leitor sentisse na pele o que aquelas personagens sentem.

Richard Plácido: “eu escrevo com a intenção de causar sensações consideradas ruins porque viver é experimentar a crueza da realidade vivida”

Ewerton: Abuso, brigas familiares e traumas infantis são abordados de uma maneira muito crua no livro. Toda essa violência nos é apresentada sem eufemismo ou suavização, o que pode deixar alguns textos “chocantes”. Enquanto autor, mas também enquanto um estudioso da literatura, como você entende esse espanto e esse “choque” na literatura? Qual a função que ele exerce?

Richard: Queria muito lembrar onde foi que vi o termo “a literatura como espanto”, mas realmente não me recordo. Fiz uma pesquisa rápida e encontrei uma entrevista da Noemi Jaffe onde ela diz que a literatura parte do espanto e provoca o espanto, mas não é capaz de mudar o mundo. Realmente o que muda o mundo é a política, a guerra e a ganância, mas a literatura nos dá espelhos, e aí como estamos olhando para esses espelhos? O que encontramos nesses espelhos? Da minha parte, eu escrevo com a intenção de causar sensações consideradas ruins porque viver é experimentar a crueza da realidade vivida, e a literatura faz parte da minha vida. Se o choque aparece, é porque ele já estava lá, no que é vivido; a literatura apenas se recusa a desviar o olhar.

Ewerton: Ainda sobre essa escolha do espanto, tenho notado o mesmo caminho em autores recentes que não se identificam, puramente, com os brutalistas brasileiros (como Fonseca ou Aquino), mas estão se alinhando muito mais ao insólito latino-americano que busca encontrar, nesses tensionamentos, uma voz autoral latina. O que você acha dessa provocação? Concorda?

Richard: Eu acho que essa questão da latinidade brasileira é bem complexa, porque ainda nos baseamos muito na cultura estadunidense e europeia, mas acho que estamos num momento um pouco diferente de antes. Tenho sempre receio de achar que as coisas estão se construindo agora, como se o antes fosse todo apagado e tudo fosse refeito, quando na verdade a história é esse acúmulo, mas vejo que há algo de diferente há alguns anos: vozes dissidentes estão se relacionando entre si, compondo esse Brasil, ou recompondo. Temos uma literatura indígena em vez de uma literatura indigenista, uma literatura negra feita por pessoas negras, com suas realidades diversas e modos de escrita diversos, e um diálogo maior com nossos vizinhos hermanos, mantendo a continuidade nas leituras de grandes referências como Cortázar, Borges e Pizarnik, por exemplo. Mas também estamos num processo de diálogo com a literatura caribenha. A gente tem dialogado, tem lido e tem entendido que estamos muito mais próximos de uma literatura haitiana, de uma literatura caribenha, do que exatamente de uma literatura estadunidense. País sem chapéu, do escritor haitiano Dany Laferrière, publicado pela Editora 34, tem sido muito lido. Temos lido também nossos irmãos e irmãs africanos, como Paulina Chiziane, Ondjaki e Mohamed Mbougar Sarr. Este último, com A mais recôndita memória dos homens, me ajuda nessa reflexão. Um escritor senegalês que vive e publica na França, que se inspira em Roberto Bolaño no título do livro e que se passa em três continentes. Toda essa mistura é muito própria da literatura contemporânea.

Ewerton: Em continuidade, quais são os autores que te inspiram?

Richard: A narradora que mais me inspira hoje é a minha mãe. Ela não é escritora, não publica livros, mas as histórias que ela conta, as experiências da sua vida, o modo como ela percebe o mundo e como ela organiza as palavras quando estamos conversando, é uma estética que entendo como minha, uma espécie de herança. Essa narradora aparece em Iberê a cavalo e também no texto que ando escrevendo agora. No entanto, existem três escritores que não saem do meu olhar; estou sempre com os livros deles em mãos e, embora percorra outras leituras, é para eles que sempre retorno. Não porque eu escreva próximo a eles, mas talvez porque eu escreva distante deles, buscando indiretamente algo que me tire da zona de conforto. Na verdade, não há muita explicação, é que a literatura de Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto e Drummond me balança até hoje. Inclusive, enquanto respondo a esta entrevista, minha mãe me manda uma mensagem dizendo “estou aqui tirando a identidade do seu pai, a de morto”. Meu pai morreu faz muito tempo e ela está resolvendo algo, atualizando as documentações, mas veja só como ela me traz essa história. É, sem dúvidas, um belo microconto. É essa a estética que me atravessa.

Ewerton: Depois de um primeiro livro de contos, o que podemos esperar daqui pra frente? Um romance, talvez?

Richard: Desde 2021 estou com a ideia de escrever um romance, não pelo motivo que sempre colocam à mesa, de que o conto é considerado um gênero menor ou porque as pessoas leem mais romance. Meu motivo é mais simples: quero seguir na ilha de edição, quero seguir testando e exercitando. No conto encontrei alguns modos de escrita e fiquei refletindo se no romance eu conseguiria manter a intensidade que há neles, especialmente porque muita gente comenta que os textos do Iberê a cavalo são minicontos ou até mesmo poemas. O que ocorre é que esse projeto do romance ia de mal a pior justamente porque o Iberê ainda estava grudado em mim. No entanto, logo que terminei o livro e publicamos pela Loitxa Lab, o meu caderno, no qual escrevo tudo à mão, finalmente começou a ser preenchido. Tenho algumas pretensões e estou nessa investigação agora, a do romance com a corda esticada, unindo essa experiência que tenho na escrita de poesia e do conto. Como lidar com o texto esticado, em plena crise, mas com núcleos múltiplos de personagens, com outros espaços e tempos, tudo que é característico do gênero romance, mas, ao mesmo tempo, tentar escapar disso? É pelo processo de experimentação, e estou curtindo muito fazer isso. Há uma coincidência estranha, porque estou muito fissurado na leitura de Jon Fosse e do László Krasznahorkai. Nesse momento estou lendo e assistindo, bem aos poucos, ao Sátántangó. Leio um capítulo, assisto a uma parte. Acabei de ler É a Ales e Érika Santos me deu de presente de natal a Heptalogia. Ao mesmo tempo que isso está me ajudando, também está me atrapalhando. Estou no processo de investigação, mas sem muita pressa, até porque tenho uma tese para escrever e não é sobre escritores do Leste Europeu.

Iberê a cavalo, de Richard Plácido/ Loitxa Lab, 2025/ 128 pp.