
Opiniães
O que João Guimarães Rosa fez na literatura foi apenas dar dignidade a esse movimento que nós fazemos todos os dias.
Foto: Reprodução.
Me ganhou fácil. Logo na primeira página. “Pãos ou pães é questão de opiniães”.
Maravilhoso, não é? Vou repetir, “pãos ou pães é questão de opiniães”.
Eu sempre imaginei como deve ser difícil traduzir textos brasileiros. A língua portuguesa por si só já é uma língua difícil, mas o brasileiro… ah, o brasileiro é outra história. Brasileiro é vivo, muda todo dia, se expande, cresce, fica cada dia mais com a cara do povo que fala. E eu te pergunto, qual é a cara do brasileiro? Bom, pãos ou pães é questão de opiniões.
Se dentro de uma única cidade pessoas de grupos diferentes, bairros diferentes, classes diferentes já passam por alguns problemas de tradução de um lado para o outro de uma ponte, eu imagino o coitado do tradutor que se desafia a pegar um livro nosso. Mas aquele que tenta traduzir Guimarães Rosa… ah. Esse daí é guerreiro. Não tem como. Por mais que tente, por mais que até consiga, a língua é nossa, a brincadeira é nossa, a piada é nossa e o entendimento é completamente nosso.
Não é incrível isso, leitor? Ter algo tão intrinsecamente nosso que por mais que tentem ninguém de fora nunca vai conseguir entender completamente e nem sentir esse calorzinho no peito que a gente sente. A língua nunca pertenceu a nada e nem a ninguém que não nós, povo falante. Não é o que dizem? “Deixa disso, camarada. Me dá um cigarro?” Pouco importa que o modo correto seja “se fosse sólido, comê-lo-ia”: o correto mesmo é como eu e você falamos na vida real. “Vou amassar esse negócio aqui. Bom demais!” (e por vezes, a inclusão do “cê é louco” no final. (Que inclusive é escrito como loko (ou então, slk))).
Acho fantástico. Como eu amo a nossa língua brasileira. Seja no sertão ou na cidade, a língua vem desde a primeira saliva com a mesma malandragem que o brasileiro tem. Ela se estica, se dobra, cria palavras novas, reaproveita antigas. Ali a língua brasileira se mistura com ecos indígenas, africanos, regionais. No meio do caminho tropeça no sotaque dos imigrantes, no canto de uma região para a outra. E ainda tem preso no asfalto o “bah” que, Meu Senhor… como traduzir o “bah”? Quem dera eu ter nascido sulista para usar o “bah” livremente.
Cada frase que a gente fala cotidianamente carrega um pedaço de caminho. Quantos “Vosmecê” foram necessários para se tornarem o “você”? Quantos “você” serão necessários para termos apenas o “cê”? Eu nunca estou aqui. Eu tô aqui. Apenas. Nós não vamos embora. Vambora, mano.
O que Rosa fez na literatura foi apenas dar dignidade a esse movimento que nós fazemos todos os dias. Enquanto a gramática tenta policiar as palavras, a literatura deixa que elas corram soltas. Inventem plurais improváveis, conjuguem verbos inéditos, misturem sons que ninguém tinha pensado em misturar. A literatura sabe que a língua não é uma peça de porcelana. É uma coisa viva, que respira. É alma da gente. Vivendo e aprendendo todos os dias com a cara do brasieliro, que muda todo novo Sol.
Não é apenas uma questão de opiniães, é um lembrete de que toda língua tem seus guardiões da norma, prontos para corrigir desvios; mas também tem seus aventureiros, seus bons vivants, aqueles que preferem caminhar pelas veredas do erro criativo. Sem eles, a língua ficaria parada no tempo, morta. Presa em um dicionário em tempos de Google.
Talvez por isso a obra de Guimarães Rosa continue estranha, luminosa, cheia de palavras que parecem nascer diante do leitor. Ele tratava a língua como quem atravessa um território vasto, sem medo de abrir trilhas novas. E, no fim das contas, talvez ele estivesse sugerindo algo simples: que entre o certo e o errado existe sempre um espaço de invenção. Bom, mas aí já é questão de opiniães.
No fundo, no fundo, viva mesmo a Língua Brasileira! E viva Guimarães Rosa.

