Entrevistas

“A escrita sempre foi o meu principal instrumento de cura”, diz Flavia Camargo que se apresenta como ‘Escritora e Mãe’

Em entrevista à revista O Odisseu, Flavia Camargo conta que a maternidade a estimula a escrever, mas que não se limita à maternidade enquanto tema.

Foto: Reprodução.


“Escrevo sobre tudo”, me contou Flavia Camargo, escritora que, apesar de jovem, tem uma obra que conta com alguns livros. Com uma escrita consistente e versátil, a autora faz questão de afirmar seu lugar de liberdade dentro da escrita, o que ela apresenta como sendo sua forma de autoinvestigação e também de cura. Essa afirmação de liberdade faz sentido quando percebemos que alguns de seus livros trazem a experiência da maternidade como uma centralidade. Além disso, Camargo se apresenta no instagram como “Escrita e mãe”. Nesta entrevista, a autora aponta a importância que ser mãe assume na sua obra, mas também recusa limites. 

De fato, o projeto estético de Flavia Camargo não se limita à maternidade. A versatilidade já citada acontece tanto nos temas como na forma do texto, já que ela transita entre o conto, a autoficção, a poesia e a crônica. Na conversa que tive com Flavia, ela se mostra uma entusiasta da escrita, escrevendo em qualquer circunstância, seja em casa ou numa fila. Confira o papo! 

A escritora Flavia Camargo (Divulgação)

“As mulheres não publicavam livros no passado como publicam hoje”, diz Flavia Camargo sobre novo momento de escrita para as mulheres

Ewerton: Você se apresenta como escritora e mãe, duas instâncias que, a depender da vertente da literatura, parecem ser quase opostas ou então instâncias que brigam entre si. Mas como é para você? O fato de ser mãe interfere diretamente em sua escrita?
Flavia: Sinto que em mim houve um casamento entre a literatura e a maternidade. De um lado, a maternidade me oferece uma vastidão de sentimentos favoráveis à criação literária. De outro lado, a escrita me dá poderosas ferramentas para identificar as riquezas escondidas nos detalhes do cotidiano, permitindo-me transformar a rotina, para que seja valorizada, com a hierarquia que merece ter em nosso percurso como ser humano que está cuidando de outro ser humano. Mas, ainda que grande parte do que escrevo gire em torno das minhas experiências com os meus filhos, sigo escrevendo sobre todos os assuntos, cada vez que minhas observações capturam algo interessante sobre a vida.

Ewerton: Ainda nesta perspectiva, existe certa resistência na crítica literária acadêmica atual de categorizar a escrita de mulheres como uma escrita feminina. Para você, existe uma literatura ou uma escrita feminina? Por quê?

Flavia: Esse ponto é controverso, pois é um termo que pode ser usado para elogiar ou diminuir. As mulheres não publicavam livros no passado como publicam hoje. E algumas tiveram que usar pseudônimos de homem para serem lidas. Isso mudou e o número de autoras aumenta a cada dia. Existem aquelas que escrevem sobre tudo e aquelas que abordam temas ligados à realidade de ser mulher.

Mas eu penso que, mesmo neste último caso, não deveria ser considerada uma literatura feminina no sentido de só despertar o interesse do público de leitoras. Entendo que é possível um livro escrito por mulher com temática feminina ser chamado de literatura feminina, mas não para limitar o seu alcance, pois todas as pessoas de todos os gêneros e idades deveriam buscar absorver o que essas obras têm para ensinar, assim como qualquer livro tem uma mensagem importante a transmitir, na medida em que cada ser humano tem sua perspectiva única do mundo.

Ewerton: Seu livro “Quatro Letras” traz um relato muito profundo e visceral sobre a maternidade e o luto. Portanto, é um livro que tem um caráter muito pessoal. Para você, essa escrita também tem algum poder de cura? É possível pensar na escrita também como um recurso de cura?

Flavia: A escrita sempre foi o meu principal instrumento de cura. Ao longo do meu caminho, percebi que transformar meus sentimentos em palavras dava um sentido aos fatos, me permitia extrair aprendizados e me ajudava a criar soluções. Nomear as coisas que nos machucam, perceber o papel que cumprem na nossa jornada e identificar formas de crescer com os problemas são maneiras de nos curarmos, porque organizam, acomodam, encontram um lugar para as dores ocuparem, sem tomar conta do espaço inteiro, mostrando que também existem motivos para sorrir e ir em frente.

Ewerton: E como tem sido o diálogo com outras mulheres/mães que têm passado por situações parecidas com as que você relata no livro? Você tem recebido depoimentos?

Flavia: Desde o lançamento do livro, que já completou dez anos, tenho conversado com outras mães que perderam seus filhos. É muito comum uma pessoa entrar em contato comigo depois da leitura do Quatro Letras, por ser uma obra com forte apelo emocional. Elas me enviam depoimentos, contam suas histórias, falam das partes com as quais se identificaram e agradecem pela oportunidade de terem se sentido compreendidas e menos solitárias em seus caminhos.

Ewerton: Inclusive, cada vez mais mulheres estão abrindo espaço para a escrita confessional. Como você vê este momento na literatura mundial em que as mulheres estão mais dispostas a escrever

Flavia: Eu também tenho percebido esse movimento de expansão da voz autobiográfica. E fico bastante feliz. Particularmente, tenho vontade de ler tudo que é publicado neste gênero literário. Conhecer o íntimo de autores e autoras que nos convidam a mergulhar em suas almas, viajar com eles por suas memórias, investigando episódios, emoções e escolhas, para mim são presentes que eles nos proporcionam, para podermos alcançar outros âmbitos da existência, ampliar nosso grau de humanidade.

“Decidi não deixar os riscos da exposição me impedirem de levar adiante meu propósito de estender a mão a quem precisasse ouvir o que eu tinha a dizer”, diz Flavia Camargo sobre escrita do livro “Quatro Letras”

Ewerton: Ainda sobre o tom confessional de “Quatro Letras”, certamente é um livro que exigiu que você se mostrasse vulnerável. Você teve medo, em algum momento, da exposição?

Flavia: Um pouco de medo sempre existe na publicação de qualquer livro. Tudo que expomos é objeto de julgamento. Faz parte de viver. Até mesmo quando nos escondemos, somos julgados. Por isso, decidi não deixar os riscos da exposição me impedirem de levar adiante meu propósito de estender a mão a quem precisasse ouvir o que eu tinha a dizer. No meu caso específico, a partir dos conceitos e valores que me orientam, exibir a minha vulnerabilidade não me causa incômodo, porque não me sinto inferior a ninguém por chorar, perder e cair. Tenho bem definido dentro de mim que todos sofremos e passamos por desafios. Então, acredito que o ato mais generoso que podemos praticar é assumir nossos tropeços e mostrar como levantamos.

Ewerton: Já em “Enquanto vocês crescem”, lemos uma história narrada pela própria mãe para os seus filhos. Trata-se de uma história que também tem um caráter educacional e quase professoral. Como surgiu essa ideia do livro para você?

Quatro Letras, de Flavia Camargo/ 2024/ 264 pp.

Flavia: A ideia de registrar os principais momentos da vida dos meus filhos por meio de cartas foi inspirada em outra pessoa. Quando uma amiga me disse que sua prima fazia isso, na mesma hora eu quis copiar. Foi antes de ser mãe. Então eu tive tempo de elaborar o plano e iniciar a sua execução desde o dia em que descobri a minha primeira gravidez. Assim, tenho guardado para eles as lembranças da sua chegada, do seu desenvolvimento, das suas transformações, das suas conquistas e tudo mais que vejo de valioso e merece se eternizar. Mas também faço desabafos, relato meus receios e dúvidas, para que eles possam se acolher nas horas difíceis que vão surgir quando for a sua vez de ser mãe e pai.

Ewerton: Apesar de jovem, você já tem uma carreira de muitas publicações! Inclusive para o público infantil. Como é a sua rotina de escrita? E como você concilia isso com as demais obrigações do mundo?

Flavia: Não tenho uma rotina de escrita com horários e dias da semana reservados para essa atividade. Procuro encaixar o tempo da escrita em intervalos que surgem eventualmente. Para não esquecer as ideias, anoto um pequeno resumo, com palavras-chave, no bloco de notas do celular, porque ele está sempre comigo e, assim, consigo abrir em qualquer lugar, seja na rua, numa fila, ou antes de dormir. Quando tenho alguns minutos livres no computador, pego essas anotações e transformo nos textos que quero produzir.

Enquanto vocês crescem,
de Flavia Camargo/
2025/ 150 pp.

Ewerton: Notamos, enquanto lemos a sua obra, que você é uma entusiasta da maternidade, algo que é pouco incentivado neste mundo tão caótico que vivemos. Para você, o que a maternidade ainda tem a oferecer às mulheres?
Flavia: O motivo que me levou a querer ser mãe foi ter identificado a contribuição que esse campo experimental representaria para o meu aperfeiçoamento. A partir do exemplo de mães que vieram antes de mim, vi que eu estaria me beneficiando ao escolher me colocar à serviço de pessoas que dependessem dos meus cuidados. As crianças possuem inocência, imaginação, entusiasmo e criatividade. Para conviver com elas, precisamos trabalhar certas características que nos tornam pessoas mais humildes, serenas e empáticas.

Ewerton: Para finalizar, podemos falar que você enquanto escritora também trabalha em diferentes gêneros, como a ficção, os pequenos textos, a crônica e a poesia. Como é para você escrever em tantos gêneros? 

Flavia: Escrever em diversos gêneros me dá a oportunidade de experimentar vários modos de expressão. Dependendo do conteúdo que quero comunicar, um gênero se adequa mais que os outros. A linguagem lúdica é propícia a trazer um olhar que realce o encanto que certos assuntos despertam. Os versos me agradam quando quero dar um tom sublime ou romântico ao que estou dizendo. Pequenos textos traduzem o impacto inesperado que algum acontecimento comum me causou. A ficção me possibilita construir personagens que sirvam de exemplo dos resultados que podemos obter quando seguimos uma linha de conduta. E a autobiografia tem me permitido criar um elo profundo e verdadeiro com os meus semelhantes.