
A Escrita penetrante de Vanessa Gonçalves em Quando as Pessoas não dormem
“Cada livro tem um desafio particular, acredito que essa seja a dor e delícia de escrever, saber que em nós arde o desejo de que o próximo livro seja sempre o melhor de todos.”
Foto por: Julia Perosa
Intensa e penetrante. Essas são as duas palavras que melhor definem a escrita de Vanessa Gonçalves, autora do livro Quando as pessoas não dormem, lançado pela editora Rizoma Projetos Editorias, em 2024. Trata-se do segundo livro de sua autoria e reúne contos que retratam a violência e os medos do cotidiano em uma linguagem que penetra os sentidos do leitor e o leva ao limite da sua própria existência.
Semifinalista do Prêmio LOBA de literatura escrita por mulheres em 2025, o livro enfatiza vivências femininas em histórias que demonstram que o dia a dia pode esconder mistérios, terrores e, principalmente, resistência e resiliência.
Em entrevista concedida à revista O Odisseu, Vanessa Gonçalves fala sobre seu processo de escrita e da sua relação com a produção de outras mulheres.
CA: No prefácio, escrito por André Francisco, uma frase chama a atenção: “O desafio de escrever seu segundo livro, talvez seja ainda maior que o de escrever seu livro de estreia.” Qual o maior desafio que você enfrentou para escrever Quando as pessoas não dormem?
VG: Cada livro tem um desafio particular, acredito que essa seja a dor e delícia de escrever, saber que em nós arde o desejo de que o próximo livro seja sempre o melhor de todos. Inventamos essas coisas para seguirmos escrevendo, acho. Sobre o “Quando as pessoas não dormem”, particularmente, foi o conceito que escolhi para ele. Depois de fazer uma oficina com a escritora Jarid Arraes [Escrevendo o trauma] em que nasceu o conto que dá nome ao livro, decidi que queria escrever um livro que seria com poucos contos, num formato menor, mas, que abordaria o trauma. A matéria dos contos seria a ficcionalização de traumas vividos ou ouvidos nesses anos em que também atuo como mediadora de leitura e de oficinas de escrita literária. É um desafio que envolve uma densidade de escolher a melhor forma de contar. Sou uma boa “escutadora” de histórias, tenho especial curiosidade por ouvir as pessoas, suas dores e alegrias, isso é e foi fundamental para ter o material necessário para a escrita do livro. Além, claro, dos meus próprios traumas enquanto mulher, não branca, criada em periferia rural do interior desse país, com uma formação com extrema escassez em todos os âmbitos [materiais e culturais]. Isso atravessa a minha escrita em muitos níveis.
CA: O ritmo acelerado do conto Ainda dói transporta o leitor, quase imediatamente, para um trânsito caótico e para o sufoco daquele carro parado e a angústia da personagem dividida entre o desejo de chegar logo, o motorista falastrão e os pensamentos diversos sobre dor, amor e morte. Você acha que a literatura precisa ser desconfortável e tirar o leitor do lugar passivo de mero observador da vida dos personagens?
VG: É uma pergunta que tenho cuidado ao responder, porque não sou só escritora, sou também educadora e mediadora de leitura. Tem uma citação de Simone de Beavouir, que li em um artigo que agora não me lembro o nome, e que parafraseio aqui “Ninguém sai ileso de uma leitura”. Falo isso porque facilmente podemos cair numa cilada que eu, oriunda das periferias desse país, tenho o cuidado de não cair, que envolve a ideia de “baixa e alta cultura”. Ou, “a baixa e alta literatura”, esse debate particularmente não me interessa, porque como mediadora de leitura, quero que as pessoas leiam, leiam mais e leiam além da Bíblia [que o principal livro que as pessoas que se declaram leitoras nesse país, declaram ler, de acordo com a última pesquisa do Retratos da Leitura no Brasil]. Então, acho que a literatura em si não precisa ser desconfortável para ser. Ela precisa alcançar leitores [provocando desconforto ou não]. É urgente pensarmos que estamos perdendo leitores de forma hemorrágica nesse país nos últimos anos, então, acredito que a literatura deva mover as pessoas a seguirem querendo segurar livros, conhecer novos mundos, vidas inimagináveis, ou, se reconhecer no que está sendo contado. Porque estou com Beavouir nesse sentido: ninguém sai ileso após uma leitura. Seja ela qual for, seja desconfortável ou não.
CA: O segundo conto, Lutar ou fugir, nos coloca em sinal de alerta e, ao mesmo tempo, nos impõe uma reflexão sobre a linha tênue entre amar alguém e sentir medo desse mesmo alguém que, por alguma razão, torna-se um desconhecido ou, como no conto, “um aquilo” que ativa todas as defesas do nosso corpo e nos empurra para o instinto mais primevo: a sobrevivência. Como é escrever na linha tênue entre o amor e o medo?
VG: Sou uma leitora [curiosa e autônoma] de filosofia, acho que isso atravessa também o que escrevo. Gosto especialmente do filósofo Espinosa e dois estudiosos sobre ele, Deleuze e Viviane Mosé. E para Espinosa e sua concepção sobre os afetos tem mais a ver em como afetamos e somos afetados pelo mundo e tudo o que o compõe, não necessariamente essa romantização que temos hoje de que afetos sejam necessariamente o que romantizamos sobre os sentimentos como amor, ódio, medo, coragem, etc. A partir dessas leituras algo em mim também se encontrou e inevitavelmente vai se refletir no que escrevo. Tenho uma alegria de viver e pela vida que são intensas, no entanto, há um lugar dentro de mim que é devastado e irrecuperável, e que não é acessível a ninguém, e não quero que o seja, uma certa solidão irreparável. A ideia do amor que me causa incômodo [e nasce da sua romantização por questões econômicas, sociais, históricas, etc] é a de que ele é essencialmente esse afeto que “recupera”, “cura”, “transforma”, e não… para mim é justamente nesse lugar irrecuperável em mim, em nós que ele é e acontece. Por isso amor e medo, afetos genuinamente humanos que nos ligam a essa existência, atravessam a literatura que escrevo. Não acredito em amores estritamente positivos em que estamos sempre aperfeiçoando a nós mesmos para entregar o melhor para um/a outro/a. Pelo contrário, acredito que o amor mesmo, esse afeto tão explorado na literatura e na filosofia e que nos atravessa em tantos diálogos e produções artísticas, é justamente entregar para o/a outro/a nossa solidão [tirei isso de Chistian Dunker, num livro dele que estou lendo agora]. Óbvio que não estou falando aqui de relações violentas, tóxicas e abusivas, longe disso. Mas, volto à pergunta, escrever sobre a linha tênue do amor e do medo. O medo é imobilizador, o amor nos move em algum sentido. Onde há medo, não há amor, ou há uma fragilidade nele. Escrever nesse “entre” me interessa porque é justamente nesse “não lugar” que nascem as questões muito, muito humanas que nos atravessam. Nesse conto em específico, é uma personagem que vê um amor se deteriorar em uma doença debilitante que acomete quem ela ama, mas que a coloca em risco. Tensiona esse lugar mesmo, o lugar de quem ama, mas, diante da violência eminente que uma doença pode ocasionar, escolhe sobreviver. Deve escolher sobreviver. Amor em suas múltiplas formas, medo, devastações internas, desejo, erotismo, são coisas que me interessam na escrita, porque são pulsões de vida e/ou morte que nos fazem, de alguma forma, nos desiludirmos com a vida ou nos agarrarmos ainda mais a essa existência doce-amarga que precisamos atravessar.[creio que a escrita é atravessada pelas nossas filosofias, nossos medos, nossos assombros, nossos prazeres, nossos desejos, utopias, raivas, enfim… como Drummond disse em uma entrevista já próximo a sua morte: sou um homem do meu tempo, escrevendo sobre o meu tempo.]
CA: Todos os contos são dedicados a escritoras. Qual a influência que a obra dessas mulheres exerce sobre o seu processo de escrita?
VG: Eu naturalmente, no meu processo de educação que se deu nos interiores desse Brasil, carrego o hábito/costume de honrar e respeitar quem veio antes de mim e abriu caminhos para que eu pudesse fazer o meu. Isso é com meus avós, mãe, tios. Próximos ou longe, de forma direta ou indireta, essas pessoas tateiam meu imaginário quando escrevo literatura. E não seria diferente com as escritoras que vieram antes de mim e não estão mais nesse mundo e as que ainda estão ocupando lugares na literatura escrita por mulheres. Na minha formação leitora e profissional [sou da área das Letras] durante muitos anos as principais referências que tive foram de autores [sobretudo brancos, classe média]. Eram excelentes escritores, sem sombra de dúvidas, mas me gerava uma inquietação. Não era possível que só Clarisse Lispector e Lygia Fagundes Telles eram as grandes escritoras da nossa literatura. Foi a partir de 2013 que essa inquietação tomou forma e se tornou uma busca. Busquei ler mulheres e quanto mais as lia, mais nascia em mim o movimento de escrita enquanto uma possibilidade, um talvez… escrevia desde menina, mas, se a gente não vê mulheres ocupando nomes em capas de livros, estantes de livrarias, bibliotecas públicas e escolares, você acha que aquilo não é para você [coloque fatores sociais e étnicos aqui e a coisa fica mais distante ainda]. Então, quanto mais lia mulheres, mais a escrita se aproximava de mim. Quanto mais leio mulheres, mais me sinto parte desse lugar, e ocupá-lo se torna um “querer” possível e uma necessidade de vida.
CA: O aperto no peito é recorrente nos contos, como uma sensação que acompanha as mulheres que vivem em constante estado de alerta para a vida e, talvez, um lembrete de que elas ainda são capazes de resistir e de lutar, apesar de tudo. A escrita, para você, é como esse aperto no peito que te empurra para a vida?
VG: Curiosa essa pergunta porque estou com dois trabalhos em andamento, um romance [ao qual me dedico desde 2023] e um livro de contos insólitos cujos personagens [sejam os protagonistas, sejam os antagonistas] são entidades e seres encantados da nossa cultura popular. E o primeiro conto que escrevi começa justamente com a protagonista caída no pé da escada com sua caixa torácica aberta, e entre a angústia de estar sonhando ou de forma absurda não, ela observa o próprio coração batendo, é a imagem central do conto. Então, parando para pensar agora e considerando que antes de ser uma escritora publicada, já escrevia quando menina, o peito e o coração são imagens recorrentes em minha escrita. Ler os livros que pegava na biblioteca da escola, inventar e escrever pequenas histórias eram coisas que me davam, na infância e adolescência, algum mundo possível na realidade bruta em que eu crescia [contexto bruto material e socialmente falando, mas, com a sorte de ser muito amada por uma mãe, irmãos, tios, primos, avós], esse aperto no peito estava lá. Enquanto mulher nesse mundo, enquanto um corpo que cresceu às margens econômicas e sociais, lutar ou fugir [aqui envolve o sobreviver] eram e são escolhas diárias. Agora que escrevo para ser publicada e em alguma medida lida, o aperto no peito continua, não como uma angústia sem fim, mas, como o lugar onde acesso esses meus fantasmas [passados e presentes] que me sussurram medos, desejos e fantasias que vão povoar meu imaginário e reverberar na minha escrita.
CA: Repetições, em um texto literário, quando não são bem empregadas, podem tornar a leitura enfadonha. Nos seus textos, no entanto, elas contribuem para preparar o leitor para o clímax. Como mensurar a utilização desses recursos de modo a deixar o texto fluido e interessante para o leitor sem resvalar para a banalidade?
VG: Foi uma escolha estética “teimosa” da minha parte porque como leitora eu sabia desse risco e que seria uma aposta que, para a escritora que está ali “viajando” e envolvida na escrita alcançava um lugar que agradava, mas, sem um objetivo preciso dentro da narrativa, poderia arrastá-la para a leitura enfadonha. Aqui entra o pensamento mais técnico mesmo, acionar a escritora [todo o material já lido sobre escrita, técnica, autoras e autores de referência, meu próprio estilo, etc] e a leitora. Acredito que quando escrevo essas duas personas estão de mãos dadas, a escritora e a leitora, e nas suas alianças e tensões, encontro meu próprio jeito de como eu quero que a história que estou escrevendo seja contada.
CA: As pequenas tragédias da vida cotidiana são matéria-prima para seus textos e nota-se seu olhar atento para as dores ao redor. Como é enxergar a vida com olhos de escritora? Como transformar a dor dos outros e as suas em palavras?
VG: Enquanto respondo a essa entrevista estou em Belo Horizonte me preparando para participar de um evento nacional, a TEIA Nacional do Livro e da Leitura, um evento lindo que promove o encontro entre agentes culturais, artistas, e trabalhadores da área da Literatura de diversas regiões do Brasil para debater sobre o futuro da literatura, do livro e da leitura no país. Fui convidada para compor uma mesa ao lado de autoras e autores que admiro profundamente e cuja temática é “Direito à escrita”. Desde que comecei esse processo de me entender e fazer escritora, em que pude conhecer diversos estados do país graças à literatura, mediando oficinas, fazendo parte de mesas de debate, fui entendendo que toda pessoa tem uma história que só pode ser contada por ela mesma, então, uma das minhas frentes de atuação enquanto trabalhadora da área, é defender a escrita como um direito de todos, mas, principalmente das vozes colocadas às margens desse país. E não estou falando da escolha de ser ou não escritora/or, estou falando do direito de se contar ou contar uma história única. E é ouvindo as pessoas por onde passo que esse pensamento se move em mim, e assim também atravessa a minha escrita. Meu olhar como escritora nasceu na menina que ouvia com atenção, medo e encanto as histórias sobre Saci, Corpo Seco, Romãozinho contadas pela minha avó enquanto ela tomava um mate. Nasceu do contexto bruto de escassez e desigualdades em que lutamos para sobreviver e, por meio da educação, pudemos mudar nossos futuros [eu e meus irmãos]. Quando você cresce e se relaciona com isso desde a infância, no meu caso, estar atenta ao outro é também uma questão de sobrevivência, na medida em que esse outro [a minha comunidade, no caso] era imprescindível para nos manter sobrevivendo de alguma forma. A dor, assim como a alegria, é uma forma poderosa de nos ligar ao outro, e embora a escrita seja um ato solitário na sua feitura, em mim ela é coletiva na sua concepção, porque é ouvindo e [re]siginificando histórias que ela me faz e se faz.
CA: Nos contos, nota-se a relação das personagens com o sobrenatural, com o místico e com o fantástico em várias medidas. Nota-se, também, que a fera real por trás de todos os males acaba sendo, quase sempre, o homem. Em um mundo de tantos mistérios, a humanidade é o que mais lhe assusta?
VG: Sou povoada por essas histórias fantásticas porque cresci em um ambiente onde elas explicavam coisas que a ciência ou o conhecimento científico não chegavam. O excesso que vivemos hoje de informação, de explicação de tudo, o esmiuçamento científico e filosófico sobre tudo que envolve a nossa vida e nossos afetos, trouxe uma crise narrativa a partir do momento em que “matamos” o mito e queremos explicar epistemologicamente toda a nossa relação com o mundo. As histórias para mim nascem nesse mistério, nesse fantástico, nesse lugar em que não podemos explicar tão objetivamente as coisas. Foi onde elas nasceram para mim. O que me interessa se a cicatriz que um vizinho mostrava nas costas foi realmente feita ou não pelo Negrinho Pastoreiro? Me interessa a menina assombrada ao ouvir aquela história na varanda da vó e como ela passava dias confabulando como ele conseguiu escapar da surra só com uma cicatriz nas costas. Veja, isso é o fantástico e misterioso da vida. Depois me contaram que havia uma cobra no cerrado que “chicoteava” as pessoas, e como quem andava em pasto à noite, com apenas um lampião na mão, mal conseguia ver, pisava nelas e apanhavam, assim inventavam que era o Negrinho Pastoreiro. Fiquei absolutamente desconsolada ao saber dessa “verdade”, a cobra não me interessava, a fantasia que ela causava nos desavisados da noite sim. Isso povoa minha escrita. Os mistérios da vida, as coisas inexplicáveis. Os encantados da nossa cultura são seres maravilhosos que nos convocam à inventividade, os seres humanos é quem transformam o Negrinho Pastoreiro em cobra, tirando o seu mistério e poder. Então, sim, a humanidade me assusta mais, não só pelas maldades capazes de produzir, mas também pelos excessos de saber que podem “matar” a encantaria da vida.
CA: Por fim, que conselho você daria para as mulheres que escolhem o caminho, nem sempre gentil, da escrita? Por que continuar escrevendo?
VG: Que escrevam e continuem escrevendo. Não é um caminho fácil, generoso, aberto, pelo contrário. Escrever e seguir no caminho da literatura no nosso país exige força, coragem e esperança. Principalmente no cenário que estamos atravessando política e socialmente falando nos últimos anos. Na forma como temos perdido leitoras/es, na forma como a violência contra nossos corpos aumentou. No entanto, não podemos deixar de acreditar na força poderosa que as histórias e as narrativas têm de alcançar e mover vidas [nem que seja uma só]. Como disse, há histórias que somente a pessoa que a guarda, conhece e sabe é que pode contá-la e escrevê-la, e essa história merece e precisa ser contada, e só você pode fazê-lo. Então, faça.
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Quando as pessoas não dormem, Vanessa Gonçalves
Editora Rizoma

