Entrevistas

Violências sutis e brutais vivenciadas por mulheres: Flávia Iriarte fala sobre “Instruções para desaparecer devagar”

Em romance de estreia, autora utiliza experiência pessoal traumática no Camboja para abordar passagem da juventude para a vida adulta.

Por Marcela Güther

Capa: Divulgação.


A editora, mentora de escrita criativa e escritora Flávia Iriarte transforma, em Instruções para desaparecer devagar, uma experiência real no Sudeste Asiático em uma narrativa que investiga as violências sutis e brutais que moldam a passagem para a vida adulta, especialmente para as mulheres. A obra, que chega às livrarias pela Editora Faria e Silva, conta com textos de blurbs das escritoras Bruna Maia e Carola Saavedra.

A narrativa, de estilo seco e objetivo, porém carregada de densidade existencial, é influenciada por referências que vão do cinema de Michael Haneke à literatura de J.M. Coetzee.

Flávia Iriarte é carioca e vive em Brasília. Formada em Cinema pela UFF e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio, é editora, mentora de Escrita Criativa e fundadora da escola online Carreira Literária. 

Em 2010, criou a Editora Oito e Meio, pela qual já publicou mais de 320 autores. Já coordenou a pós-graduação em Escrita Criativa na Uniítalo, onde ainda leciona. Vencedora do Prêmio Jovens Talentos da Indústria do Livro em 2016, é autora do livro de contos Todo homem naufraga (Oito e Meio).

Confira na íntegra a entrevista com a autora:

Instruções para desaparecer devagar foi inspirado em uma vivência sua no Sudeste Asiático. Como foi essa experiência?

Em 2016, fiz uma viagem para o Sudeste Asiático com a minha namorada da época. Logo que chegamos à cidade de Siem Reap, no Camboja, já no fim do dia, passamos por uma situação bem sinistra. Descobrimos que a pousada que havíamos reservado ficava muito mais afastada do centro do que aparecia no site de hospedagem.

Quando chegamos, encontramos um lugar praticamente em ruínas: entulho espalhado, homens carregando sacas e um jovem que, com a maior naturalidade, nos informou que a pousada era ali mesmo. Só que… não havia recepção, não havia hóspedes, e o único quarto disponível parecia improvisado. Já era tarde da noite, não havia transporte por perto, e sair em busca de outro lugar não era uma opção.

Passamos a noite em claro em um quarto sem tranca, com medo de sermos estupradas, roubadas, de nunca mais voltar para casa.

Assim que o sol nasceu, saímos dali e encontramos um hotel de verdade, onde finalmente conseguimos respirar. Mas minha cabeça não parava de pensar no que poderia ter acontecido. 

E acho que toda mulher conhece esse estado. A sensação de que a qualquer momento pode acontecer algo que não vamos conseguir evitar.

Foi dessa mistura de medo, desconforto e estranhamento que nasceu parte da atmosfera do meu romance.

Quais são os temas centrais do romance?

Quando comecei a escrever queria explorar sobretudo a ideia de culpa social e consciência do privilégio. A pergunta que eu comecei me fazendo era: é possível a consciência do privilégio produzir algum tipo de mudança, ou somente culpa mal elaborada? 

Mas à medida que fui escrevendo, outras questões foram aparecendo: as particularidades da amizade entre mulheres e todas as tensões que ela envolve, as relações entre juventude, desejo e violência, a condição de ser mulher no mundo.

A juventude, aliás, é um elemento muito importante na obra. Por que decidiu abordar esse tema?

Acho que o livro fala um pouco sobre o quanto a juventude é uma época violenta na vida das pessoas. Especialmente das mulheres. O percurso até entendermos e aceitarmos quem somos costuma ser doloroso e cheio de pequenas – quando não grandes – violências.

Instruções para desaparecer devagar. Flávia Iriarte.
Faria e Silva, 2025, 156 pp.

Além de escritora, você é editora e mentora literária. Como essas experiências ajudaram na construção do livro?

Trabalho há 16 anos como editora e há 11 anos como mentora de escrita criativa. Meu trabalho é respirar literatura o dia todo. Antes de ser escritora sou – em primeiro lugar – leitora, depois, editora, professora de escrita criativa. Escrever é só uma consequência disso.

Instruções para desaparecer devagar transita entre diversos gêneros. Como chegou a essa estrutura?

Acho que podemos dizer que o livro dialoga com o thriller psicológico, mas sem adotar os tropos clássicos do gênero. Muitas vezes, ele os desconstrói. Ainda assim, prefiro defini-lo como uma tragédia contemporânea. O romance se apoia na estrutura trágica descrita por Aristóteles – o erro trágico, a peripécia, a queda –, mas atualiza isso para um mundo em que o destino já não é mais imposto pelos deuses, e sim pelo próprio indivíduo que, por sua vez, é um produto do seu lugar de classe, gênero, raça e por outras forças um tanto difusas. 

Quais foram suas principais influências para esse trabalho?

Acho que ao longo da minha formação como leitora, incorporei influências muito diversas como Machado de Assis, Clarice Lispector, Gógol, Dostoiévski, Hemingway, até autores contemporâneos como Coetzee e Ottessa Moshfeg.

Mas, para esse livro especificamente, alguns livros e obras foram fundamentais: Desonra, de J.M. Coetzee, Tirza e O homem sem doença, de Arnon Grunberg, os filmes Thelma e Louise, de Ridley Scott, e Caché, de Michael Haneke. 

Recentemente, descobri que ele tem muito de um livro de uma autora contemporânea maravilhosa, a Mariana Brecht, e seu livro Brazza.

Como você define a sua escrita literária?

Acho muito difícil falar da própria escrita. Mas, em termos de linguagem, gosto de buscar uma escrita mais seca, sem ornamentos, que explora a tensão das relações e das zonas de desconforto moral. 

Quais são os seus planos literários futuros?

Estou escrevendo um novo romance sobre três amigos de escola que têm as vidas marcadas por uma tragédia comum. Essa tragédia acaba encerrando a relação deles ali, de forma abrupta.

Mas a narradora passa a vida obcecada com os destinos dos outros dois e com o que acaba ficando em aberto com o fim abrupto dessas relações. 

Acho que é uma história sobre precisar aceitar que não teremos respostas de tudo. Mas ainda é cedo para dizer mais do que isso. 

Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na editora Orlando e na Com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário.