Turismo

Passeando com “O Agente Secreto” no Recife

O passeio cinematográfico da La Ursa Tours é o oficial do filme O Agente Secreto, com aval do próprio Kleber Mendonça Filho, que participou de uma das edições da excursão pelo centro do Recife.

Fotos: Fernando Baldan.


Recife, sábado, 4 de abril. “Esteja pelo menos 15 minutos antes do horário do passeio para evitar atrasos”, dizia a mensagem da La Ursa Tours no WhatsApp. Eu e minha mãe aparecemos às oito e quinze em ponto na entrada do portão azul do Parque Treze de Maio, local do ataque da Perna Cabeluda em “O Agente Secreto”. 

Não havia melhor maneira de comemorar meu aniversário, pensei, mesmo com o sol torando. Viajei 2.500 quilômetros para fazer este tour. Naquela manhã, eu estava fazendo cosplay de Wagner Moura usando uma camiseta original da Pitombeira dos Quatro Cantos, a única camiseta amarela possível hoje em dia, comprada em Olinda, bermuda e tênis Adidas anos 70.

Surgiu um cara de boné vermelho, Rode, o guia, perguntando se fazíamos parte do grupo da caminhada turístico-cultural. Até às oito e meia, o restante da trupe foi chegando. Por fim, éramos dez ao todo, entre recifenses e turistas.

O passeio cinematográfico da La Ursa Tours é o oficial do filme, com aval do próprio Kleber Mendonça Filho, que participou de uma das edições da excursão pelo centro do Recife.

(Continua após a foto)

Fachada do cinema São Luiz, no Recife, cenário de filmes como O Agente Secreto e Retratos Fantasmas, ambos de Kleber Mendonça Filho. Foto: Fernando Baldan.

A sombra das árvores do Parque Treze de Maio logo foi abandonada pelas ruas fervilhantes do roteiro. No filme, o parque singelo parece mais denso. Coisas do cinema. O sol ardia em 30 graus. A garrafinha d’água não foi páreo. Senti-me “O Agente Seco”, versão da Turma da Mônica com Cascão para o filme.

Antes de chegarmos ao Ginásio Pernambucano, a principal locação do tour, passamos brevemente pela fachada do IML, onde acontece a troca da perna, mas só no filme, porque o instituto em si foi criado em estúdio.

O ginásio, repartição pública na história, está em reforma. O pátio, onde acontecem algumas conversas e também o tiroteio, está atravessado por tapumes. Nada que impedisse entrar no clima. O guia sacou a foto de uma cena passada no local, protagonizada por Wagner Moura, e a posicionou no ponto exato onde aconteceu para dar noção. Ainda no pátio, enxergamos a janela onde Marcelo/Armando e outros funcionários avistam a madame que abandonou a filha da empregada para a morte.

Dentro do prédio histórico, no piso superior, fomos até a sala de Marcelo/Armando, onde acontecem cenas emblemáticas da película, entre elas, o primeiro encontro com o delegado, a datilografia do bilhete da moça cargo-comissionado e a entrada do matador de aluguel. Reconheci corredores e portas, e, depois, a escada do térreo da cena que precede o tiroteio.

Outra locação legal é a galeria onde Bob é morto. A barbearia estava fechada, mas paramos no Chá Mate Brasília, Dunga Mate no filme, para beber e comer algo. Mate com limão é especialidade do local. Geladinho e batido na hora.

Um pôster de uma joalheria fictícia na parede, criado para o filme, com um rosto que lembra Gal Costa nos anos 70, continua na galeria.

Foto: Fernando Baldan.

Quase no fim do roteiro, avistei da ponte o Cinema São Luiz. Recordei de “Retratos Fantasmas” e mirei cada esquina onde havia um cinema diferente. Entramos no cinema sobrevivente, que também está sendo reformado. A sala enorme, no entanto, ainda estava exibindo “O Agente Secreto” e outros filmes. Entramos para conhecê-la e conferir de perto os vitrais laterais à tela e o teto e paredes decoradas. Tirei uma foto no orelhão icônico do filme instalado no hall. Pensei que fui ao Recife só para fazer isso.

De volta ao lado de fora, fomos até o local da cena do carnaval noturno, depois que Armando/Marcelo sai da entrevista documentada em fita cassete no cinema. Quando revi “O Agente Secreto” pela segunda vez no mês passado e assisti novamente a esta cena, me dei conta de que ela tinha sido responsável por aumentar minha sede de carnaval este ano. Aquela cena representou uma forma de descompressão do cotidiano que eu precisava tanto e, inconscientemente, me fez cair na folia intensa do bloco do Baixo Augusta em São Paulo.

A última parada do tour foi a entrada do prédio de Dona Sebastiana, o corredor extenso por onde vem caminhando Tânia Maria e por onde o fusca amarelo segue depois. Tiramos uma foto em frente ao novo portão de grade, satisfeitos pelo passeio que revisitou a produção cinematográfica que o tolo do Oscar esnobou, mas que sabemos que era a melhor da premiação estadunidense.