
Uma crítica de ‘Meu silêncio lambe tua orelha’, de Marta Cortezão
Em ‘Meu Silêncio Lambe Tua Orelha’, Cortezão compreende com habilidade genuína que a palavra não instrui nem explica, antes ela se oferece, ambígua, aberta, buscando apenas alcançar sua própria intensidade poética.
Foto: Reprodução.
Já faz algum tempo que sinto que estou devendo falar mais das autoras, e, sobretudo das poetas amazonenses. Talvez pelo cenário abundante que nos cerca, a poesia seja o gênero que mais se impõe na literatura contemporânea produzida no Amazonas. E, embora pouco se ouça falar ou pouco se leia nos veículos literários de grande repercussão sobre isso, a verdade é que nos últimos tempos, pode-se afirmar que a literatura amazonense é majoritariamente produzida por mulheres.
Em Manaus, a dominação masculina no meio crítico-literário ainda se faz sentir com força. E não apenas ela: há também a centralização geográfica do poder cultural, que concentra visibilidade no eixo sul-sudeste. O resultado é previsível: menos espaço, menos circulação, menos reconhecimento das artistas amazonenses que têm produzido obras singulares, mas que deslizam para as margens, deixando de ocupar o destaque que merecem.
E, entre tantas vozes que admiro, preciso me deter na obra de Marta Cortezão, poeta nascida em Tefé, interior do Amazonas, que hoje reside na Espanha, cuja paisagem de origem costuma se entrepor na sua escrita como um fundo sensível e persistente.
Em Meu silêncio lambe tua orelha (Toma Aí um Poema, 2023), entretanto, Cortezão desloca o olhar para um território mais íntimo e coletivo ao mesmo tempo: o diálogo com outras escritoras e a exploração profunda do feminino.
Como observa Vania Clares no texto da orelha do livro, “todos os poemas nos comprovam a interligação da poeta ao debruçar-se sobre outras autoras, aceitando-as como partes de si mesma, num gesto de humildade, integração e empatia”. Há, nesse gesto, uma espécie de sororidade literária que transforma a leitura em encontro, mas não apenas entre textos, como também entre corpos e experiências.
Clares prossegue afirmando que “a elasticidade dos silêncios devora o corpo desde as entranhas até a alma”, revelando uma compreensão de mundo que se exercita intensamente na linguagem. Essa percepção se confirma de maneira contundente no poema “Obscenidades”, no qual Cortezão reivindica a transgressão como potência criadora. Ao erotizar a própria escrita, a poeta desloca a obscenidade do corpo para a gramática, convertendo sintaxe e retórica em matéria sensorial:
transgredir o verso
a vírgula e seus acessos
é gozar na contramão
de um poema seleto
é arriscar uma concordância
e copular no trajeto
com um predicativo obscuro
só para revirar a fundo
tua retórica turva
tua sintaxe oblíqua
é morder a tua língua
para aflorar o meu sexo
num grito perplexo
: minha poesia é vulva
que se embriaga de lua
é canto Safo latente
força poética do ventre
um susto eloquente.
Espaço literário em Meu Silêncio Lambe Tua Orelha
Virar as páginas deste livro é experimentar concretamente aquilo que Maurice Blanchot chamou de “espaço literário”: um território autônomo onde a linguagem deixa de ser instrumento e passa a existir por si mesma. Cortezão compreende com habilidade genuína que a palavra não instrui nem explica, antes ela se oferece, ambígua, aberta, buscando apenas alcançar sua própria intensidade poética. Há um trabalho rigoroso de escolha lexical, uma escuta atenta do silêncio entre as palavras, como se cada verso fosse tensionado até atingir o sentido (ou o não-sentido) que a autora perscruta.
Esse espaço literário constitui um mundo independente, construído por quem aceita o risco de entrar no jogo da linguagem. No poema “Contextura”, a poeta reafirma que é justamente na subversão das normas que a escrita feminina encontra sua força revolucionária. Escrever-se como sujeito e não como objeto de uma ideologia externa, torna-se um gesto de autoria plena, no qual as mulheres assumem o protagonismo de suas próprias narrativas:
no ventre do tecido
tudo está entrelaçado
cortar um só fio
é debilitar-se de asa
todos os sins ditos
[à revelia dos nãos]
reverberam na teia
de nossa fluidez
tal pedra que fere
a superfície líquida do rio
alastrando-se em ondas
e alimentando-se de si
no vasto rio profundo
que nos habita
romper o silêncio
que o verbo oprime
é atar fios com ávidos nós
é remar-se a fundo
e alçar a própria voz
: linguagem é pássaro livre.
Ao recusar o óbvio e o esperado, Cortezão inscreve-se numa linhagem de poetas que têm aberto caminhos antes considerados impróprios ou impossíveis. Sua poesia sugere que a linguagem não é apenas meio de expressão, mas espaço de existência, isto é, um lugar onde o corpo, o desejo, a memória e a história podem finalmente falar sem mediações.
Como bem já asseverou a escritora franco-argelina Hélène Cixous: “É preciso que a mulher se escreva: que a mulher escreva sobre a mulher, e que faça as mulheres virem à escrita, da qual elas foram afastadas tão violentamente quanto o foram de seus corpos; pelas mesmas razões, pela mesma lei, com o mesmo objetivo mortal. É preciso que a mulher se coloque no texto – como no mundo, e na história –, por seu próprio movimento. É preciso que ela se escreva, porque a invenção de uma escrita nova, rebelde que, quando chegar o momento da libertação, lhe permitirá realizar as rupturas e as transformações indispensáveis na história”.
Em Meu silêncio lambe tua orelha, Marta Cortezão parece responder a esse chamado com uma poesia que não pede licença; ela se insinua, morde, sussurra e, sobretudo, rompe o silêncio.


