Crítica

Antes do canto da musa: “Os imortais”, de Paulliny Tort

Ao mesmo tempo em que nos coloca em terreno conhecido, “Os Imortais”, novo romance da autora brasiliense, abre um atalho tortuoso na selva de pedra da literatura contemporânea nacional.

Foto: Divulgação.


Talvez o caminho das pedras não esteja numa suposta busca pela originalidade, muito menos na sinceridade e na coragem pela autoexposição — prefiro a novidade, que é bem diferente da originalidade: ainda dá pra usar a imaginação na escrita de um romance. É claro que essa imaginação é construída a partir dos processos históricos que nos fizeram chegar até aqui: desgaste, exaustão, repetição, fragmentação e falha. Há mais de 100 anos, os narradores cantam conscientes de que é impossível construir uma epopeia nos moldes tradicionais a partir do mundo fraturado de hoje. E o que resta é voltar no tempo, chegar até os primeiros clássicos, se esgueirar nos rastros da mitologia. Ou então, ir mais longe e preceder a linguagem, muito antes dos deuses, mas já bem perto da guerra, como faz Paulliny Tort no seu novo romance, Os Imortais (Fósforo, 2026).

Voltar aos mitos não é um retrocesso: James Joyce, Guimarães Rosa, Anne Carson. Se tratando de literatura, talvez seja o destino, via de mão única, pois não há como não dialogar com certos mortos, os nossos e até aqueles distantes, filhos de uma moral de outros tempos, criminosos hediondos para os olhos gatilháveis de hoje. Bíblias e bardos, manuscritos e templos, o palco da história nos permite entrar em contato direto com um sem fim de civilizações da antiguidade. Vai não vai a arqueologia transforma mitologia em fato histórico (a existência de Tróia, por exemplo), bagunçando ainda mais as nossas cabeças, fazendo da linha uma gira do tempo. Ou então, de uma hora pra outra, uma obra apresenta uma nova origem do mundo que é, por nossa ignorância, muito mais antiga que as nossas histórias mais antigas. Não há como escrever o mundo do mesmo jeito depois de ler A queda do céu, as coisas se bagunçam.

A narrativa de Os Imortais se passa durante o período paleolítico e segue um clã de neandertais durante alguns anos. Entre a travessia de charcos, planícies, florestas, montanhas e descampados, o grupo de cerca de 20 pessoas, tendo o Homem, a Mulher e a Velha como principais lideranças, luta contra a fome e o clima, em busca da caça muito escassa, e cuida do fogo, quase um deus. No meio da travessia esbarram em outro grupo: os homo sapiens, que, diferente deles, usam penas de pássaros nas vestes e pintam cavalos nas paredes das cavernas, mas que também jogam pedaços merda naqueles que lhes contrariam, como o pior dos xingamentos. Apesar da falta de tanta coisa, a raiva a partir da diferença já está lá e o conflito termina com uma bebê sapiens integrada ao clã neandertal. Anos depois, a menina precisa lidar com o estigma e enfrentar a ira do pequeno, um novo líder que emerge no grupo. 

Há mais dúvidas do que respostas quando se trata do paleolítico, mas não é assim que se faz uma epopeia? O filósofo Lucien Goldmann, parafraseando Lukács, relembra que a forma da epopéia “expressa a adequação da alma e do mundo, do interior e do exterior, o universo em que as respostas estão presentes antes que as perguntas sejam formuladas, onde há perigos, mas não ameaças, sombras, mas não escuridão, onde o significado está implícito em todos os aspectos da vida e exige apenas ser formulado e não descoberto”. As coisas acontecem antes de serem nomeadas. 

O Homem não sabe o motivo que o deixa triste durante a travessia do clã que lidera, tão triste ao ponto de não querer caçar javalis e de preferir se afastar da ação e do conflito, da sua virilidade. Há um buraco no Homem, mas ele nem sabe do que sente falta, ele vivencia essa falta e a confronta radicalmente no terceiro ato. O que ele percebe há muito tempo é o peso da liderança, é o senso de comunidade: “por um instante, a mão que segura a lança vacila, a garganta entala, mas ele insiste. Se se apiedar do estrangeiro, falhará. Se sentir a dor dos outros, falhará. Agora ele não é um homem, é o clã. Sua vontade não é a vontade de um homem, é a vontade do clã. De súbito, trava os dentes e salta, cravando a lança no guarda sem arremessar, como quem usasse um chuço”. 

Apesar de compor essa rede de personagens escavados das pinturas rupestres e das cavernas antigas, o Homem vive num estado de melancolia que, em contraponto, reflete seus sucessores, os primeiros heróis, aqueles, que ao contrário dele, viveram e morreram em busca da fama (ideia que no romance tem sua gênese no personagem do menino, o vilão da história). Cansado das mortes que se amontoam pelo caminho, o Homem se encontra dividido entre abandonar a caça de javalis e o conflito com os sapiens ou continuar as incursões em busca dos cavalos, que aqui são alimento, esperança e força proto-religiosa. Escondendo esse conflito interno de seus companheiros, principalmente da Mulher, o Homem parece guardar dentro de si o início da Ilíada: a briga entre dois gigantes que trava a guerra e antecede uma série de tragédias. Apesar da ausência da fala, pois “não são necessárias palavras para esse enfrentamento — os sobrecenhos crispados, os ombros duros e as bocas rijas dizem o suficiente”, de modo muito claro, não como uma metáfora obscura, o Homem é um tablado de onde lutam ferozmente Aquiles e Agamêmnon. 

“O romance funciona mais como uma história de aventuras do que como um documentário, Paulliny Tort não deve nada à ciência, pelo contrário: sua precisão se ancora no tempo suspenso da epopeia, nos nossos sonhos mais antigos.”
Lucas Litrento sobre “Os imortais”

Mais que a Velha e outros personagens idosos do livro, o Homem parece simbolizar a antiguidade da antiguidade, como se houvesse muita coisa anterior ao que está sendo narrado. Entre memórias de uma infância remota e de um passado áureo, cheio de fartura e longe das doenças mortais que agora assolam o clã, Tort constrói um personagem que começa como um protagonista em crise, o típico herói do romance, apesar do período histórico, e vai se tornando uma presença coadjuvante em relação a duas personagens igualmente complexas e modernas: a Mulher e a menina sapiens, que ao longo do livro se torna a grande protagonista. A princípio e durante boa parte do segundo ato do romance, esse afastamento do Homem me pareceu enfraquecer a narrativa, mas a autora conduz os personagens de modo certeiro e consegue trabalhar a ausência tão bem de modo que os personagens ressurgem como uma flecha.

A Mulher, uma das principais lideranças do clã, além de guerreira é portadora do fogo, quase uma liderança espiritual, tarefa que cabe somente às mulheres. A responsabilidade é muito grande, pois “caso o Fogo se sinta desconsiderado, abandonará o cerne das coisas, e as coisas perecerão, e imporá a fome, as catástrofes, as doenças, pois todo aquele que tudo dá tudo tira”. Além disso, como o Yanomami que acorda cansado após ter caçado uma onça enquanto sonhava, ela percorre as barreiras desse outro mundo com muita facilidade e naturalidade e depois “desprega as pálpebras, esfrega o rosto, dissolvendo o Sonho”. Sábia e ainda longe da velhice, a Mulher também sente o peso incontornável da coletividade.  

Sempre atenta ao que acontece no clã, ela percebe a melancolia e o afastamento do Homem, os preconceitos da Velha e a fúria destruidora do menino. Sob um equilíbrio de atenção e violência, a personagem também carrega um drama pessoal: não deseja ser mãe. Ela vê na maternidade o fim das suas motivações, do seu trabalho. Em mais um aceno aos clássicos, nesse caso à tragédia grega, Tort molda a personagem da Mulher ao redor do destino, pois ela se tonará a mãe da menina sapiens, o que não acontece de maneira simples.

A menina também carrega arquétipos de outros jovens que viriam a moldar a narrativa clássica. Diferente de todos que a rodeiam e que formam a sua família, ela não encontra palavras, mas apenas a angústia de ser do jeito que é. “De perfil, acha que o rosto parece uma pedra achatada, que os olhos são rasos demais, que o cabelo é esquisito. Talvez estejam certos, talvez seja mesmo muito feia. Horrorosa.” Talvez seu olhar de fora, de “estrangeirinha” como diz o narrador em discurso indireto livre da Velha, a faça entender melhor tanto o Homem quanto a Mulher, seu núcleo familiar tortuoso. Ainda assim, não vemos exatamente pelos olhos dela, pois assim como seus pares, a menina também é carente de muitas palavras.

Seu dilema surge mais da segunda metade pro fim do romance, quando o menino, já liderando o clã, sequestra um homem sapiens e o transforma em escravo. A presença de outro indivíduo da sua espécie balança ainda mais os sentimentos conflituosos da menina com o seu clã. O que piora ainda mais quando é atacada pelo menino, personagem que reúne toda a raiva e a violência da guerra, toda a fúria da juventude que se esvaiu há muito tempo da cabeça do Homem. Antes do canto da musa, a ira já corria nas veias dos homens ancestrais dos nossos ancestrais. Em paralelo, todas as mulheres do romance também parecem dialogar e responder diretamente à violência dos tempos de hoje.

Como ainda não sabem falar, ou falam de uma maneira misteriosa frente à nossa linguagem, os personagens não têm diálogos diretos. Deixando de lado tanto os travessões quanto as aspas, Tort mistura as sugestões de falas com os pensamentos dos personagens sob o domínio de um narrador em terceira pessoa que fala entre uma distância temporal natural a um contador de histórias e um discurso indireto livre típico do romance moderno. Esse narrador faz o movimento duplo de acenar para o leitor (“embora ninguém saiba contar, são doze cavalos. São doze inacreditáveis cavalos”, “o último homem sapiens continua caído entre os arbustos” e “corre assombrada por essas lembranças, por esses flashs de memórias”) e para os entendimentos muitos próprios dos seus personagens (“é a morte, mas parece uma brincadeira” e  “poderia fazer um esforço, um empenho de comunicação para tentar descobrir o que ele anda a remoer, o que ele anda a triturar por dentro, mas, em vez disso, se inclina e toca com cuidado os seus olhos, com os polegares”).

É uma terceira pessoa engenhosa e sem medo do artifício, se aproximando até certo ponto da comunicabilidade entre essas personagens de uma cultura ainda em gestação sem se furtar de termos científicos e do nosso cotidiano. O resultado é uma linguagem solta, que se aproxima da concretude oral dos clássicos e das mitologias.

Em uma das imagens mais bonitas do romance, ao enterrar uma personagem de destaque, os neandertais não cavam o suficiente, o corpo ainda fica à mostra depois que jogam a terra. Até que eles começam a empilhar pedras em cima do monte, formando uma lápide que se camufla na imensidão da natureza intocada. Apesar da cerimônia, esse mesmo clã abandonou e jogou corpos dos inimigos sapiens no meio do vale. É como se desse pra ver o nascimento da cultura e da linguagem no gesto fúnebre de um enterro, pois “o que caracteriza a espécie humana é justamente cercar o cadáver de algo que constitua uma sepultura, de sustentar o fato de que isso durou. A lápide ou qualquer outro sinal de sepultura merece exatamente o nome de ‘símbolo’. É algo humanizante”, afirma Lacan.

Como se investigasse nas descobertas arqueológicas e em outras pesquisas científicas um mito anterior a Homero, Enheduana e Moisés, a autora constrói uma jornada que, de tão simples e concisa, mais parece uma espécie de esqueleto narrativo dos clássicos que lhe serviram de base. O romance funciona mais como uma história de aventuras do que como um documentário, Paulliny Tort não deve nada à ciência, pelo contrário: sua precisão se ancora no tempo suspenso da epopeia, nos nossos sonhos mais antigos.

Os Imortais é, desde a sua concepção, um corpo estranho entre os romances publicados em grandes casas editoriais e que chegam nas feiras e revistas literárias. Por não depender de demandas urgentes, a autora joga seus personagens em um espaço que de tão livre parece onírico e comum a todos nós: uma travessia sem tempo nem destino, onde a luta pela sobrevivência é o que move cada músculo. 

Os imortais, de Paulliny Tort/ Fósforo, 2026/ 232 pp.