Crítica

Esse microespaço onde a vida luta e comemora: crítica de ‘Ladeira da Preguiça’, de Evanilton Gonçalves

Ladeira da Preguiça apresenta os marginalizados da cidade do carnaval como protagonistas de suas próprias narrativas. São essas vozes que constroem a relação duradoura com este livro.

Fotos de Davi Boaventura.


Eu me lembro

A memória é uma vasta ferida.
Chico Buarque

Neurocientistas da Universidade de Southampton demonstraram que recordar o passado com afeto ativa regiões cerebrais ligadas à esperança, e não à tristeza. Assim, a nostalgia não se confunde com a melancolia: trata-se de uma forma de recarregar o sentido.

Talvez por isso tantos escritores iniciem seus livros com a fórmula “lembro-me…”. Eu me lembro tanto. Não sei ao certo se foi um sonho, mas tenho cá minhas desconfialidades — como o povo de minha infância chamava a habilidade treinada de desconfiar; o povo da minha rua, lá em Sete de Abril. Por isso, aposto que é lembrança.

Sonhei que flutuava pelas ruas de Salvador. O cheiro do mar vencia tudo. Abri os olhos e estava no centro da novela Ladeira da Preguiça, de Evanilton Gonçalves, publicada pela Editora Todavia. Estava ali com Zigue e Adelaide. A noite já caía, e algumas pessoas desciam do Campo Grande para continuar curtindo, na Ladeira, o finalzinho daquele 30 de novembro, data da XVIII Caminhada Nacional do Samba. Eu me via sem conseguir controlar o corpo: caminhando e sendo caminhado.

Zigue ainda não havia levado o tiro e sorria dentro do mistério que é sentir, mesmo quando todos investem contra nós. Havia um calor que subia das pedras, uma força bruta ainda sem justificativa. Não chovia. Uma tensão se instalara no ar.

Dois casais cortaram nosso caminho, misturando-se à multidão. Derramaram sobre os cabelos, na embriaguez inteira do dia, garrafas de Bling H2O. Um fio de suor descia pelo meu rosto até alcançar o peito. Zigue receberia um tiro. Eu não conseguia parar de pensar nisso. O coração. O coração e a Ladeira. O abafamento. A água.

De repente, choveu. E, com os pés descalços, sentindo sangue e poeira como símbolos que não se resolvem, abri os braços. Num tempo antigo e real, ali, entre o asfalto e o mar da Bahia, choveu a augurar um sonho.

O sonho é um lugar de augúrio

Uma vida não basta ser apenas vivida: também precisa ser sonhada.
Mario Quintana

É impressionante como um livro pode remontar alguém por inteiro e agir nas entrelinhas do silêncio, colocando nos trilhos um caminho que sempre foi seu, mas que os encaixes e desencaixes da realidade acabaram por adiar. As águas rolam, seguem a corrente.

Foi assim que me encontrei ao terminar a primeira leitura de Ladeira da Preguiça. Estamos diante de um pequeno grande mundo: uma novela capaz de dialogar com aspectos históricos de um lugar e, sobretudo, de construir um discurso atual e político, tão necessário para atualizar o romantismo cristalizado da cidade de Jorge Amado. Um olhar de festa, sim — afinal, estamos aqui, mas também de reação.

A obra costura em nós uma geografia consciente: de onde viemos, de que barro foram moldadas nossas passadas e aquelas que vieram antes de nós, e que hoje usamos para calçar os pés. Com uma escrita de requintes jornalísticos, didáticos, analíticos e poéticos, Evanilton entrega o retrato de uma Salvador personificada, que fala por meio de suas ruas, ladeiras, corpos e histórias marginalizadas — habitantes de suas próprias entranhas.

Parto de Frantz Fanon e de uma ideia recorrente em seus estudos sobre a psicopatologia da colonização: “os oprimidos tendem a acreditar no pior sobre si mesmos”. Tal noção permite pensar os mecanismos da internalização da opressão, processo pelo qual a imagem negativa projetada sobre o sujeito oprimido, ao longo do tempo, é incorporada como verdade. Soma-se a isso o que Fanon identifica como auto-ódio, quando a máquina social leva o sujeito a rejeitar suas próprias características, cultura e identidade.

Evanilton Gonçalves, autor de Ladeira da Preguiça. Foto de Davi Boaventura (revista O Odisseu)

Essa reflexão dialoga diretamente com o que afirma Paulo Freire em Pedagogia do oprimido: que o oprimido hospeda o opressor dentro de si. Instala-se, então, um travamento diante da vida — uma desconfiança permanente de si mesmo e dos semelhantes.

Ao dar voz a personagens como Adelaide e Zigue, Evanilton tensiona a imagem de uma Salvador turística, gentrificada e capturada pela especulação imobiliária. Revela, assim, camadas de uma história que coexiste, mas frequentemente é silenciada pelo discurso oficial. Ladeira da Preguiça apresenta os marginalizados da cidade do carnaval como protagonistas de suas próprias narrativas. São essas vozes que constroem a relação duradoura com este livro.

Evanilton Gonçalves, autor de Ladeira da Preguiça. Foto de Davi Boaventura (revista O Odisseu)

É por meio de Zigue, Adelaide e outros personagens que lemos os oprimidos reagindo à violência que, desde sempre, se abate sobre seus corpos — corpos que são, simultaneamente, trincheira e memória. Com eles, aprendemos que a vida continua mesmo depois da morte.

Em um dos recortes possíveis da novela, Zigue caminha pelas ruas catando latas, enquanto Adelaide lava carros nos arredores da Ladeira. Trabalhos informais, precários, mas essenciais à manutenção da vida cotidiana. Michel de Certeau, em A invenção do cotidiano, descreve tais práticas como “táticas” e “estratégias”: modos de resistência e de reconfiguração do espaço imposto.

E é assim também que a leitura aciona a memória. O tempo retorna e revela modelos que seguem se reconfigurando na Salvador de hoje. Parentes, vizinhos, conhecidos — tudo reverbera como forma de sobrevivência. Trata-se de um espaço vivido, onde subjetividades se entrelaçam à geografia física: casarões coloniais reinventados ou abandonados, ruas de pedra, fontes históricas que ainda hoje servem para lavar roupas e banhar corpos, como se o tempo tivesse suspendido seu curso.

Outro recorte possível é pensar a Ladeira a partir de Henri Lefebvre, em A produção do espaço, não apenas como cenário, mas como espaço socialmente produzido, onde relações de poder e resistência se manifestam: “o espaço percebido, o espaço concebido e o espaço vivido intervêm de maneira diferencial na produção do espaço social”.

A curadoria de Ladeira da Preguiça é feita por um autor atento e sensível ao seu tempo. Sua escrita nasce da crueza de uma esperança cultivada na vida concreta. Uma gente que não deixa de acreditar, mesmo depois da dor, ou durante ela.

Isso se revela quando Zigue é atravessado pela morte, deixando Adelaide com um vazio no centro da existência. Aos poucos, porém, o movimento da Ladeira — seus moradores, seus fluxos — desloca a tristeza, devolvendo-lhe o direito de reorganizar a fé. A vida segue, apresentando novas possibilidades de amor.

Assim, deixo-me água. Penso. Sinto a corrente que escorre pelas páginas. São águas de outras águas, de outras eras, conduzidas pela mesma força hereditária. Águas que descem a Ladeira da Preguiça e nos ensinam: o que permanece é forte porque segue e sonha, sem permitir que morra a vontade de sonhar.

Ladeira da Preguiça, de Evanilton Gonçalves
Editora Todavia, 2025
72 pp.

Crítica publicada originalmente no n26 da revista O Odisseu. Clique na capa para lera edição completa.