Teatro

5 dramaturgias brasileiras contemporâneas para quem deseja começar a ler teatro por Rodrigo Nascimento

Pensando em celebrar o Dia Mundial do Teatro, convidamos o professor Rodrigo Nascimento (UFBA) para indicar 5 dramaturgias brasileiras essenciais para quem deseja começar a ler teatro.

Foto: Grace Passô em ‘Carne Vaga’ (Reprodução).


Vaga Carne, de Grace Passô (Javali Editora, 2021)

Dramaturga decisiva na cena contemporânea, a mineira Grace Passô assinou peças premiadas. Vaga Carne é concebida como o solo de uma voz sem corpo que atravessa coisas, seres, tempos e espaços, mas por fim passa a habitar o corpo de uma mulher negra. Marcada por um jogo formal estrutural típico de sua poética – que mobiliza estratégias de desfamiliarização e de estranhamento – esta dramaturgia de Grace Passô põe em relevo os impasses da representação. Coloca em suspenso ou problematiza frontalmente estereótipos e reduções políticas. Afinal, como ocupar, classificar ou explicar um corpo com palavras? 

Neste mundo louco, nesta noite brilhante, de Silvia Gomez (Javali Editora, 2023)

Nesta peça, de uma dramaturga já conhecida por fugir dos enquadramentos dramáticos convencionais, a mineira Silvia Gomez apresenta um fato violento e abominável: uma mulher passa por um estupro coletivo e é deixada em uma rodovia abandonada. Uma vigia noturna a encontra e, a partir daí, todo o drama se estrutura em torno de um delírio a um só tempo doloroso e poético. Fora de qualquer realismo estreito ou de qualquer lógica dramática convencional, os diálogos navegam entre o dado sociológico, a alucinação e o sonho, gerando, ao final, um poderoso efeito político de conjunto.

Tybyra – uma tragédia indígena brasileira, de Juão Nyn (Selo do Burro, 2020)

Esta dramaturgia do multiartista potiguara Juaõ Nyn é uma ficcionalização a partir de um fato histórico: o primeiro caso registrado de LGBTfobia no Brasil, em que um indígena tupinambá acusado de sodomia foi executado com tiros de canhão em São Luís do Maranhão, em 1614. A peça (que na primeira publicação em livro faz par com a tradução para o tupi-guarani moderno) é toda feita de um diálogo virtual com outro que não se ouve (seria o colonizador? Seríamos nós, leitores/espectadores até então cúmplices da barbárie?). Em sua tessitura, incorpora falares nordestinos e palavras indígenas, num jogo poderoso de problematização do discurso do colonizador, até então o único responsável pela veiculação da versão dos fatos tida como oficial. 

Cárcere ou porque as mulheres viram búfalos, de Dione Carlos (Javali Editora, 2024)

Nascida no Rio de Janeiro, Dione Carlos é uma aclamada dramaturga e roteirista. Nesta peça premiada, resultado de um processo cênico com a Cia de Teatro Heliópolis, ela congrega elementos épicos e dramáticos para dar agudeza a um drama familiar que é, ao mesmo tempo, profundamente social e histórico: duas irmãs gêmeas, Maria das Dores e Maria dos Prazeres precisam lidar com o encarceramento injusto do filho de Maria das Dores. Recorrendo ao coro e à intervenção contundente da figura arquetípica de Iansã, a ação no presente se costura à reflexão aguda sobre o encarceramento em massa da população negra e a luta cotidiana e aguerrida de mulheres negras periféricas. 

Agreste, de Newton Moreno (IMSP, 2009)

Nascido em Pernambuco, o dramaturgo Newton Moreno é conhecido por integrar de maneira muito sofisticada temas do cotidiano popular com questões que têm nos interessado diretamente na contemporaneidade. Nesta peça, um casal sertanejo busca proteger seu amor no mais recôndito sertão, mas se vê encurralado pela população local, que descobre no dia do enterro que o marido é, na verdade, uma mulher. Os temas da homoafetividade e da travestilidade estão em íntima sintonia com a forma experimental do drama, em que um narrador costura de maneira poética a dimensão da ação no presente com os planos mítico e psíquico das personagens. Formas do passado que não passa se veem, portanto, friccionadas por fabulações poéticas sobre formas outras de existência.


Rodrigo Alves do Nascimento é professor de Teoria da Literatura e Teoria do Drama na Universidade Federal da Bahia. É autor de Tchékhov e os Palcos Brasileiros (Perspectiva, 2018), editor e membro da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT.