Velô da Dicção

A fundação da literatura brasileira do século XXI: Cidade de Deus e a ética da violência invasora

A trama de Cidade de Deus é leitura do drama real de Cidade de Deus nos mostrando o que acontece quando linguagem falta, a fala falha e a bala fala.

Texto de Paulo Scott e Danichi Hausen Mizoguchi. Este ensaio parte da tese de doutorado em Psicologia de Paulo Scott, defendida na Universidade Federal Fluminense em dezembro de 2025 e intitulada A ética da violência invasora no romance Cidade de Deus.

Imagem do filme ‘Cidade de Deus’, de Fernando Meirelles e Kátia Lund (2002).


Em sua Confissão criadora, Paul Klee determina que a “arte não reproduz o visível, mas torna visível”. Esse regime estético-político de visualidade, em uma mirada mais apressada, poderia ser entendido como prerrogativa exclusiva da pintura. Porém, compreendido em seu sentido mais amplo, diz respeito a outras modulações expressivas do campo da criação artística. Determinadas obras literárias, por exemplo, conseguem transmutar o volume de linguagem que nos faz nomear, renomear, desvelar e entender nossa realidade. A partir de um jogo de dizibilidade, acoplam-se a visibilidades e findam por criar outras lentes de percepção, outras sensibilidades: outros modos de estar no mundo.

Dispostas ao imaginário, não recusando o estabelecer de novas incertezas em relação às simbologias normalizadas e normalizadoras de uma sociedade global e local que sustenta sua ordem, suas estabilidades, a partir da desigualdade socioeconômica, afetam, comovem, sensibilizam, provocam paixão e constituem um imaginário-operante que abarcará a própria realidade, interferindo na leitura que doravante se fará dela. Por isso as narrativas literárias e a consideração de seus elementos são tão úteis ao escrutínio e ao desvio da barbárie, inclusive aquelas assumidas pelas institucionalidades. 

A literatura brasileira contemporânea, sobretudo a partir da segunda década do século XXI, tem sido especialmente exitosa na tarefa de atualizar as complexidades relacionadas à exclusão social estrutural de nosso país. Nesse sentido, gostaríamos de entender Cidade de Deus, de Paulo Lins, publicado em 1997, como um marco inaugural avant la lettre da literatura brasileira que virá a se posicionar e se expandir no século XXI a partir do assentamento de determinadas autorias e protagonismos anteriormente marginalizados pelo mercado dos livros, pela imprensa especializada e até pela academia, em lugares menos excêntricos, mais aproximados dos centros validadores da cena literária.

A comunidade Cidade de Deus surge em meados da década de 1960 de uma opção política-urbanística de quase confinamento de uma população para que não tenha o direito ou a condição de atrapalhar a vida da burguesia carioca, o gozo colonial de uma elite que, no romance Cidade de Deus, não participa explicitamente da narrativa, nem sequer como conjunto de personagens obliquamente comunicantes com o jogo de morte realizado pelas personagens masculinas marginalizadas que o protagonizam, mas que o produz, coordena-o por meio da atuação mortífera da máquina estatal que, quando não se omite, age para discriminar, segregar, age para desumanizar, age para matar, como na caótica e destrutiva presença policial trazendo para o enredo da exclusão social suas próprias violências, seus próprios medos e paranoias, trazendo e espalhando seus próprios desastres.

Cidades de Deus é, simultaneamente, lugar e personagem do livro de Paulo Lins. A voz narrativa em terceira pessoa se coloca dentro da espacialidade que está sendo narrada: em sua interessante flutuabilidade, cabe reconhecê-la como sendo a voz do território, ou da terra, da própria comunidade ou do próprio Rio de Janeiro. Não é descabida, afinal, a leitura de ser Cidade de Deus a voz narradora da obra de Paulo Lins. Destacam-se, através dela, a renovação de uma reformulação urbanística delineadora da opressão, a passagem da preponderância dos crimes de furto e assalto para o tráfico de drogas, a ampliação da influência religiosa neopentecostal no país, a cristalização de uma fórmula de gentrificação, o aumento da violência policial que levaria ao surgimento dos grupos de extermínio e os primeiros passos do crime organizado – tudo isso em um contexto histórico de ditadura empresarial-militar no plano nacional. Em suma, a confirmação do êxito da inércia de violência decorrente da ambição de saque desta terra – e que, uma vez instaurada jamais se desfez. 

Paulo Lins, autor de Cidade de Deus. Foto: Reprodução.

Lins transfigura para a narrativa longa singularidades que, no itinerário histórico de nossos conflitos sociais, fizeram a experiência urbanística da Cidade de Deus, de meados da década de 1960 até o início dos anos 1980, arco temporal do livro, um intenso palco de expressões de violência colonial e de resistência. Cidade de Deus, claro, está no extremo oposto da elite e seus privilégios. Essa elite dita a luz que será a luz para todo o resto, sabendo que, diante de sua violência, força e poder, tudo é seu palco, é seu tabuleiro, é sua arena, é sua posse, onde atuam e se encadeiam seus estamentos, suas institucionalidades capitãs do mato, a garantir as muitas camadas e sombras de obediência aos desígnios decorrentes de sua perpétua ambição. O Estado, enfim, promove, pela desorganização atávica das instituições típicas da colonialidade, mais instabilidade e mais caos e, assim, justifica a necropolítica duradoura em nós e entre nós.

A história, sob a perspectiva da repressão ostensiva a corpos subalternizados pela ação ou omissão dos agentes de segurança do Estado, enfoca um tempo em que não havia os controles tecnológicos de vigilância que, acelerando controles que já eram possíveis desde o século XIX, foi tomado por nomes, e variantes conceituais, diversos, como, por exemplo, o de capitalismo de vigilância que se expandiram a partir do século XXI, aumentando significativamente a rastreabilidade das ações, dos movimentos, sejam eles de que natureza for.

Por esse motivo também assume um caráter ficcional-documental importante. Ao enfocar, de maneira superlativa, um tipo de violência que repercutirá sobre o modelo civilizatório que a envolve, o romance Cidade de Deus produz sobre nós esse “tremor de sentidos”, ofertando uma leitura, um vínculo comovente, que jamais se repetirá em outra obra literária em um país que, durante o século XX, teve tão poucos registros amplamente circulando de autorias periféricas e de imersão na violência urbana com a magnitude que há em Cidade de Deus. É claro que já havia, apenas para citar dois exemplos grandiloquentes, Lima Barreto e Carolina Maria de Jesus. Porém, quase factualmente, ao criar sua própria coerência, sua própria mitologia, sua própria verdade – verdade que possibilitará perenidade, releituras e assombros aptos a impactar a linguagem de modo a ampliar o espaço para que novas obras literárias entrem no horizonte gerado por sua novidade disruptiva – Cidade de Deus cumpre certa função de pedra angular. Por certas peculiaridades de linguagem, da estrutura com muitos arcos narrativos e muitos núcleos dramáticos, dos protagonismos, pela agilidade brutal, o romance finda por explicitar as idiossincrasias da maquinaria social afetada por aquilo que começamos a chamar de ética da violência invasora.

“A trama de Cidade de Deus é leitura do drama real de Cidade de Deus”

A ética da violência invasora – a ambição de tomar posse e espoliar perpetuamente que se faz tomar por aceitável solução de mundo, algo que os recentes arroubos estadunidenses na Venezuela e no Irã explicitam ruidosamente, e que, de variadas maneiras, é marca da macro e da micropolítica brasileira desde 1500 – está compreendida dentro da noção de colonialidade. Do grito de terra à vista até o momento eternamente repetido do apossamento da terra, dá-se a tarefa de investigá-la, de apreendê-la, de inventariá-la, para poder controlá-la, saqueá-la e torná-la incomunicável com os parâmetros de dignidade humana toleráveis no território europeu. Assim, o invasor será personagem distópica que se enxerga e se impõe infinitamente como a única personagem portadora do desejo que movimentará a narrativa, um desejo, como diria Frantz Fanon, que é gênese de um espaço ético que desencadeará a brutalidade a ser exercida, pela força e poder que a sustentam, contra todas as demais personagens, que se tornarão subalternizadas.

A invasão, afinal, é eterna porque dispõe de uma violência que se postará como instrumento estabilizador de uma ambição eterna. Nesse quadro, o invasor é a presença que sustenta, por seu poder, por sua força, por sua violência, uma projeção assertiva de mundo, um sonho de mundo, arrogando para si próprio a soberana condição de agente ético. Nesse lugar que absorve a violência como maneira de funcionar, a ética da violência invasora induz um forçado concerto de desencantos. O manuseio entristecido dos sonhos e dos desejos é parte do êxito dessa continuidade. 

Também por isso, o modelo de ordem social e econômica brasileiro, em lugar muito distinto dos privilégios das poucas subjetividades que se beneficiam da invasão, demanda a existência de espaços de caos, medo e deterioração da cidadania, que configuram um permanente estado de terror e regem o funcionamento do território demarcado para ser espaço de violência contínua e naturalizada. Diante desta história ainda presente, a voz poética, intrusa, superlativa, julgadora, delirante, sobrevivente, faz de Cidade de Deus um marco da cultura brasileira contemporânea, podendo, justamente pelo tanto que pode nos afetar, ser tomada como lente organizadora da leitura das linguagens da complexa realidade brasileira: o romance faz ver, como intuiu Paul Klee. O ritmo angustiante que marca a dicção da voz narradora, sob um inarredável tom trágico, transfigura a realidade, entrega linguagens e lentes que as linguagens e as lentes da realidade sem a abordagem delirante da literatura jamais poderiam entregar, e nos impressiona, nos assusta, nos comove, nos afeta. A trama de Cidade de Deus é leitura do drama real de Cidade de Deus nos mostrando o que acontece quando linguagem falta, a fala falha e a bala fala. 

Lins inventa linguagem, expande léxico e funda com seu romance a literatura brasileira do século XXI: dá elasticidade, fricção e dicção para que possamos nomear maldades e esperanças, tristezas e alegrias, horrores e redenções, que, sem a sua sensibilidade poética, sem a sua contação-griô, não conseguíamos nomear antes, linguagem para que pudéssemos sentir e compreender melhor o que aconteceu e o que acontece no Rio de Janeiro e em todas as territorialidades visadas pela necropolítica no Brasil – e essa é uma das funções mais importantes da grande literatura, escrutinando, fabulosamente, o entendimento do que é a humanidade na capital da escravização moderna: o Rio de Janeiro. Nessa perspectiva, apresenta elementos para que possamos compreender o que é ser dissolvido – ser dissolvido é desaparecer dentro da violência, é ser inutilizado pela violência – ou sintetizado – ser sintetizado é diferente, é ser aproveitado pela violência, como ocorre com os que acabam somando violência sobre a violência, sejam os policiais sejam os ditos fora-da-lei.

O romance expõe, assim, a estética que contém o extremo oposto ao do polo socioeconômico de irradiação da ética da violência invasora, o clube privê que contempla menos de um por cento da população do país, e o impacto de toda sua violência. Por ser resultado e, ao mesmo tempo, combustível, elemento amplificador de sua tragédia, recepciona e desvia o destino traçado pela ambição invasora. No limite, ela permite a formulação de um crivo para romances brasileiros contemporâneos em que a idiossincrática violência socioeconômica de nosso país tome lugar: espalhar linguagem de combate às territorialidades de terror e seu permanente estado de exceção, confrontando a inércia da colonialidade e o que nela se desfaz proposital e justamente para não ser superado pelo debate e pela ousadia de querer um novo sonhar. De uma forma ou de outra, todas as pessoas presentes em Cidade de Deus, enquanto estiverem vivas e preservadas em sua determinação de resistir estarão nesse grupo das subjetividades que resistem diante da ética da violência invasora.

Publicado postumamente em 1988, Seis propostas para o próximo milênio reúne as conferências que Italo Calvino preparou para a Universidade de Harvard a fim de apresentar seis valores literários fundamentais para o século XXI. O escritor italiano refletia acerca das qualidades que a literatura deveria preservar diante das transformações tecnológicas, culturais e sociais do novo milênio. Nem de longe este é o nosso interesse aqui. Todavia, naquilo que nos toca, nos interessa, nos constrange, nos incomoda e nos deslumbra em um país como o Brasil, gostaríamos de lembrar que se há certa saúde atrevidamente posta diante da eterna hegemonia invasora naquilo que temos construído nas narrativas curtas, nas narrativas longas e na poesia nacional hoje, essa saúde vem do assentamento de um outro jogo visual e de um outro regime de dizibilidade em cuja gênese está Cidade de Deus: sua realidade, seus dilemas, sua necessidade de reconhecimento e de afeto, de futuro e de felicidade.

Cidade de Deus, de Paulo Lins/ Editora TusQuets/ 400pp.

Paulo Scott é autor de nove livros de poemas – os mais recentes são “Sanduíche de Anzóis” (Alfaguara, 2025), “Luz dos monstros” (Aboio, 2022), “Se o mundo é redondo e outros poemas” (Lisboa: Gato Bravo, 2020),  “Garopaba Monstro Tubarão” (Selo Demônio Negro, 2019) e “Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo” (Companhia das Letras, 2014), livro vencedor do Prêmio da APCA 2014 , seis de prosa – dentre eles o livro de contos “Ainda orangotangos” (Livros do Mal, 2003; Editora Bertrand Brasil, 2007, republicação), adaptado para o cinema pelo diretor Gustavo Spolidoro, longa-metragem vencedor do 13º Festival de Cinema de Milão, e os romances “Habitante irreal” (Alfaguara, 2011), livro vencedor do Prêmio Machado de Assis 2012, da Fundação Biblioteca Nacional, lançado também na Alemanha, Portugal, Inglaterra, Estados Unidos e Croácia, “O ano em que vivi de literatura” (Editora Foz, 2015), livro vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura 2016, e “Marrom e Amarelo” (Alfaguara, 2019), livro vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura 2020, livro finalista do International Booker Prize 2022, livro vencedor do Prêmio Jabuti de Livro Brasileiro Publicado no Exterior 2023 – e uma dramaturgia – “Crucial Dois Um” (Cobogó, 2023)