
Ganho quando perco
Ganho quando perco porque o buraco que fica em mim a partir da perda me faz querer achar de volta essa coisa perdida. Ando, corro, me despedaço até perder o rumo em busca dessa coisa que tinha certeza que era minha e que de repente não está mais à vista.
Imagem: Carta A Torre (XVI) no tarot. Reprodução.
Felizmente, tenho perdido. Venho perdendo o timing, e aí perco os modos e quando me dou conta já perdi a vergonha: peço o que quero e para ter o que quero faço o que posso, menos perder o réu primário.
São tantas as perdas que o medo de perder também foi se perdendo. O maior deles, o de perder um dente, já perdeu o sentido. O meu maior medo atualmente é o de perder a chance, qualquer que seja, de poder perder, nem que seja alguma coisinha.
Chego exausto em casa depois de um dia longo, me vejo no espelho e noto que já não estou inteiro, algo caiu e se perdeu por aí, no ônibus ou no elevador, e agora essa coisinha que perdi vai e volta, num ciclo eterno. Com sorte, a coisa que perdi caiu na rua e com a chuva dos últimos dias foi empurrada para aquela água que corre entre o asfalto e o passeio. Minha coisinha perdida a essa hora talvez esteja em algum rio subterrâneo e em breve estará no Pinheiros ou então no Tietê. Com ainda mais sorte, minha perda estará no mar daqui a algum tempo.
Perder é fundamentalmente um êxito de quem é proprietário de alguma coisa, por direito, investimento ou golpe. Em 33 anos eu roubei muita coisa, peguei emprestado e jamais devolvi trejeitos, palavras e piadas de muita gente.
Quanto mais posses eu acumulo, mais posso perder. Nem sempre perco, é verdade, às vezes redivido e redistribuo, sem a certeza de que um dia terei tudo de volta, mas mantenho viva a esperança de que vou reencontrar o que perdi. Um dia, daqui a algum tempo, num banho de mar vou engolir um pouco d’água, porque sempre engulo, e aí vou beber um gole daquela coisa que naquele dia eu perdi no dia em que voltei cansado do trabalho.
Ganho quando perco porque o buraco que fica em mim a partir da perda me faz querer achar de volta essa coisa perdida. Ando, corro, me despedaço até perder o rumo em busca dessa coisa que tinha certeza que era minha e que de repente não está mais à vista.
Não é o acúmulo que me faz ganhar, percebi. É justamente quando me sinto recheado de uma falta absoluta que me torno um ganhador-perdedor. Só depois da guerra perdida, quando minha terra é levada e os meus tesouros são saqueados que, enfim, posso dizer: tinha, não tenho mais. Perdi.

