
O amor (?) à imagem em ‘Narciso’, novo filme de Jeferson De
Em Narciso, de Jeferson De, que estreia hoje nos cinemas, há pelo menos duas imagens em jogo: a imagem que o jovem negro tende a rejeitar quando olha no espelho e a imagem de violência em torno das pessoas negras que o audiovisual tanto alimenta.
Foto: Divulgação.
Aconteceu no dia 4 de março, no Cine Glauber Rocha, em Salvador, uma pré-exibição de Narciso, novo longa-metragem do diretor Jeferson De (M8 – Quando a morte socorre a vida, 2019), que também esteve presente para debater com o público. O filme, que estreia no dia 19 de março, apresenta uma releitura do mito grego homônimo e expande o curta-metragem do mesmo diretor, Narciso Rap, lançado em 2004. A narrativa acompanha o personagem-título, interpretado por Arthur Ferreira (Nosso Sonho, 2023), um adolescente negro órfão que, após ser devolvido por pais adotivos, retorna a um lar temporário sob a tutela do casal de irmãos Carmem (Ju Colombo) e Joaquim (Bukassa Kabengele), enquanto sonha com uma imagem idealizada de família. Uma pausa rápida, para destacar a impressionante atuação de Kabengele, que consegue trazer uma sensibilidade ímpar. Ele protagoniza uma cena de choro que nem mesmo estava no roteiro, mas através da qual consegue falar muita coisa sem dizer uma só palavra.
Se, no mito grego, Narciso se apaixona pela própria imagem, ao deslocarmos essa narrativa para o contexto da vida de um jovem negro e pobre do Brasil contemporâneo, isso se transforma, pois não é por sua imagem que ele se apaixona; na verdade, ele a rejeita, enquanto se apaixona por outras imagens, mais distantes do seu contexto. Aqui, Narciso está apaixonado pela imagem da família de comercial de margarina: uma família formada por pai e mãe, uma família rica, uma família branca.
O filme se desenrola sem muita pressa, soltando lentamente as peças do quebra-cabeça para que o espectador as monte no percurso. Vemos um personagem que retorna ao lar temporário sem muitas explicações a respeito de onde ele vem ou do que é aquele local. O diretor brinca com imagens comuns de narrativas que trazem famílias negras, como o fantasma da violência. Quando um jovem leva um tênis de presente para Narciso e Carmem, responsável pelo lar, o devolve, a mente viciada pelos clichês raciais tenderá a pensar que existe ali uma conexão com o tráfico. Mas Jeferson De está consciente disso e pronto para quebrar esse tipo de expectativa.
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Segundo o próprio diretor, há pelo menos duas imagens em jogo em Narciso: a imagem que o jovem negro tende a rejeitar quando olha no espelho e a imagem de violência em torno das pessoas negras que o audiovisual tanto alimenta. Jeferson diz não se reconhecer na imagem do Zé Pequeno, tampouco na imagem de um homem torturado em Tropa de Elite. Essa imagem de violência é a que o próprio filme rejeita.Já a outra, rejeitada pelo personagem, é a imagem de um menino negro, pobre, pertencente a uma família que não segue os modelos vendidos nos comerciais. Narciso não tem pais no sentido tradicional: aqueles que desempenham esses papéis não são marido e mulher, mas irmãos. Já seus irmãos não são nem mesmo filhos biológicos de nenhum dos dois; contudo, ninguém pode apontar o dedo para dizer que aquela não é uma família, com tudo de bom e de ruim que existe em uma.
Hipnotizado pela imagem da TV, Narciso se depara com um Gênio (Seu Jorge), inspirado em Oxóssi, que promete conceder tudo o que ele desejar. Narciso deseja ter uma família, mas não qualquer família: ele deseja ter a família-modelo. Ter pais que são marido e mulher, pais brancos e ricos, e que ele próprio seja branco. Mas Narciso também quer ser reconhecido como Narciso; quer que as pessoas que conheceu como família ainda o reconheçam. Por isso, o gênio faz com que ele seja visto como negro pelas pessoas negras, mas branco pelas pessoas brancas, ocupando assim dois espaços. Se Narciso agora é tanto preto quanto branco, o filme também passa a adotar uma imagem onírica em preto e branco. Narciso viverá nessa fantasia enquanto quiser, enquanto aguentar, e, caso se arrependa, basta olhar-se no espelho para quebrar a magia e encarar a realidade.
Diferente do Narciso do mito, a jornada desse Narciso não é a de alguém que ama tanto a própria imagem que acaba sendo levado por ela, mas a de alguém cuja imagem é constantemente rejeitada pela sociedade, a ponto de também o ser por si próprio. É a jornada de um Narciso que precisa aprender a amar a sua imagem.

