escritos

O Caramujo

É a escrita de um sonho? Ou o sonho de uma escrita?

Arte ‘Exu’, de Gustavo Nazareno (Reprodução).


Não sei se sonhei o sonho, ou se o sonho me sonhou. Entre o lá e o aqui, onde a fina película tremula e o corpo enevoado se desconhece, estou diante de um caramujo, no meio de Oritá Metá, a encruzilhada de três caminhos, bem no centro, imóvel. Meus olhos não desgrudam da criatura. Ainda na casa, casca-concha, estaria dormindo ou acordada? Breu em volta. Noite densa como um osso. Seu casco, branquíssimo, era o único ponto de luz. Ajoelho-me, toco-o, é quente. Como, se frio por dentro? Ando em círculos, cercando-o. Até que, muito, muito vagarosamente, ele surge. 

Da ponta dos tentáculos sinuosos, sensuais, seus olhos me inquerem. Desejam saber dos meus passos, do meu ritmo? Quais mucosas eu escondo, quais revelo? Quais partes moles do meu corpo, quais carcaças, quais camadas? Se deixo meu rastro? Se sou capaz de virar meus olhos para dentro quando ameaçado? O que me perguntam, acesos? 

Deito-me no chão, barriga para baixo, o solo gelado. Hipnotizado pelos movimentos dos tentáculos-olhos do caracol, mexo o pescoço, imitando-os, encaro-os, até que ele lança uma gosma contra os meus. Daí, o clarão, a cegueira.

O som do rastejar do bicho, ensurdecedor, nos tímpanos. O corpo em transe de morte e vida, por dentro e por fora centenas de mãos gigantes e antigas me batucam. Breu imenso em volta. Noite densa como um osso de pantera. Ele sobe no topo da minha cabeça. A sensação é de um pequeno lago gélido.   

Um som grave na terra. Não o vejo, mas sei que é Exu batendo seu ogó. Ele gargalha e me pergunta:

–  Para qual direção? 

O caramujo desce até minha boca, impedindo-me de responder.

– Para qual direção?

O caramujo abre minha boca e me olha por dentro.

– Para qual direção?

Esforço-me para abrir os olhos. Arde. Queima. Dói. Pergunto-me “é mesmo um sonho?” e em seguida respondo “claro que não”. Por uma pequena fresta, vejo, imensos e negros, os pés de Exu. Ele dança. O caramujo aperta mais minha boca. Seus olhos-tentáculos prolongam-se goela abaixo. Olham-me as entranhas.

– É a escrita de um sonho? Ou o sonho de uma escrita?

O ogó racha a terra, dos pés de Exu saem pequenas labaredas, riscam no chão uma palavra indecifrável. “Que idioma é esse?”

– Não sabe ler tua própria escrita?

Em círculo, as labaredas se avolumam. O caramujo salta para o centro delas. Vejo, mais nítidos do que nunca, os olhos do animal me encarando, vorazes. E, então, a montanha. No caminho do meio. Imensa, vermelha, antiga. Exu senta-se sobre o caramujo, eles seguem, eu os sigo.

– O que é o tempo? – estronda a pergunta de Exu.

O caramujo, sem deixar de rumar, um olho para a frente e outro para trás, me aguilhoa.