escritos

“Está tudo bem, meu filho”

Com que direito um filho fere e decepciona o pai em seu leito de morte?

Arte: “Tocaia”, de Antonio Obá (Reprodução).


Narrar o luto, revisitá-lo, rememorar a doença, a dor, a morte é mergulhar, de forma quase insustentável, na finitude da vida. Das nossas próprias vidas. Quando decidi reviver o que passei (e, sim, reviver é a melhor palavra), dos 12 aos 15 anos, com a morte de meu pai, vítima de um cancro que lhe carcomeu a faringe e a laringe deixando-o sem voz, vi-me cara a cara comigo mesmo. Não se observa o sofrimento e a partida de um pai sem se ver no espelho. E o reflexo do que experienciei ainda permanece em mim. 

A partida de um pai ao qual se amou e por quem se foi amado profundamente deixa cicatrizes que estão longe de ser a marca de uma cura total. No entanto, tocar a experiência e ressignificá-la em texto me fez acessar uma camada fundamental para a possível superação do luto: sua nomeação. Nomear o sofrimento e a perda significou, para mim, encontrar uma possibilidade a mais de enfrentamento. 

Daí o primeiro conto do meu livro “O corte que desafia a lâmina” (editora Cachalote) ser justamente o que nasceu da relembrança do trauma vivido, e, com ele, a descoberta do motivo condutor de toda a obra (e de toda uma vida?): não há como fugir de nossas fraturas. Vamos nos deparar com muitos cortes no decorrer da vida. Perdas. Lutos. E acessar este espaço-tempo psíquico é, talvez, a única forma de se conhecer de verdade. E de construir uma possibilidade de transmutação. 

Parece estranho falar sobre o luto pela morte de um pai mais de 30 anos após ela ter acontecido. Um tempo talvez significativo para sentir, sim e sempre, saudade; mas nostalgia? No entanto, é tão nostálgica cada lembrança do cheiro, do toque, do olhar do pai. E, ao acompanhar seu processo de apodrecimento (é cruel, o câncer, avassaladoramente cruel) ao mesmo tempo em que vivia a descoberta do desejo, do erótico, fez deste momento um dos mais intensos de minha vida – pulsão de vida e morte convivendo-me, consumindo-me.

Como estar tão próximo da decomposição e do florescer, no mesmo instante, e sair ileso? Eu olhava o pai e me sentia culpado. Culpado por não poder fazer nada. E mais culpado ainda por ver rebentar em meu corpo a vontade plena de existir, enquanto a ele restava tão pouca existência. Porque, para um adolescente gay, que não tinha revelado ao pai seu modo de amar – portanto, não lhe tinha desvelado aquilo que o fazia sujeito de seus prazeres –, para um adolescente que experienciava o proibido e via o pai indo embora, definhando, sem saber quem o filho era de verdade, para um adolescente este trauma era uma bola de canhão prestes a lhe estraçalhar a cara e a felicidade. Sim, eu consegui ser feliz, apesar da putrefação do pai. Por isso tanta culpa? E sentiria ainda mais, se contasse para ele sobre minha homossexualidade, afinal, pensava eu na época: com que direito um filho fere e decepciona o pai em seu leito de morte?

Mas, antes mesmo da morte do pai e tão dolorosamente marcante quanto ela foi o dia em que o visitei no hospital e ele, já sem voz por causa da laringectomia, me entregou um pequeno pedaço de papel: “está tudo bem, meu filho”. Investiguei muitas e muitas vezes, e creio que ainda hoje o faça, o sentido desse “está tudo bem”. Tudo bem para quem? Como estar tudo bem, quando a metástase, antes de avassalar o corpo todo, extirpa a fala? Quando o olhar do pai não conseguia esconder o sofrimento, o medo, o terror? Como estar tudo bem se o filho, ele também mudo diante do terrível, não conseguiria mais, nunca mais, falar ao pai de seu desejo, sua pulsão, sua pulsação? Carregaria, por muito tempo, o peso do não dito.   

Nesse processo, nessa tentativa de compreensão dos significados e sentidos do “está tudo bem”, chegou um momento, depois de várias e várias sessões de terapia tentando contornar e elaborar o luto, em que vi revelado, materializado naquelas palavras o profundo amor do pai – e o espelho, então, me revelou o que ainda era embaçado em sua superfície –, como se ele me dissesse: “filho, tudo bem você ser quem você é, da maneira como te satisfaz; está tudo bem você seguir sua vida, filho. E ainda que eu esteja aqui, sendo devorado por uma doença maldita, que, se agora me arranca a fala, logo mais vai me arrancar a vida toda; ainda que meu sofrimento ocupe um espaço gigante na sua juventude, está tudo bem, meu filho, está tudo bem você ser feliz!”

Hoje, compreendo um pouco mais, a cicatriz anuncia que o luto adquiriu outra forma. Ocupando um lugar na pele do coração, um lugar só dele, continua – quanto paradoxo! – dando sentido à existência daquele adolescente que, se outrora colocou em si uma mordaça e, em silêncio, despediu-se do pai, agora consegue dizer, verbalizar, transformar em palavras escritas a experiência talvez mais desoladora de sua vida. Sim, há transmutação possível quando o trauma vira texto, e as fissuras, por mais que sigam atravessando o ser, abrem frestas para dar outro sentido ao vivido, tornando-o, assim, complexa e novamente vivível.