Entrevistas

“Julio Cortázar segue vivo: seus leitores e influência estão por aí”, diz Emilio Fraia

Em entrevista à revista O Odisseu, Emilio Fraia, editor de Julio Cortázar na Companhia das Letras, enfatiza influência de Julio Cortázar mesmo após 42 anos de sua morte.

Foto: D.A Press: Julio Cortázar em Ouro Preto (1973).


Quarenta e dois anos após sua morte, Cortázar segue bem vivo. “Seus leitores e influência estão por aí”, afirma Emilio Fraia, editor do escritor argentino na Companhia das Letras. Em 2018, a editora adquiriu o catálogo da obra do escritor argentino. Desde então publicou uma nova edição de O jogo da amarelinha, com tradução de Eric Nepomuceno, e Todos os contos, com traduções de Heloisa Jahn e da Josely Vianna Baptista. A ideia agora é seguir publicando alguns dos livros de contos separadamente, o próximo será o Todos os fogos o fogo. “Há um projeto em andamento que tem me animado muito, uma coletânea de poemas, que está sendo organizada pela escritora Paloma Vidal”, adianta. 

Emilio Fraia, escritor e editor da obra de Julio Cortázar na Companhia das Letras/ Foto de Bob Wolfenson.

De Alejandro Zambra a Mohamed Mbougar Sarr: a influência de Julio Cortázar em autores contemporâneos

Cassiano: Cortázar ainda tem um público leitor no Brasil? É possível identificar esse público?

Emilio: Acredito que sim, seus leitores e influência estão por aí, Cortázar segue bem vivo. Primeiro, pelo caminho do suspense, do estranho, do cotidiano que com “perfeita naturalidade sofre a ruptura abrupta do fantástico”, como escreveu o professor Davi Arrigucci Jr. Ele segue brilhando em cursos de escrita, por exemplo. Acabei de editar um livro do escritor e professor Roberto Taddei sobre escrita literária, e lá está um capítulo muito interessante dedicado a “Carta a uma senhorita em Paris”. Tanto já se falou sobre essa história… E parece inesgotável. Este conto e muitos outros, como “Casa tomada”, “A autopista do sul”, “O perseguidor”, “Continuidade dos parques”, ou o meu favorito, “A ilha ao meio-dia”, nos acompanham, e a impressão é de não sabermos exatamente quando começamos a lê-los.

Tenho uma amiga escritora mexicana que odeia os contos do Cortázar. Ela diz que são muito redondos (ou esféricos, como queria o próprio Cortázar), polidos, bem acabados demais, com aquele tipo de arremate final que, de fato, às vezes parece um pouco envelhecido para a nossa sensibilidade. É uma certa atualização da estrutura dos contos de Poe, o autor mais importante para o Cortázar dos primeiros anos. E quantas vezes já não escutamos, pela milésima vez, revirando os olhos, a frase de que o romance ganha por pontos e o conto por nocaute… E a sua mais do que ultrapassada ideia de um leitor-macho e um leitor-fêmea… E até nisso Cortázar parece presente: ser odiado, questionado, a busca por escrever de um jeito que não se pareça em nada com ele (mas para isso conhecê-lo muito bem).

Cassiano: Existe um interesse do público jovem, que vem descobrindo o Cortázar através de escritoras como Mariana Enriquez, Samanta Schweblin e Mónica Ojeda, por conta de uma atmosfera próxima ao do realismo fantástico…

Emilio: Além das autoras que você mencionou, um outro escritor de destaque na cena latino-americana, Alejandro Zambra, dialoga de um modo muito próprio com Cortázar. É impossível não pensar no O jogo da amarelinha quando lemos seu Múltipla escolha (“Facsímil”, em espanhol). E estou com Zambra quando ele diz que O jogo da amarelinha segue sendo um romance assombroso. E aqui há um segundo ramo de atualidade da obra do argentino. Quando li A mais recôndita memória dos homens, de Mohamed Mbougar Sarr, por exemplo, me veio muito à mente O jogo da amarelinha. Conversar com Bolaño, como faz Mbougar Sarr, é conversar com Cortázar – adoro a frase do escritor catalão Enrique Vila-Matas que diz que Os detetives selvagens é um “fecho histórico e genial para O jogo da amarelinha“. Por outro lado, eu não compro muito a ideia da liberdade do leitor, de cada um criar sua própria história, tão repetida quando se fala deste livro. Mas Cortázar encena muito bem, e para um público amplo, a ideia do livro aberto, montável e desmontável. É como se tivesse tornado mais pop os caminhos intuídos por Georges Perec ou Macedonio Fernandez. Gosto de pensar que existe algo de oriental no “O jogo da amarelinha”. Para mim, é como O livro do travesseiro, de Sei Shônagon: pode-se abrir em qualquer página, antes de dormir, ler um pouco, pegar no sono, e ter um sonho fantástico. Entre nós, o livro de contos do Gustavo Pacheco, por exemplo, Alguns humanos, premiado, é um livro totalmente cortazariano. A pele em flor, do Vinicius Neves Mariano, me parece que também tem algo do Cortázar contista.

Cassiano: Parte da obra do Cortázar, de viés mais político, publicada no final dos sessenta e setenta – O livro de ManuelNicarágua tão violentamente doce etc-, não poderia gerar interesse por uma situação semelhante à que o mundo vive hoje – avanço da extrema direita na América Latina, as tensões geopolíticas etc?

Emilio: A fase final de Cortázar, mais abertamente engajada, é ainda pouco lida entre nós. A partir de maio de 1968 houve uma virada. Ele participou ativamente dos protestos de rua em Paris, distribuindo panfletos, entre os estudantes. Separou-se da mulher, Aurora. Tinha 54 anos. Viveria mais dezesseis. Nesse tempo, publicou o O livro de Manuel, cujos direitos foram cedidos para a ajuda de presos políticos na Argentina, e que ganhou o prêmio Médicis na França. Começou a visitar a Nicarágua, cedeu direitos de seus livros ao regime sandinista. Publicou Nicarágua tão violentamente doce. São sem dúvida dois livros que podem ganhar novas leituras hoje. Nessa fase final há quatro livros de contos que às vezes considero melhores do que os volumes mais famosos do início da carreira: Octaedro, Alguém que anda por aí, Um tal Lucas e Queremos tanto a Glenda. São contos mais sujos, menos fechados, o Cortázar experiente narrador de contos fantásticos está lá, mas de um jeito diferente, mais complexo parece. Estes livros também mereceriam ser revisitados.

Cassiano: Quando a Companhia adquiriu o catálogo do Cortázar? Quais os títulos que estão disponíveis pela editora?

Emilio: Foi em 2018. Estão nas livrarias uma edição que considero muito especial do O jogo da amarelinha, com tradução do Eric Nepomuceno, uma seleção de cartas nas quais o Cortázar reflete sobre a escrita e a recepção do livro, um ensaio do Haroldo de Campos, que é o marco inicial da crítica brasileira sobre o livro, textos do Mario Vargas Llosa e do crítico Julio Ortega e projeto gráfico do Richard McGuire, autor de um livro chamado “Aqui”, que tem muito a ver com O jogo da amarelinha); os contos completos numa caixa, Todos os contos, divididos em dois volumes, com traduções da Heloisa Jahn e da Josely Vianna Baptista e os dois célebres ensaios do autor sobre a escrita de contos, “Alguns aspectos do conto”, de 1963, e “Do conto breve e seus arredores”, de 1969, além de um estudo do crítico argentino Jaime Alazraki sobre o Cortázar contista e projeto gráfico da Elaine Ramos; Os prêmios, com tradução do Ernani Ssó, o primeiro romance publicado por Cortázar, em 1960, espécie de antessala do estilo que o consagraria no O jogo da amarelinha; e a edição avulsa do Bestiário, que talvez seja o seu livro de contos mais celebrado, que reúne contos como “Casa tomada” e “Carta a uma senhorita em Paris”.

Cassiano: O baú do Cortázar ainda está bem cheio de inéditos no Brasil. Algum lançamento em breve?

Emilio: A ideia agora é seguir publicando alguns dos livros de contos separadamente, o próximo será o Todos os fogos o fogo. Devemos fazer também uma edição especial do Os autonautas da cosmopista, livro espetacular que ele escreveu com a sua última companheira, Carol Dunlop, sobre a estrada que liga Paris a Marselha. Há um projeto em andamento que tem me animado muito, uma coletânea de poemas, que está sendo organizada pela escritora Paloma Vidal. Essa é uma faceta sobre a qual os leitores sabem pouco, a do Cortázar poeta, os poemas são incríveis, é tudo muito interessante.