
Sonho com o anjo da guarda o resto da vida
Escavar a terra das lembranças é tarefa difícil. Ao mesmo tempo que me forço a preservar e cavar alegrias da memória, também não quero me tornar repetitivo. Tenho consciência disso. Entretanto, quando alguém falece é inevitável essa procura.
Arte de Gê Viana na série “Hora Grande” (via Instituto Moreira Salles).
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Hoje é dia 1 de fevereiro. Hoje o dia iniciou, como os anteriores, com muitos cuidados com a Dona Terezinha, ideias de textos para escrever, preocupações com meu pai e mais ideias de texto e leituras que gostaria de fazer. Tudo ao mesmo tempo. E, também, aflito olhando o horário no relógio, para ir trabalhar.
2
Confio muito na energia das coisas. Sempre fui assim. Acho até que a vó aprimorou minha sensibilidade para sentir. Eis que se destaca, entre os outros livros na mesa, o livro Sonhei com o anjo da guarda o resto da noite (Ed. Todavia) do Ricardo Aleixo, e o primeiro texto que abri já me pegou. No Campo Alegre. Nas suas Memórias-poéticas o autor conta como foi encontrar uma senhora que conhecia seu trabalho e conhecia sua mãe.
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“A senhorinha me parou na rua, na entrada do bairro, e disse: Sei quem é você. É o menino da dona Íris, não é? Te vejo sempre na televisão. Eu: Sempre? Ela: Sempre. Poeta. Não é?, perguntou com cara de riso. Confirmei com o movimento de cabeça, entre encabulado e contente por ter sido reconhecido. Ela continuou: Poeta é tudo mentiroso. Eu: Acha mesmo? Resposta: Acho. Mas eu gosto. Me deu um abraço apertado, que tomei como bênção, e seguiu caminho, altiva. Fiz o mesmo. Altivo.”
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Nesse trecho lembrei da minha mãe. Quando pela primeira vez ela me viu como escritor. Poeta. Era 2019, acho. Meu cabelo ainda estava curto. Ela estava viva e sorridente. Meus irmãos também sorridentes e meu coração pulsava feliz. Marlírico chegava às mãos das pessoas e eu apareci algumas vezes nos lugares, na televisão, nas fotos de algumas pessoas de prestígio em Porto Alegre. Soube que mamãe falava pros vizinhos: “Meu filho aquele ali…”.
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Escavar a terra das lembranças é tarefa difícil. Ao mesmo tempo que me forço a preservar e cavar alegrias da memória, também não quero me tornar repetitivo. Tenho consciência disso. Entretanto, quando alguém falece é inevitável essa procura.
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Escrevo esse texto entre cuidados com a Dona Terezinha. Entre, um ponto e outro, há fraldas geriátricas, curativos para escaras e a angústia de ver alguém que você ama sofrendo por alguma dor.
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“A música chega onde o Alzheimer não alcança”. Li essa frase em um vídeo nas redes. Sorri ao ver o vídeo de uma avó cantarolando com o neto. Dia desses, meu pai: vamos rezar, mãe! Até hoje sei algumas orações, Dona Terezinha era rigorosa nas suas orações e preces. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo… comecei. Ela sorriu. Ainda conseguia lembrar boa parte de todas as orações. Os três estavam felizes naquele momento.
8
Hoje é dia 10 de fevereiro. A médica do posto de saúde, depois de examinar as escaras, recomenda a ida para o hospital. Meu pai chama a ambulância. Dona Terezinha dorme um sono de neném. Fico solitário em casa, esperando alguma notícia, respirando fundo. A tensão me toma por completo. Retomo o livro do Ricardo Aleixo em minhas mãos para algum respiro.
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“…jamais perder de vista o tipo de leitora que era minha mãe. Uma pessoa muito simples, de pouca instrução formal e… sensibilíssima. (…) Por causa dela, impus-me a tarefa de, sem rebaixamentos de qualquer ordem, tentar só escrever textos que convidem quem os lê ou escuta a se abrir a novas possíveis formas de contato com a palavra poética.”
Aqui meu coração sorriu.
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Agora, sozinho, com os meus botões, fico respirando esse vazio.
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Sonho com o anjo da guarda o resto da vida.
Refiz o título do livro para poder dormir melhor.
Que Dona Terezinha fique bem.
12
“É necessário preservar a alegria.”
Dona Terezinha me disse um dia. Nunca mais esqueci.

