A distração possível

E tudo está por um segundo

Pensar em um futuro feito com as próprias mãos é aprender a recriar o presente, num equilíbrio entre a adaptação e a muda. Afinal, estávamos a um segundo do futuro imaginado.

Arte: John Baldessari, I Will Not Make Any More Boring Art (Acervo MoMa).


A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono.
Octavio Paz

Seria o estado de flow uma saída ou uma prisão? Você já se sentiu extremamente feliz fazendo algo enquanto grande parte da população está reclamando? Pesquisa encomendada ao LinkedIn mostra que 60% dos brasileiros estão insatisfeitos com o seu trabalho atualmente. A plataforma brasileira Pluxee e a britânica The Happiness Index realizaram outra pesquisa que indica que os brasileiros estão 9% mais infelizes no trabalho em relação à média global. Duas causas figuram como principais, dois indicadores que demonstram seu reflexo: a falta de reconhecimento profissional e as oportunidades limitadas de crescimento. É do grande visionário do século XX, Peter Drucker, a frase: “The best way to predict the future is to create it.”

O futuro. Por muito tempo me questionei como seria se não tivesse conhecido a poesia, o que teria sido feito de mim. Teria terminado o curso de engenharia que abandonei, o de jornalismo, o de administração ou continuaria a aventura errante de tocador de violão pelas terras da Bahia? Não sei, mas lembro de Mainha, depois de deitar a gente, após a janta, para contar histórias dos shows de Raul Seixas na Cidade Baixa, que ela e algumas outras meninas assistiam pelo buraco do muro. Ou ainda para inventar finais para os sonhos que a gente imaginava ali, no meio das noites em que meu pai viajava pelas obras no Brasil profundo. Lembrar e acreditar eram as formas como Mainha me ensinava poesia. Em um segundo, agora, tudo me invade, trazendo e levando ao mesmo tempo. O futuro existe dentro das nossas próprias mãos.

Foi Charles Chaplin o criador da célebre frase: “Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre.” Sim. Imagine aquela porta batida sem dizer adeus. O botão apertado. O piscar de olhos. O fio errado cortado. A luz apagada. A palavra que sai sem pensar. Cada segundo é inteiro, necessário, diante da constante reconfiguração do desconhecido.

Em um segundo atravessei a porta daquele avião. A primeira vez que li “Autopsicografia”, poema de Fernando Pessoa, eu já vivia por Lisboa e andava no café da Fnac. Era um lugar já familiar; lembrar é uma maneira de gostar mais dos livros. Sim, porque não havia o que ser feito quanto à saudade, a não ser mergulhar mais nas leituras, nos universos que treinam a sensibilidade. Mundos desconhecidos que, paradoxalmente, nos aproximam mais do que é nosso, mesmo que naquela época eu não tivesse a mínima ideia do que isso significava exatamente. A leitura ensina o coração a latejar, a doer devagar, tateia veios pulsantes, ressignifica.

“A Bahia existia em estado de poesia.”

– Tiago D. Oliveira

E lá estava o verso messiânico — “O poeta é um fingidor” — caindo como água em céu aberto, lambendo de forma voraz o chão da minha carne, levando-me para outro estágio do sentir. Fechei o livro, paguei a média de leite e comprei aquele que seria a minha companhia nas horas todas de leitura durante meses.

Alguns anos depois, voltei para o Brasil. Desembarquei em Salvador: um segundo para atravessar aquela porta. Queria conhecer e conviver com quem fazia poesia. Pensava que ler os poetas brasileiros vivendo em Portugal era fingir demais. Portanto, já tinha por onde começar: a Bahia existia em estado de poesia. Aqui, tudo soava como um verso de Bocage ou de Ildásio Tavares.

Mas foi em uma tarde da Flica, em Cachoeira, que tive uma experiência poética marcante. Estávamos sentados de frente para a rua movimentada, por onde o povo saía de uma das apresentações, de uma das mesas daquele dia. Lembro que a mediação me marcou profundamente, por ter sido conduzida por Lívia Natália, um rosto familiar da UFBA, e, já depois de alguns minutos, sentado na mesa ao lado, eu ainda ensaiava coragem para dizer um oi envergonhado. Mas tudo se quedou naquele segundo em que ele surgiu no meio da multidão, equilibrando um livro de Waly Salomão na cabeça e dizendo versos performáticos, vivos. Alex Simões marcaria para sempre a forma de agigantar os entrelaços e os alcances possíveis da poesia. Em um segundo, abriu uma porta inegociável em minha cabeça, que ligava todos os tempos de forma real. Eu conseguia sentir sua respiração, ouvir seu bardo diante das pessoas embasbacadas. O mundo, que se resumia inteiro ali, na rua de pedra diante do poeta, se abria por completo. E eu — para quem de a romper já se esquivava / e só de o ter pensado se carpia —, ao contrário de Drummond, com toda licença permitida, só precisei de um segundo para ter aquele tudo a que chamei de mundo como força principal a me mudar por inteiro. Um segundo.

O estado de flow, a imersão completa, a perda da noção de tempo e espaço — ao menos é o que se procura na fumaça dos dias — talvez não seja a saída atribuída a uma única atividade profissional. Porque pensar em um futuro feito com as próprias mãos é aprender a recriar o presente, num equilíbrio entre a adaptação e a muda. Afinal, estávamos a um segundo do futuro imaginado. Será que sabemos o que isso realmente significa?