escritos

As vozes, a queda, o poema

Que tempo é esse, indispensável para acessar algo ao mesmo tempo fora e dentro de nós? Muito além da ideia de musa, gênio, daemon, inspiração, qual a relação que se estabelece entre a Coisa e a palavra que a nomeia?

Arte: ‘Por Isso Muito Cuidado’, pintura de Jota Mombaça – José Pelegrini/Divulgação galeria Martins & Montero.


Destino, em yorùbá, se escreve. 

Kádàrá. 

No ventre da mãe,

que, longe de ser um espaço apenas biológico, é, essencialmente, território de passagem entre o Ọ̀run (plano espiritual) e o Ayé (mundo físico, material), há três momentos nos quais, antes de virmos à luz, nos conectamos a nós mesmos, ao divino e, diante de escolhas ou determinações, nossa sina é riscada — 

traçado no Tempo-espaço da existência, 

rota onde as encruzilhadas se desenham e, 

com elas, a escrita da vida

começa a ganhar forma e sentido. Em linhas bem gerais, são eles: Àkúnlẹ̀ yàn — aquele que se ajoelha e escolhe —, Àkúnlẹ̀ gbà  — aquele que se ajoelha e recebe — e Àyànmọ́ — aquilo que não pode ser alterado, o que é dado por Olódùmarè, o Deus supremo

No primeiro momento, entram em cena as escolhas feitas por vontade própria, livremente, envolvendo os nossos valores, as nossas vocações e as qualidades que nos singularizam, ou seja: 

aquilo que desejamos ser. 

Não se trata de escolher o que vai acontecer, mas como Orí irá responder àquilo que irá acontecer. No segundo, entram em cena os Irúnmọlè, agentes primordiais, anteriores à história humana; eles participam da criação do mundo, administram leis cósmicas (tempo, causalidade, destino) e, a parte que mais nos interessa aqui, acompanham as escolhas e intercedem na realização do Kádàrá. Os Irúnmọlè criarão possibilidades para que o que escolhemos no Àkúnlẹ̀ yàn se realize. No terceiro momento, é quando Olódùmarè “determina”, digamos, o campo material onde enfrentaremos 

os desafios do destino: 

o lugar onde vamos nascer, nosso sexo biológico e nossas características físicas, a família que teremos e, também, as questões “cármicas” — aquilo de que, por mais livre arbítrio que tenhamos e por mais que sejamos peça-chave na construção do nosso destino, 

não conseguiremos escapar.

Durante o processo do kádàrá, algumas divindades muito importantes atuam: Ṣeńṣeńtíṣòrò, o guardião das escolhas, aquele que, atento e vigilante, garante que nada daquilo que escolhemos se esvaia. Àjàlámọ̀pín, o artesão do Orí, aquele que molda, que dá forma à nossa cabeça, permitindo que consigamos carregar as nossas escolhas, lidar com elas, enfrentá-las. Aludùndún Ọrun, o anunciante, o que toca o tambor e torna o destino audível no cosmos (é lindo, isso, não? Uma divindade que torna o destino audível no cosmos?). Èṣù, sempre ele, o que está em todas as coisas, o dínamo do universo, o que testa, aguilhoa, provoca, instiga; aquele que instaura o caos para que o ser humano se organize, o que cria e habita as encruzilhas, colocando-nos diante dos desafios das escolhas e dos caminhos, o que promove as metamorfoses. E Elénìní, divindade do infortúnio, considerada (não me atrai esta nomeação) “inimiga” do Orí, que testemunha todo o processo e, implacável, inflexível, não permite que as adversidades, o imponderável, aquilo que gera sofrimento deixe de acontecer. Elénìní,

o nome do silêncio que sabe

o testemunho do destino quando ele dói.  

Antes de prosseguir na escrita do que se pretende ser este texto — uma crônica sobre as vozes, a queda e o poema —, devo dizer que um tanto do que aqui está vem das palavras e dos ensinamentos do awo Ifágúnwà, bàbáláwo que me orienta em minha caminhada (e também nas minhas quedas). Entre rezas, cantigas, obis lançados à terra e boas risadas, vamos, juntos, com muitos!, tecendo as trilhas dos nossos destinos que se entrelaçam.    

“Para quem me lê e não crê em destino, ou até acredita, mas não da forma como se concebe a partir da filosofia aqui exposta, talvez o que escrevo possa parecer loucura mesmo. Que seja! No entanto, a reflexão que me toma, independentemente de crenças, credos e afins, é em torno do fazer poético. Do tempo que se faz (se impõe?) necessário para a escrita.

– Antonio Arruda

Agora, sim, a crônica.

Kádàrá é o título do livro de poemas que estou escrevendo. Ainda que uma das figuras presentes na obra, o menino-mirante, já tenha surgido no meu primeiro livro, “O corte que desafia a lâmina” (editora Cachalote), foi durante a oficina “Escrever é ser ninguém – curso para desaparecer no texto”, da poeta e amiga Isadora Krieger (mestra dos mistérios da palavra), que as outras vozes que têm me convocado à escrita surgiram: 

a da mãe, a da avó, a da deusa e A-outra-voz.

Fato é que, quando me deparei com essas vozes tão longínquas quanto tateáveis, tão maiores do que eu e, no entanto, tão ao pé do ouvido, tão estranhas e conhecidas, cume de montanha e vegetação rasteira, sol a pino e sombra de Árvore-anciã, trovão imenso e mar calmo após a tempestade, disse, em um dos encontros da oficina: “tenho a sensação de que preciso me prostrar no chão para ouvir essas vozes. Que preciso de um tempo e de uma pausa muito maiores do que consigo ter”. Eis que… 

O Destino inaugura a queda. 

No dia 18 de dezembro de 2025, por volta de 15h20 de uma tarde de celebração e quase encerramento de um ano de muito trabalho, piso em falso em um degrau — como se fosse possível sustentar o peso do corpo no ar — e,

impotente, caio.

Uma semana antes da planejada viagem de fim de ano (sim, ainda que saibamos que o infortúnio está cravado em nossa espinha dorsal, que, a qualquer instante, o chicote-serpente da divindade fará soar no tempo a voz inexorável da imprevisibilidade da existência, ainda assim, como se nos fosse possível controlar o imponderável, planejamos momentos de felicidade — ainda bem e que assim seja!), uma semana antes do que estava projetado, me vejo em uma mesa de cirurgia, colocando uma placa e sete parafusos na tíbia fraturada. Determinação médica: pelo menos um mês sem colocar o pé no chão.

Um tempo depois de lidar com a frustração, a tristeza, a raiva, a indignação, a incompreensão, mandei um áudio para a Isadora, do qual transcrevo um trecho: “Amada, lembra que te falei sobre a pausa e o tempo que eu sentia serem necessários para ouvir as vozes? Pois então… Eu escolhi. Eu escolhi passar por isso agora. Em algum momento do meu kádàrá, 

eu tracei esse caminho. 

Talvez para que essas vozes pudessem me tomar, me envolver, me conduzir da forma como o poema precisa. Uma loucura, né? Uma loucura!”. Ao que ela me respondeu: “Oi, amor, que forte isso. Quando você começou a falar sobre precisar de outro tempo para escutar essas vozes, para ficar com elas e o texto, logo pensei: então, por isso, a queda”. 

Para quem me lê e não crê em destino, ou até acredita, mas não da forma como se concebe a partir da filosofia aqui exposta, talvez o que escrevo possa parecer loucura mesmo. Que seja! No entanto, a reflexão que me toma, independentemente de crenças, credos e afins, é em torno do fazer poético. Do tempo que se faz (se impõe?) necessário para a escrita. 

Da pausa. Do silêncio. 

Que tempo é esse, indispensável para acessar algo ao mesmo tempo fora e dentro de nós? Muito além da ideia de musa, gênio, daemon, inspiração, qual a relação que se estabelece entre a Coisa e a palavra que a nomeia? Qual não-nome advém dessas vozes, elas todas anteriores à escrita, e, por isso, criadoras do poema antes que ele nos possua e se materialize?

Da escuta, qual o tempo? 

Que pausa é essa que nos coloca em estado de suspensão, como se a alma, fora do corpo, habitasse o espaço do poético, se amalgamasse a ele, gerando uma única e mesma massa amorfa, 

substância inefável?

Se escolhi, no meu kádàrá, escrever um livro cujo título é kádàrá, e se a queda (desejada?) no meio da encruzilhada da vida foi a que gerou 

o movimento da pausa, da escuta e da escrita, 

cabe a mim a compreensão, mais do que a revolta? A gratidão, mais do que o inconformismo? A percepção do imponderável, mais do que a pretensão do controle sobre tudo? A aceitação, como bênção, mais do que a indignação que me colocaria em um estado de lamentação e blasfêmia?

Não tenho respostas, apenas a vivência.

A inevitável queda permitiu que as vozes, de forma intensa e bela, fossem se apresentando, lentamente, muito lentamente, e os poemas, qual pássaros habitados pelo silêncio, têm pousado, delicados, sobre o papel.

Sou, por enquanto, passagem e ninho.


escritos é uma coluna/arquivo em construção que reúne reflexões sobre a espiritualidade, metafísica e experiências filosóficas afrocentradas (mas não só isso), assinada por Antonio Arruda.