Entrevistas

‘Uma ruptura com o discurso da tradição’: Cecília Rogers fala sobre a escrita de seu livro ‘Uma mulher anda sobre as águas’

Em entrevista para a revista O Odisseu, Cecília Rogers conta que precisou de muita pesquisa para a escrita de “Uma mulher anda sobre as águas” (Patuá), livro que subverte a visão cristã do feminino.

Foto: Divulgação.


Poeta fluminense de Niterói, Cecília Rogers tem uma produção significativa na literatura entre poesia e prosa. Ao todo são quatro livros de poesia e um romance, o “Agualuz”, que foi lançado em 2023 pela Editora Mondru. Sua obra tem como marca o esmero pela palavra e o cuidado com as imagens construída que são resultados da sua dedicação ao estudo da literatura. Rogers é mestra em literatura pela Universidade Federal Fluminense e uma leitura atenta. Prova disso é que seus livros estão sempre em diálogo direto com outras obras, construindo uma estética própria a partir de todas essas leituras.

Na entrevista que você confere agora, Cecília conta que sua escrita passa pela referência de Adélia Prado, Cecília Meireles, Pizarnik e outras mulheres. Podemos dizer que se reúne forças femininas que a antecederam para a construção de uma poética que adentra o sagrado com ousadia. “Uma mulher anda sobre as águas” (Patuá), desafia as imagens de submissão construídas historicamente a partir da cosmovisão judaica-cristã. Em versos poderosos, Rogers reconstrói a criação tomando como referência cosmovisões outras. Estabelece a maternidade enquanto impulso criador e não mais aceita o adjetivo de “auxiliadora” e nem se reconhece enquanto costela de Adão. Como ela própria afirma na entrevista, se trata de romper com a tradição.

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‘Aos poucos fui construindo o meu sagrado’, diz Cecília Rogers, autora de ‘Uma mulher anda sobre as águas’

Ewerton: Em seus poemas, você convoca muitas referências dos estudos de gênero e também das religiões, convidando para uma conversa diversas cosmovisões. Houve um processo de pesquisa ou você apenas trouxe referências que já tinha?

Cecília: Na verdade, foram as duas coisas. A minha mãe era baiana, terra do sincretismo, da mistura das crenças. Nascida no interior, era fervorosa na fé e devoção aos santos, mas, ao mesmo tempo que me educou no catolicismo, levava a benzedeira em casa para afastar os males com ramas de arruda na mão. Aos poucos fui construindo meu próprio sagrado, onde o que importa é a energia da luz que nos une como humanidade.
Para escrever esse livro em especial, precisei ir além e, pesquisei sim, sobre as deusas míticas e as ninfas, Iemanjá, os arquétipos das 13 matriarcas da sabedoria feminina, os arcanos maiores do tarô, além de revisitar a Bíblia e sua estrutura.

Ewerton: Lendo seu projeto, relacionei com aquilo que Anne Carson também tem elaborado a partir de releituras feministas dos textos canônicos. Quais foram as suas referências na poesia?

Cecília: Na poesia de maneira geral, minhas referências iniciais foram Adélia Prado, Cecília Meirelles, Floberla Espanca e, mais recentemente, Alejandra Pizarnik, Paula Tavares, Alfonsina Storni, entre outras, sem esquecer a prosa de Virgínia Woolf e Clarice Lispector. Sou uma leitora voraz, tanto de poesia quanto de prosa.
Já minhas principais referências para a escrita de “Uma mulher anda sobre as águas” foram os portugueses Sophia de Mello Breyner Andresen e Herberto Helder. A primeira, poeta do lirismo e do mar, e o segundo, poeta das imagens do surreal. Ambos já alimentaram meu repertório quando do mestrado em literatura portuguesa na Uff. Eu escolhi usar a linguagem onírica para criar esse novo Éden porque minha voz poética tem sido atravessada pelo sonho, pela palavra impalpável e sinestésica, o que trouxe imagens incríveis para o livro.

Ewerton: Você escreve sobre o feminino sendo mulher. O quanto esses poemas trazem de você mesma? O quanto a sua vivência enquanto mulher influencia na composição de seus poemas?

Cecília: As questões relativas à mulher fazem parte do que pulsa dentro de mim como escritora que deseja gritar contra a violência e o silenciamento das mulheres.
Meu ebook “Submersa” (2022), um poema híbrido e único de 56 páginas, onde falo do relacionamento abusivo, é um exemplo disso. Já no meu romance “Agualuz”, um drama psicológico, embora eu trate do tema do luto e da melancolia, uma de suas camadas traz o patriarcado e o silenciamento da personagem, como prisões agravantes da sua depressão.
Com certeza essas questões me acompanham pelo fato de ser mulher e sentir pelo nosso aprisionamento desde a gênese. Porque embora eu não tenha passado por isso, eu sinto profundamente.

‘Existe algo que só as mulheres conseguem revelar na escrita’, diz Cecília Rogers

Ewerton: Na esteira da última pergunta: você acredita em poesia feminina?

Cecília: Até acredito que existe algo que só as mulheres podem expressar através da escrita, mas não acredito que isso seja relacionado a uma poesia dita feminina. Acredito sim na força da palavra das mulheres para romper as correntes e preconceitos que nos limitam.
Penso num Sagrado feminino, uma espécie de congregação de mulheres, para honrar a ancestralidade e todo o caminho de libertação até agora e adiante, porque ainda há muito pela frente.

Ewerton: Espera-se, muitas vezes nesse imaginário patriarcal, que uma mulher que escreve poesia traga elementos do cotidiano ligado ao lar unicamente. Como você lida com essa expectativa sobre a escrita de mulheres?

Cecília: Se alguém ainda pensa assim, só posso lamentar. Essa concepção só aguça mais ainda o meu desejo de ruptura e de quebrar os paradigmas.

Ewerton: Neste ano, presenciamos uma série de crimes horríveis contra mulheres que provam que a nossa sociedade ainda precisa despertar quanto à dignidade da mulher. Em sua opinião, confrontar as cosmogonias que estruturam essa sociedade (como você faz em seu livro) é uma forma de luta também?

Cecília: Com certeza! No livro eu escrevo, “No princípio era o Verbo e o Verbo era Mulher.” Existe algo mais desafiante? Mais desejante?
Essa luta se dá do macro ao micro, do Cosmo ao cotidiano. Começa resgatando nosso papel de progenitoras da criação, da vida, como expresso no meu livro, uma ruptura com o discurso da tradição.

Uma mulher anda sobre as águas, de Cecília Rogers
Editora Patuá, 2025