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Literatura para impedir o esquecimento: Marcelo Nery confronta feridas abertas do Brasil em ‘Flores Astrais’

Em depoimento para revista O Odisseu, Marcelo Nery, que estreia com o romance Flores Astrais (Mondru, 2025), conta como escreveu um romance de influência gótica sobre os fantasmas do Brasil.


Em busca de relacionar a realidade política do Brasil, principalmente a história colonial e seus vestígios na sociedade, e o gótico de origem europeia, Marcelo Nery, escritor mineiro, criou uma história em que realidade e fantasia constituem dois lados de uma mesma moeda. Isso porque é sobre fantasmas, principalmente, que o livro busca tratar: fantasmas de um Brasil Colônia que se estabeleceu a partir da exploração do trabalho escravo negro, o patriarcado, a homofobia e outras violências.

Podemos afirmar que o escritor chamou para si um grande desafio, mas conseguiu dar conta da missão a qual se propôs. O romance conta a história de Tiago, um jornalista gay de meia-idade, que sofreu perseguição durante a ditadura militar, e que volta à fazenda de café da sua família, na qual cresceu, após a morte do pai. A volta então irá desencadear o que, talvez, ele tenha evitado nesses vintes anos que passou fora: encarar o passado e os fantasmas de sua origem, sua família e as dores próprias que, de certa forma, relacionam-se com as dores de um país. Nesse sentido, o gótico de Edgar Allan Poe e Agatha Christie, enquanto gênero, surge como uma forma de trazer o mistério e a tensão necessária para construção do casarão mal-assombrado que Tiago agora revisita. Para a O Odisseu, Nery afirma:

“Poe e Christie me interessam menos como “modelo” e mais como método. Ambos entendem que o suspense não está apenas no que acontece, mas no que se oculta. São aqueles silêncios narrativos que o próprio leitor complementa, as pistas que parecem não ser relevantes e a realidade que se oculta sob o verniz de ‘bons costumes’. O desafio foi deslocar esse gótico para um Brasil que já nasce gótico: fazendas erguidas sobre violência, famílias sustentadas por pactos de silêncio, religiosidade misturada com culpa, perseguição às formas de amar consideradas “erradas”. Aqui, o castelo vira casarão, o nevoeiro vira poeira vermelha, e o terror não vem de fora, mas mora na sala ao lado, tomando chá e rezando um terço”.

Marcelo Nery, autor de Flores Astrais (Mondru, 2025). Foto: divulgação.

“Em ‘Flores Astrais’, oralidade não aparece como folclóre decorativo”, afirma Marcelo Nery

A influência do gótico, no entanto, não desloca o livro de Nery da realidade brasileira, mas, na verdade, o aproxima. Isso porque o autor vai relaionar o gênero europeu ao misticismo dos causos e da oralidade brasileira. Portanto, temos no livro de Nery um exercício consciente de escrita, no qual referências estrangeiras e nacionais compõem a espinha dorsal de uma história essencialmente brasileira. Sobre esses elementos do fantástico brasileiro, Nery conta:

A oralidade e o misticismo aparecem naturalmente, pois são realidades que vivencio e vivenciei. E elas aparecem não como exotismo ou folclore decorativo, mas como estrutura de pensamento e um retrato de um Brasil interiorano. Cresci ouvindo histórias sussurradas sob lampião de luz baixa, versões contraditórias de um mesmo fato, rezas que funcionavam tanto como fé quanto como ameaça, segredos que eram contados pela metade. O misticismo, no livro, não explica, mas desestabiliza. Ele cria ruído, dúvida, desconforto. E, principalmente, balança as certezas criadas por um país forçado a mudar suas origens para outras crenças — sempre impostas. A oralidade, por sua vez, tem algumas funções: expõe um Brasil real, quebra a ilusão de neutralidade, cria um ambiente gostoso e confortável de interior que conheço bem: em outras palavras, a oralidade nos abraça e ainda traz pão de queijo assado na hora com café coado no pano.

Não se trata apenas de uma ambientação no espaço brasileiro, como vimos na própria fala do autor, mas sim de elementos que a própria história pede. “Flores Astrais” é uma saga familiar, sim, mas também pode ser lida enquanto a recontação da história do próprio país: um Brasil repleto de desigualdades, dores e delícias, e com um passado que de forma alguma foi elaborado. Desde os fantasmas “recentes” da ditadura militar até os mais antigos, como a escravização dos povos indígenas e africanos, o Brasil ainda tem muito o que elaborar e a arte tem feito um papel fundamental para esta análise. Sobre isso, Marcelo Nery completa:

Acredito que a literatura não exorciza fantasmas; isso seria otimista demais — resolver os problemas do mundo com meia dúzia de palavras. Mas pelo menos acende a luz do corredor e espanta alguns deles. E não faltam fantasmas no Brasil para nos assombrar: escravidão, racismo, autoritarismo, intolerância relligiosa e homofobia, que são os temas abordados no livro. A gente tropeça nisso todos os dias, às vezes escancarado, às vezes velado. E ninguém finge surpresa. Sabemos de nossos problemas, mas é preciso agir e se mover. O livro não pretende ser profilático e nem busca militar: a literatura, para mim, serve menos para oferecer respostas e mais para impedir o esquecimento confortável. Ela força o leitor a sentar na mesma sala que esses fantasmas e ouvir o que ainda têm a dizer. Nem sempre é agradável, mas quase sempre é útil. Se as pessoas lerem e se surpreenderem com algumas das cenas (e se pegar sendo preconceituosa em algum momento e querendo mudar), já terá valido à pena tê-lo escrito.

Você já pode adquirir “Flores Astrais” no site da editora Mondru! O livro em breve chega aos leitores de todo o país.

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