
Você já ouviu Malakai Bayoh?
Se lembrarmos que Yves Klein, em O salto no vazio, manipulou toda a cena, fabricou as condições para o produto final, começamos a entender que as narrativas no mundo são projetadas para que determinados interesses sejam alcançados.
(Imagem: Fotografia ‘O Salto no vazio’, de Yves Klein).
A pressa é inimiga da percepção.
Milton Santos, Por uma outra globalização
Segundo o dicionário online de Português, Dicio, a palavra “saltar” significa: elevar-se do chão com esforço, atirar-se de um lugar para outro. É inegável também a sua natureza poética, como a aproximação com o título de José Saramago, Levantado do chão, que seria uma outra forma de ler — ou saltar. São inúmeras as moradas.
Em 1960, Yves Klein fotografou um artista em um salto, aparentemente livre, de um edifício para o vazio. A obra ficou conhecida como Leap into the Void, ou Salto para o vazio, em português. Diante dos últimos acontecimentos no mundo, tento preservar o mínimo de calma para poder conduzir os meus próprios pensamentos. Mas, ao abrir uma página na internet, ler os comentários de postagens nas redes sociais, as mensagens recebidas no celular, as conversas na fila da padaria, tudo beira uma aparente desordem de entendimento. A deixa foi a frase de Friedrich Nietzsche, ouvida na fila da entrada de um show no final de semana: “É preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante” — um jovem falava para outro sobre o livro Assim falou Zaratustra. Ou seja, é preciso viver o caos para conseguir entendê-lo e sair dele.
Mas tudo vem a ser tangível, manipulável; nada está no mundo hoje de forma desavisada. O estado inaugural consta, talvez, apenas em nosso olhar idílico. Eu acolhi a fala do menino na fila, mas havia um senhor impaciente com a demora, que acabou largando o doce sem o mínimo de eufemismo: “Estrela dançante é o caralho, anda logo seu FDP!”. A turma do “deixa disso” acalmou os ânimos, a fila andou, cada um foi para um lado e o conflito foi desfeito. É tenso. Você já pensou sobre a linha tênue que existe entre o caos e a violência, física ou não?
Sim, porque, se lembrarmos que Yves Klein, em O salto no vazio, manipulou toda a cena, fabricou as condições para o produto final, começamos a entender que as narrativas no mundo são projetadas para que determinados interesses sejam alcançados. E aí é golpe atrás de golpe. Uma ação militar que retira um presidente de seu país no meio da noite para levá-lo a outro e, assim, ser julgado, é um exemplo disso. Já entendemos que há uma disputa pelo poder, dominar o petróleo, fazer frente com a China e a Rússia e quem vier se botar contra os EUA. Sabemos tanto da ação extrema quanto dos crimes do ditador contra o povo venezuelano. Mas a questão é que aqui há um diálogo imediato com o que Yves Klein cometeu. Sim, porque na fotografia vemos um homem saltando de um andar com os braços abertos diretamente para o chão. O que não é mostrado é que há outros homens segurando uma rede para amortecer a queda. Em uma leitura que descontextualiza a intenção artística de Yves com a obra e suas afirmações sobre a produção e o vazio, podemos perceber a facilidade de manipulação das narrativas oficiais, que podem servir a outros interesses nem sempre explicitados.
“Duas coisas ameaçam o mundo: a ordem e a desordem”, como bem escreveu Paul Valéry. A impressão que temos agora é que este tempo nos vende goela abaixo, diariamente, esse vazio em contextos mil. As frases chegam prontas, as imagens tremem, as canções se repetem antes mesmo do fim. Estamos no automático: um coração, um compartilhamento, som ou silêncio qualquer. E se parássemos todos por um instante? Não para responder, nem para escolher, mas apenas para escutar o que insiste em permanecer mesmo quando ninguém percebe. O silêncio impõe autoconhecimento, refina os sentidos.
Em 1987, John Cage criou As Slow as Possible, uma composição musical que vai durar 639 anos — a mais longa do mundo até hoje. Ela começou a ser tocada em 2001 e só chegará ao seu fim em 2640. Fiquei pensando sobre a paciência nessa criação que existe para ressignificar o respirar: uma recusa solene ao nosso modo automático de tão somente reproduzir. O silêncio propõe uma nova chance de pensar. Lembrei também do taiko, tambor japonês, símbolo cultural, que era usado nas guerras para simular o ritmo das tropas e enganar o inimigo, que pensava sempre ter pela frente um exército bem maior do que o seu. As armadilhas e estratégias virulentas deste tempo podem mesmo ser superadas? Como? Por quem?
Há pouco descobri Malakai Bayoh, aquele menino cuja voz parece suspender o próprio ar. É mais do que uma metáfora: é o encontro exato entre o tempo de Cage e o nosso peito. É uma resposta aberta no campo da micro história, honesta, possível novamente. É aprender, enfim, a respirar de novo.
Leia Também: Centelha

Malakai Bayoh – Cantor britânico.

