
Eu queria que ‘Awe’ fosse uma palavra nossa
O mar é uma das chances que temos de fazer diferente. Uma estratégia para burlar a direção já certa que nos assoma quase que semanalmente.
Arte de Sandra Cinto (via Artworks/ Casa Triângulo).
A natureza nunca se apressa, e ainda assim tudo é realizado.
Lao Tsé
De pensar em algo que se desenhe último deste ano, cheguei aqui. Há um tamanho maior em ser tomado pela experiência, awe. Mas será que existe alguma maneira de vivermos neste tempo sem sermos absorvidos por completo por ele? A câimbra é uma contração súbita, involuntária, dolorosa; não podemos evitá-la, em algum momento ela vai surgir, trazendo seu corte, mas também uma série de metáforas, de imagens ambíguas. Outro dia, conversava com um amigo querido, e suas mãos tremiam sem que ele percebesse onde começava ou terminava o seu estado de inquietação. Foram alguns risos e brincadeiras, já que a sua natureza é generosa ao ponto de se colocar para o outro como alguém arteiro, mesmo sem ser nos últimos tempos, mesmo sem conseguir. E, já na porta, falava sobre uma geração de quarenta que se encontra frustrada e depressiva. Eu concordava com aquilo, mas queria ter, naquele minuto, algo a dizer diferente, uma chance de dar a ele aquele riso raiz de volta, algum colibri para longe do chão.
Agora, que dias se somaram sobre os acontecimentos do mundo, penso que há de existir uma força de caminhos distintos, saídas renovadas para as questões mais corriqueiras ou não da vida. Sei que há. Hoje fui andar na orla e ver o sol se pôr; o dia quente finalmente recebeu o seu destemperar quando a brisa do mar chegou calmamente. Aliás, já reparou como o comportamento do público de algumas praias vem sendo tocado? Isso porque, antigamente, o povo corria para curtir as ondas, a areia e o carnaval fora de época que vinha dos carros e das caixas de som penduradas nos postes. Fiquei surpreso quando comecei a notar que a galera desce do buzão, do Uber, das bicicletas e mobiletes alugadas para, simplesmente, olhar o mar. Já reparou a paz que dá?
Descobri que essa calmaria imediata vem sendo chamada de “saúde azul”, que nada mais é do que a consequência do contato com a água, com “espaços azuis”. Os cientistas listaram algumas hipóteses que justificariam esse bem-estar. A primeira está ligada à origem da vida no planeta, pois tudo começou nos oceanos primitivos da Terra. Outra, às nossas lágrimas e ao suor, pois ambos possuem o sal que carrega o mar. Há uma conexão que buscamos com a vida e com os sistemas vivos. Essa hipótese ganha o nome de “biofilia”; assim, justificaria-se a atração humana pelo mar, a necessidade de contato com a natureza.
Por fim, algo que se aproxime de uma teoria da recuperação do estresse psicofisiológico — o que sentimos e pensamos afeta o corpo, e como o estado do corpo influencia a mente. Como também a teoria da restauração da atenção, ou como certos ambientes, especialmente os naturais, ajudam a recuperar a capacidade de atenção mental. Todas elas, trabalhando unidas, conseguem construir mais facilmente a sensação de “bem-estar azul”. O mar facilita a liberdade mental, aliviando qualquer peso ou o que buscamos como uma possível restauração.
Desde que cheguei em casa, coloquei-me a pensar sobre o que ficou além da sensação de relaxamento. Estou mais leve até para pensar sobre o que é estar leve e como conseguir prolongar isso por mais tempo, ou simplesmente acionar esse botão quando for necessário.
O mar é uma das chances que temos de fazer diferente. Uma estratégia para burlar a direção já certa que nos assoma quase que semanalmente. O pessoal da farmácia já me chama pelo nome. Separar uma parte do ordenado para isso já é um traço característico da vida adulta nos dias de hoje. Mas e se conseguíssemos perceber respostas diferentes para questões atuais ou antigas?
Jean-Jacques é morador da cidade de Nice, na França, e estava cansado de ser invadido pelo barulho e pela ameaça constante na porta de sua casa. Traficantes tomavam todo o espaço, e aquela presença crescente só fazia aumentar o medo e a insegurança. E, julgando precisar de uma alternativa diferente, começou a plantar no espaço em torno de sua porta. De um vaso, chegou a 141 no total. Poucos metros transformados em uma plantação — cheiro, estética, sensações e comportamento mudados. Logo, a rua, que era palco de violências, medo e tensão, passou a encorajar cuidado, calma e a presença de outras pessoas que traziam com elas diferentes intenções.
Em ambos, percebemos o encantamento, o respeito e até um certo temor diante das inúmeras demonstrações da natureza, se apertarmos a memória. Tudo parece exercer, em sua existência, uma escrita irreparável diante de nós, uma mensagem. O que se afirma mais fácil quando a calma alcança o seu papel e o mundo nos chega depois de já termos começado a nos entendermos nele. Afinal, não é possível roncar e sonhar ao mesmo tempo.
Leia Também: Centelha.

