Crítica

Andanças por justiça e caminhadas por vingança em ‘Corsária’, de Marilene Felinto

Em Corsária (Fósforo/Ubu), livro de Marilene Felinto, há desde o início um objetivo e uma demanda que só se resolve por meio da justiça para os seus.

Por Douglas Sacramento.

Foto de Ronny Santos (Folhapress).


Quando era pequeno, passava as férias na casa de minha avó materna, uma mulher negra que saiu do interior da Bahia para a capital, mas que sonhava em retornar para sua terra natal. Esse desejo de retorno era como uma máxima: ao assistir ao Programa do Gugu, no quadro “De volta para minha terra”, ela pedia que os netos escrevessem cartas solicitando esse retorno; de volta para o interior, para os familiares, para os amigos que lá deixou.

Além desse anseio, o desejo de viver num sítio que pertencera aos pais – e que acredito não mais existir – também estava no plano da expectativa, funcionando como um mote para esse retorno idealizado. Minha avó contava histórias sobre a vida dela naquele lugar, e uma que chamava a minha atenção era sobre parentes e conhecidas que foram tomadas à força por fazendeiros, tiveram filhos desses homens e, posteriormente, foram abandonadas por eles. Sentia, ali, uma indignação; no fundo, surgia em mim uma vontade de vingar essas mulheres ou de conseguir algum tipo de reparação para elas. Muitas vezes, essas narrativas de minha avó vinham acompanhadas do desejo de ter um neto advogado, capaz de fazer tal movimentação jurídica, ou uma neta historiadora, que pudesse estudar a história da família. 

Essa memória atua como um ponto de partida para a leitura de Corsária (Ubu; Fósforo, 2025), romance da escritora negra e recifense Marilene Felinto. O que move o novo romance da escritora é, justamente, a vingança; uma indignação diante da injustiça, a partir da qual a narradora tenta mover instâncias e abalar poderes pelo direito de justiça. A narradora, que nomeia a si mesma como Ninguém, busca uma reparação econômica para seus pais, vítimas de uma injustiça que acomete tanto o lado materno quanto o paterno, fazendo-os sair do Nordeste e ir para o Sudeste em busca de algo melhor.

No entanto, o nome Ninguém vem acompanhado de adjetivos que ressaltam seus caminhos de vingança:

“Corsária” por causa de fatos verídicos ocorridos no mar, que meu pai sempre nos contou e que, em última instância, no fundo da minha inconsciência, influenciaram minha vida e esta decisão de estar aqui hoje, neste fim de mundo chamado Três Estradas. “Semiárida” porque somos originários da dureza deste alto sertão e porque, assim, portanto, me criaram realista e estoica. “Beligerante”, sim, como cachalote ferida e, por isso mesmo, feroz – minha mente, minha cachola de baleia, é cheia de tanta coisa que teria a mesma grandeza desconforme da cabeça dos cachalotes, elas que também têm dentes como eu. Trecho de “Corsária”, de Marilene Felinto (p.12).

Tanto o pai quanto a mãe de Ninguém são descendentes de pessoas escravizadas. Cristiano, pai da narradora, é fruto da relação de uma mulher branca e rica com um homem negro, porém, não herdou o sobrenome materno e, assim, sem direito às heranças e benesses econômicas oriundas desse lado da família, por ser considerado um filho bastardo. Ao longo da narrativa, durante a tentativa de reparação empreendida pela filha, fica evidente que Cristiano tem uma saúde fragilizada, resultado de uma vida dedicada a trabalhos que a deterioraram. Ao retornar ao Nordeste, Ninguém questiona a situação do pai como empregado nesses ambientes, e, por causa das sequelas dessa situação precária, ele acaba morrendo sem que seus direitos sejam assegurados. 

“O romance retoma temas e caminhos narrativos que estão presentes em outras obras de Marilene Felinto.”

– Douglas Sacramento sobre “Corsária”, de Marilene Felinto.

No mesmo movimento de reivindicação vingativa, a figura materna também carrega demandas abertas e sem justiça. O que move Ninguém é a descoberta da certidão de nascimento de sua mãe, Laiane, na qual consta o sobrenome Lichthart, indicando que faz parte daquela família. Ainda assim, tal fato foi omitido, e Laiane não herdou nada. Quando Ninguém procura a família e mostra a certidão, a veracidade do documento é questionada, pois Laiane exercia a função de empregada doméstica, apesar de ter sido “adotada” pela família rica estrangeira. Trata-se, portanto, de uma dinâmica importante para entendermos quem dita os caminhos narrativos das histórias e de suas versões, bem como quais sujeitos têm suas trajetórias questionadas e apartadas de uma narrativa dada como “oficial”. Esses apagamentos reverberam no corpo da narradora sob a forma de traumas geracionais, como evidencia o seguinte trecho:

Herdei provavelmente de minha mãe uma coluna vertebral defeituosa, uma malformação na genética dela, por provável desnutrição, falta de comida, de cálcio que fortalecesse seus ossos na infância miserável que amargou nestes sertões, de modo que houve a transmissão desses dados deficientes para o meu corpo de filha. Tenho dores nas costas que não teria se fosse uma dessas espécies terrícolas rastejantes, um calango ligeiro. (Trecho de “Corsária”, de Marilene Felinto, p. 23).

Ao tomar conhecimento dessa certidão, Ninguém, que vive em Houston, nos EUA, sai do Norte global e empreende uma caminhada em busca de justiça, retornando ao interior do Nordeste, mais precisamente à região de Timbó. Nesse percurso, confronta os parentes desses sujeitos estrangeiros, antigos patrões e antigas vizinhas de seus familiares, em busca de respostas e da confirmação de que seus pais tinham direito a uma reparação econômica, negada por não terem sido reconhecidos como parte das famílias ricas da região. Tal situação é um reflexo da permanência da relação escravocrata e seus ecos na contemporaneidade, marcados pela falta de reparação, pela injustiça e pelo silenciamento dos modos de reivindicação produzidos pelos sujeitos negros.

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Considerando o contexto em que os pais da narradora viveram, no início do século XX, os efeitos da escravização seriam ainda mais gritantes, sintomatizados no silêncio e na inércia diante da busca por justiça. Em relação aos modos de pensar e estar no mundo, como mulher negra, Ninguém é o contraponto das ações dos pais: ela se movimenta, abala e questiona essas famílias que permanecem enriquecidas à custa de uma mão de obra barata e, muitas vezes, análoga à escravidão. 

[…] O que eu quero mesmo é a indenização por perda e danos infligidos a ela, pelo crime contra sua biografia. Quero que ditem um testamento ao tabelião, em que conste uma botija cheia de ouro, enterrada em algum lugar por aqui, o tesouro que pertenceria a minha mãe, como nas histórias de ficção. (Trecho de ‘Corsária’, de Marilene Felinto, p. 52).

O romance retoma temas e caminhos narrativos que estão presentes em outras obras de Marilene Felinto. No capítulo dedicado à autora no livro Silêncios prescritos: estudo de romances de autoras negras brasileiras, a pesquisadora Fernanda Miranda explana a recorrência do uso do fluxo de consciência atrelado a um movimento que mescla tempos e espaços. Ao analisar As mulheres de Tijucopapo, romance ganhador do Jabuti em 1982, Miranda aponta mecanismos estéticos e de construção da personagem que se apresentam em ressonância mais de 40 anos depois: 

Do interior dos fluxos subjetivos da personagem, a ficção arregimenta o histórico, o social e o político, em toda a complexidade de uma primeira pessoa que se enuncia através de suas fraturas e ruínas. A narrativa acompanha o ritmo do fluxo mental da personagem, resultando em indiferenciação entre os tempos da experiência, da reflexão e da memória da experiência. (Fernanda Miranda em Silêncios prEscritos: estudo de romances de autoras negras brasileiras, p. 248).

Portanto, o livro dialoga com um projeto literário necessário para que o leitor compreenda o trajeto feito pela narradora. A imersão na consciência da personagem mostra uma humanização dessa filha e deixa explícito seu não entendimento diante da falta de ação dos pais na luta por justiça e reparação. A narradora é uma mulher em constante questionamento sobre seus próprios atos. Entender o passado de seus pais está intrinsecamente costurado à tentativa de compreender a si mesma, à sensação de ser estrangeira na própria terra e à falta de enraizamento. Trata-se de uma narradora em constante movimento – Houston, Brasil, Amsterdam.

Logo, o título do romance aposta nesse lugar de movimentação para uma vingança, associado a um sujeito em deslocamento. Corsária remete a esse sujeito que ataca embarcações inimigas e saqueia navios, mas que, historicamente, teria o respaldo do Estado. Por causa disso, o termo virou também um adjetivo para designar alguém movido por ambição ou interesse específico. No livro da Marilene Felinto, há desde o início um objetivo e uma demanda que só se resolve por meio da justiça para os seus.

Marilene Felinto, autora de Corsária. Foto: Agência Pública.

Essa busca leva Ninguém a fazer testes de mapeamento genético e empreender a busca por um documento na Holanda, na tentativa de compreender a genealogia e os antepassados de sua família. Entretanto, trata-se de uma busca infrutífera, que funciona como representação da falta de dados sobre sujeitos bastardos e marginalizados, excluídos das narrativas oficiais dessas famílias ricas que acumularam fortuna por meio da escravização. Esse apagamento revela, ainda, quem detém o poder de definir quem pertence ou não nessa narrativa familiar histórica. 

Se isto pudesse ser escrito como história, já estaria por começar, na página inaugural de número zero, embora eu ainda esteja na fase de levantamento final e fichamento disto que não passa de coleta de dados (embora repleto de provas da usurpação criminosa). Portanto, este esboço, este rascunho em mata-borrão, ainda segue em número negativo da página, número real, não natural e de contagem regressiva: três, dois, um, zero, menos um (3,2,1,0,-1) – sim, que um número negativo é como uma inexistência, uma ausência. (Trecho de ‘Corsária’, de Marilene Felinto, p. 65).

Corsária, de Marilene Felinto/ Editora Ubu/Fósforo, 2025/ 176 pp.

Assim, por meio dessa busca por direitos usurpados de seus pais, temos um romance dividido em quatro partes que narram a ida de Ninguém ao interior do Nordeste até a tentativa de obter justiça, o que ocorre de modo lento e incerto. Tal percurso funciona como uma metáfora para entendermos as dinâmicas de não reparação – uma dívida impagável imposta a sujeitos que sequer são reconhecidos como sujeitos, mas tratados como corpos descartáveis cuja funcionalidade é servir ao branco. Essas dinâmicas que ocorrem com a comunidade negra no decorrer da história do Brasil, revelam os bloqueios impostos a outras versões do passado e a falta de informação sobre uma história obstruída por versões “únicas”, mantidas por quem ainda detém o poder de ditar os caminhos da memória nacional. Diante disso, Ninguém produz seu próprio arquivo, um dossiê que reúne documentos atestando a sua versão da história.

Para além disso, a luta constante por reparação evidencia que a burocracia estatal opera de maneira lenta. Ao final do romance, Ninguém ainda segue em busca de vingança, mas já sem os pais, que morrem ao longo do processo.

No conteúdo desses arquivos, encontra-se a prova cabal de que ninguém vingou tanta injustiça, tanta omissão, tanta usurpação, nem o Estado nem o cangaço, nem a revolução nem a suposta ordem (quando Lampião morreu, em 1938, minha mãe tinha somente três anos). Ora, por que, então, não aceitam que minha ação seja radical? Pois é! E será! (Trecho de ‘Corsária’, de Marilene Felinto, p. 98).

A morte física é precedida por uma sequência de mortes simbólicas, às quais as figuras parentais de Ninguém viveram desde sempre. Corsária é um romance que retira o leitor da zona de conforto, assim como o ato do corsário, que chegava de surpresa para saquear embarcações inimigas. A obra revela, em sua tessitura, camadas que ecoam na história da nação e permanecem até os dias de hoje, expondo quem são os inimigos da história, bem como suas influências e poderes. Como leitor, reconheço, nesses ecos, um coro que remete às narrativas de minha avó e às vozes de outros escritores negros e indígenas da literatura brasileira contemporânea, o que, para mim, torna Corsária um dos melhores livros do ano.

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Douglas Sacramento é doutorando em Estudos Étnicos e Africanos (Pós-Afro/UFBA) e bolsista CAPES. Mestre em Literatura e Cultura (PPGLitCult/UFBA). Desenvolve pesquisas sobre a morte e suas representações na literatura negra e não negra, abordando temas como pós-morte, luto e perda, corporeidade ausente e presente, erotismo e morte, ritos fúnebres e as relações entre morte e religiosidade de matriz africana.